19. Convite para um banquete
Seguindo pela trilha na mata em fila indiana, amarrados um ao outro, João, Rato, Asno, Fininho e Manabu chegaram até uma aldeia indígena, onde foram foram levados a uma oca. Mulheres, velhos e crianças escarneciam dos exóticos forasteiros. Uma das índias, que antes se oferecia na praia, agora se aproximava para farejá-los, reagindo com repugnância quando sentia o fedor dos piratas.
O índio que os conduzia com a lança gritou algumas palavras incompreensíveis antes de deixá-los no interior de uma grande oca com esteiras de palha e algumas redes penduradas, iluminada por algumas fogueiras e um faixo de luz natural que vinha de uma fresta no alto da cobertura.
No fundo da oca, eles perceberam que havia um outro índio, jovem, sentado em um canto, na penumbra. O nativo parecia sussurrar alguma cantoria estranha, mas parou de recitar as palavras assim que Rato e os demais se aproximaram, curiosos.
Era um jovem adulto, provavelmente de outra tribo, com tatuagens marcantes e ainda pintado com as cores de guerra. Coberto de ferimentos e escoriações pelo corpo, tratava-se obviamente de um prisioneiro. Rato tentou fazer contato:
– Ei, amigo.
Assustado, o índio olhou para os piratas e respondeu algo em sua língua incompreensível.
– Alguém tem ideia do que ele falou?
Ninguém tinha.
– Tu não era selvagem? Diz aí pra gente o que esse cara tá falando! – Questionou Fininho, virando-se para Manabu.
– Selvagem é meu ovo, rolha de poço.
Asno então percebeu que o índio apontava para o outro lado da oca, onde havia uma esteira de palha com alguns recipientes.
– Acho que ele quer mostrar alguma coisa pra gente…
Ainda amarrados, os piratas andaram até o canto indicado pelo índio, onde encontraram um verdadeiro banquete à disposição: carnes exóticas, frutas, sucos e muitas, mas muitas delícias nativas.
– Estouramos a boa, moçada! – Gritou Fininho, radiante.
Famintos e mal educados, os piratas atacaram a comida de forma bem mais selvagem que os ditos selvagens. Assistindo àquele espetáculo deprimente do seu canto, o índio se espantou com a falta de civilidade dos brancos (e um preto). Mas logo começou a se divertir com a cena, se aproximando para participar. Apontando cada prato, o índio informava aos piratas o nome daquelas iguarias:
– Milho… Mandioca… Canjica… Tapioca… Tacacá… Moqueca… Pão de queijo.
Quando todos já estavam entupidos de tanta comida e bebida, e agora refestelados nas redes e esteiras do local, um índio mais velho, que parece ser o cacique da tribo, entrou na oca, acompanhado de dois guerreiros.
De forma solene, o cacique proclamou algumas palavras, que pareceram ter sido recebidas com resignação pelo índio da outra tribo. O chefe da aldeia então sentou numa das esteiras e acendeu um cachimbo. Deu uma forte baforada e o repassou para o guerreiro ao seu lado, que fez o mesmo, mas agora passando a Fininho, o primeiro dos piratas na roda.
Fininho olhou para o cachimbo, meio bolado. E os índios olharam feio para Fininho, esperando a tragada. O pirata sentiu que não havia alternativa e deu uma boa baforada naquele fumo que cheirava gostoso. Um tapa foi o suficiente para que começasse a ter alucinações, com sons e visões distorcidas e outras bizarrices.
Um a um, todos tiveram de compartilhar o cachimbo, torcendo para que fosse da paz. Fininho viu as guloseimas do banquete como se fossem personagens animados, dançando sensualmente para ele. João via ouro e jóias por toda parte, enquanto Rato só conseguiu ver o rosto de Ramona em cada uma das nativas. Manabu sonhou estar num harém com as índias mais formosas, e estava mesmo. Só Asno que não via nada, nem sentia nada, apenas ria, pois seu mundo natural já era meio que uma alucinação.
Logo após aquela viagem lisérgica, outras lindas índias, como as que já estavam com Manabu, também entraram na oca, muito enfeitadas e pintadas sensualmente. Elas então foram tirando as vestes dos piratas, com todo o cuidado, e começaram a banhá-los, usando esponjas e cuias com águas fresca, esfregando-os gentilmente com ervas aromáticas. Uma delas ficou impressionada quando se agachou diante de Manabu para remover suas calças. Agora as índias cheiravam os piratas e gostavam do resultado.
Uma das índias lambeu o rosto de Asno, que estremeceu de prazer com o carinho, rindo feito um bobo. Outra botou uma banana na boca de Fininho, mas quando pegou uma berinjela e tentou virá-lo de costas, ele reagiu:
– Quê isso, moça! Tá me estranhando?
– Viva o novo mundo! – Suspirou Manabu, sendo massageado por quatro nativas.
– Acho que eu poderia ficar aqui pra sempre! – Prometeu Asno, ainda ganhando lambidas.
– Eu VOU ficar aqui para sempre! – Enfatizou Fininho.
Mas aquele idílio foi interrompido quando dois guerreiros apareceram por ali e levaram o índio da outra tribo.
– Pra onde vão levar o cara? – Questionou Rato, o único que parecia um pouco desconfortável com a situação.
Mas todos deram de ombros, ocupados demais com prazeres sensoriais do momento. Pouco depois, o cacique retornou com sua comitiva e apontou para os piratas, enunciando uma ordem que pareceu muito séria. Um dos guerreiros puxou a corda que ainda amarrava os prisioneiros, os conduzindo para fora da oca.
Do lado de fora, já estava anoitecendo, e os índios se reuniam em uma grande roda no centro da aldeia, compartilhando uma refeição. Quando os piratas olharam para o moquém, que era uma grelha de madeira montada sobre a fogueira, viram com horror um braço e uma perna humana, já ao ponto. Pelas tatuagens, puderam identificar que era o outro índio prisioneiro. Fininho então se cagou:
– Nossa mãe do céu! Eles vão comer a gente!
