20. Os canhões do Esperança

20. Os canhões do Esperança

Enquanto eram levados para o que parecia ser uma morte horrível servindo de jantar para os índios, Fininho começou a rezar e fazer o sinal da cruz sem parar. Manabu se desesperou, chorando como criança. Asno, como sempre, estava em estado semi catatônico. Ainda que rivais, João e Rato tentavam manter alguma serenidade para lidar com aquela situação crítica.

A música, a dança e toda aquela rica culrura indígena, que de dia tinha soado como algo idílico e maravilhoso, agora mais parecia um ritual satânico. Fininho viu uma criança tomando de forma inocente um mingau feito com miolos cozidos no próprio crânio da vítima. Outra mulher roía um dedão de um pé assado, enquanto um índio velho dava uma gargalhada macabra, se lambuzando com as vísceras de um pote.

Aquele teatro macabro antropófago se estendeu noite adentro. Já na madrugada, entrou em cena um guerreiro fantasiado com penas de coloridas e um cinturão decorado com cabeças de macaco empalhadas, que parecia ser algum tipo de sacerdote carrasco. Armado com uma borduna cerimonial, dançou e rodopiou ao lado dos prisioneiros, que tremiam de medo a cada aproximação do sujeito.

O que ninguém ali sabia, entretanto, é que naquela mesma noite havia outros índios escondidos na mata ao redor da aldeia. Estavam pintados para a guerra da mesma forma que o índio que tinha virado churrasquinho. E àquela altura, já se esgueiravam pelas sombras ali bem perto. Enquanto avançavam silenciosamente, emitindo sinais de bichos um para o outro, a dança da morte no centro da aldeia tinha chegado ao clímax. O carrasco partiu violentamente na direção de Rato, pronto para abatê-lo com um golpe na base do crânio.

Para a surpresa de todos ali, o índio fantasiado levou uma flechada certeira na cabeça e tombou ao chão, bem à frente do grumete. Os índios inimigos deram o seu grito de guerra e invadiram a aldeia, o que deu início a uma batalha campal.

João pegou a borduna do carrasco caído no chão. Mesmo ainda um pouco grogue do cachimbo, ele reagia à situação como um bom soldado. Junto com Rato e Manabu, usaram as cordas em que estavam amarrados para lutar contra os invasores. Asno e Fininho, sem entender nada, apenas tentavam se proteger dos ataques e assistiam à batalha alucinados, sendo usados pelos outros três piratas em seus movimentos de ataque e defesa.

Asno, que era o único ali que não estava doidão, viu um caminho de fuga e gritou para os outros:

– Por ali, pessoal! Sebo nas canelas!

Atrapalhadamente, os cinco piratas correram amarrados uns aos outros em direção à trilha de volta à praia. Na fuga, João viu um dos índios da aldeia prestes a executar um jovem guerreiro da tribo invasora com um machado de pedra. Sem atrasar os companheiros, ele usou a borduna para golpear o agressor na cabeça, por trás, salvando o invasor, que ainda era um adolescente.

Quando chegaram à praia, quase de manhã, os piratas correram para o bote e lançaram-no ao mar, remando o mais rápido possível que podiam. Da gávea, Russo avistou a movimentação na praia e acordou a tripulação do Esperança:

– Capitão! Eles apareceram! Estão voltando no bote, e parecem remar desesperados!

Todos apareceram no convés para ver a cena, incluindo Ramona. O capitão se aproximou da ponte para checar a situação:

– E não poderia ser diferente! Tem uma pá de selvagens pelados atrás deles!

No outro lado da praia, Cabeças viu um grupo de índios embarcando numa canoa e remando rapidamente em direção ao bote. Asno sentiu a aproximação dos nativos, ficou nervoso e acabou perdendo o seu remo. Full retard. Desesperado, Fininho gritou com o companheiro, gesticulou muito e também acabou perdendo o seu remo.

Asno e Fininho se abraçaram chorando no bote esperando o pior, mas João, Rato e Manabu continuavam a remar sem trégua. Quando os nativos já se encontravam bem perto e preparavam as flechadas, um tiro de canhão explodiu na água, entre o bote dos piratas e os índios, que pularam da canoa aterrorizados.

Ao lado dos japas, China fez um sinal de positivo para o Capitão, que sorria:

– Agora mete bala naquele matagal, China!

China gritou aos seus homens e o canhão foi apontado para a floresta. João, Rato e Manabu agora remavam aliviados. Asno e Fininho continuavam abraçados e chorando, mas agora era de emoção. Os projéteis explosivos do canhão do Esperança explodiram pelo local, provocando um barulho retumbante que encerrou a batalha dos selvagens.

Amedrontados, os índios invasores fugiram pelo mato. Os cinco piratas finalmente puderam subir de volta a bordo da caravela, onde Asno e Fininho beijaram o assoalho de seu lar flutuante, com devoção quase religiosa.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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