23. A História de Rato

23. A História de Rato

Após o sexo, Rato e Ramona estavam deitados lado a lado, na cama do capitão.

– Será que eu vou me lembrar da minha vida? De como eu era? Da minha família? Você se lembra da sua vida antes de vir parar nesse navio?

– Meus pais tinham terras, eu me lembro dos vinhedos. Se eu voltar, posso reivindicar meus direitos e podemos nos casar…

– Como foi que você veio parar aqui?

– Algumas coisas eu lembro. Outras não sei se sou eu que lembro ou se de tanto ouvir as histórias passei a achar que são minhas próprias memórias…

Rato então passou a rememorar o dia em que foi encontrado, conforme a narrativa do velho Despagne. Quando os marujos avistaram aquele pedaço de madeira boiando, nenhum deles fazia a menor ideia do que poderia estar lá dentro. O mar estava calmo e o navio passou arrastando mansamente as laterais numa espécie de barril cortado ao meio, com alguns farrapos dentro.

Quando içaram o objeto ao convés, foi Marrique o primeiro a ouvir o choro de criança. Segundo suas próprias palavras, “mais um rato tinha subido a bordo”. Para surpresa de todos os piratas, o gigante normando retirou um menino, magro como um camundongo, daquele bote improvisado e ergueu para os outros, que gargalhavam espantados, passando a criança de mão em mão. Não passava de um moleque de quatro ou cinco anos presumíveis, talvez menos.

– É… Eu estava em um navio pirata.

Espreguiçado na cama abraçado a Ramona, o grumete seguiu seu relato. Ele não lembrava de ter visto alguma vez na vida o velho Despagne andando sem muleta, pois usava uma perna de pau. Mas às vezes, quando estava bêbado, o decano contava aos marujos uma história diferente, de como tinha raptado o pequeno Rato de uma rica família espanhola que relutava em pagar uma dívida ao capitão. Não importava que a maioria ali soubesse exatamente o modo como o grumete tinha embarcado no Esperança, resgatado de destroços.

Rato sabia que as histórias de Despagne eram apenas histórias de Despagne. Na maioria delas, além de correr, saltar e nadar, o velho vencia seus oponentes e conquistava as melhores donzelas. Talvez o velho tivesse tido mesmo um passado glorioso na pirataria. O próprio capitão confirmava os relatos, mas sua aparência débil não ajudava a dar credibilidade às narrativas. Russo adorava escarnecer do pobre velho, zombando de suas lorotas. Mas Despagne pouco se importava com a troça e até parecia se divertir. Na verdade, gostava daquela vida e agradecia a seu Deus por cada novo dia em alto mar.

As histórias de Despagne eram distração e consolação para encarar a situação de penúria cotidiana no navio. Durante muito tempo, o velho menestrel foi o único amigo de Rato a bordo. Apesar de PCD, ouvindo mal e quase cego, Cabeças deixava o ancião embarcado com a condição de que mantivesse os marujos entretidos à noite. No fundo, o capitão também nutria algum respeito pelo velho, talvez até gratidão. Mas bem no fundo, quase imperceptível.

Quando ainda era criança, Rato tinha a missão de lavar o convés no início da manhã, quando geralmemte os marujos ainda estavam desacordados. O grumete era um pequeno escravo da tripulação e tinha que fazer tudo aquilo que era repugnante até mesmo para um pirata, como limpar a sujeira das festas que aconteciam após um saque bem sucedido. Na maioria das vezes, era a única pessoa sóbria a bordo.

Mas ele dava seus pulos. Sempre com fome, aproveitava os momentos em que tinha de lavar a cabine para roubar um biscoito do pote do capitão, quando ele se virava de costas. E parava de mastigar quando era olhado. Como o capitão, Rato não tinha do que reclamar. Se estava vivo e comendo, era por causa de sua benevolência. E na mesma hora contabilizava a quantidade de biscoito que provavelmente o menino tinha consumido ao longo daqueles anos. Outras vezes o revirava pelo avesso, sacudindo-o pelos pés, fazendo com que os biscoitos guardados em seus bolsos caíssem no chão.

De certa forma, Rato considerava-se um privilegiado. Como dormia no porão, junto aos tonéis e mantimentos, tinha a simpatia do cozinheiro de bordo, a quem sempre ajudava. Marrique, o mesmo que tinha o encontrado e lhe dado o apelido, era tão respeitado tanto quanto ao capitão. Era um cara grande, quieto, e quase não falava com Rato, mas às vezes o premiava com biscoitos, peixe salgado e até laranjas, o que o deixava muito feliz. Outras vezes pregava peças no grumete, camuflando pimentas ardidas nos quitutes, só para ver o moleque desesperado por água.

Mas a maioria dos dias era de privação e fome. Rato chegou a roubar um pedaço de queijo de uma ratoeira armada por Fininho no porão. Enquanto ele arrancava a migalha de queijo da boca do roedor esmagado, o pirata preferiu ficar com a carne do bicho.

O apelido era perfeito, pois o menino disputava com os roedores o porão do navio e as migalhas que sobravam das refeições. Passava a maior parte do tempo escondido, na expectativa de ser poupado do trabalho pesado. E jamais aparecia no convés à noite. Tinha aprendido desde muito cedo a viver com medo dos outros marujos e a fugir deles sempre que possível. Gente perigosa, alertava o velho Despagne.

Tinha medo especialmente de João. Despagne também sentia um profundo desprezo pelo contramestre do Esperança e sempre contava a Rato o quão ganancioso e traiçoeiro ele podia ser. Diziam que era afilhado do capitão, e João nunca escondia o desejo de sucedê-lo no comando do navio pirata. Entre os marujos corriam boatos de que seria um dos muitos bastardos de Cabeças. E por isso era um dos preferidos. Mas certa vez o pequeno Rato o seguiu quando João se esgueirou até a cabine, e o viu segurando o cabo de seu punhal enquanto olhava fixamente para Cabeças, que dormia profundamente. Seja qual fosse seu objetivo, o contramestre desistiu quando percebeu que o moleque o espiava.

As noites passadas ouvindo Despagne faziam Rato sonhar com os mundos descritos pelo velho em suas aventuras. Eram histórias de donzelas, monstros, tesouros, palácios e templos tão cheios de luxo, riqueza e magia que o menino tinha até dificuldade de imaginá-los. E por isso passava boa parte do tempo numa rede do porão, sob a luz de uma vela, folheando os restos de um livro de iluminuras meio esfrangalhado que mostrava um pouco das tais donzelas, monstros, tesouros, palácios e templos.

No cesto da gávea, onde costumava dormir quando os piratas estavam pilhando alguma vila litorânea, Rato ficava olhando os incêndios e a devastação causada pelos ataques. E retornava ao porão quando os piratas voltavam ao navio com o butim. Alguns tinham sido feridos, outros mortos, a maioria banhada em sangue, mas todos fazendo festa.

Já os portos “amigos” onde o Esperança atracava mais pareciam uma extensão do navio: sujeira, muita sujeira, e gente com péssima aparência e hábitos, sempre disposta a fazer qualquer coisa por uma moeda. Por motivos óbvios, sempre evitava desembarcar nos covis.

Ao contrário da maioria dos marujos, Rato nada tinha a dizer sobre família ou um lar. Mas ele sonhava com imagens de uma senhora bonita de cabelos claros e gostava de pensar que era sua mãe.

De volta à cama na cabine do capitão, onde Rato estava deitado com Ramona, ele enfiu concluiu sua história e a questionou:

– E você, Ramona? Como era sua vida antes daqui? Ramona?

A prisioneira não respondeu, porque já estava roncando.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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