21. O Império de Cabeças

21. O Império de Cabeças

– Dom Rafael! Felizmente estás a salvo! – Exclamou Ramona quando viu Rato subindo a bordo. Os demais piratas estranharam: “Dom Rafael?”, e começaram a gargalhar. Rato não sabia onde enfiar a cara. A sessão de zoeira foi interrompida por Russo, que apontava para a praia:

– Capitão! Parece que eles querem nos dizer alguma coisa!

A tripulação do Esperança observou com curiosidade a movimentação dos índios na praia. O cacique, que estava prostrado na direção do navio, ajoelhado, se curvava em sucessivas reverências. Os índios da tribo inimiga tinham fugido apavorados. E todos os demais acompanhavam aquele gestual de agradecimento e adoração.

–  Vocês estão vendo o mesmo que estes olhos podres de tanto sol estão vendo? – Disse Cabeças, começando a entender o que estava acontecendo.

– Parece que os selvagens estão nos reverenciando. – Disse Piri.

– Sim! Devem pensar que somos os deuses do trovão! – Exclamou Marrique, satisfeito.

Os piratas começaram a rir. Cabeças gostou demais daquela situação:

– Preparem o bote! Nós jogamos o verde e vamos colher o maduro, moçada!

Os piratas comemoraram, gritando e dançando.

– Você vai ficar no navio com o velho Despagne, de olho na prisioneira. – Disse o capitão para Rato, que tentou disfarçar o contentamento mas não conseguiu.

Pouco depois, Cabeças desembarcava na praia com João, China, Asno, Fininho e Manabu. O cacique se aproximou da comitiva com respeito e declarou algumas palavras em seu idioma, entregando um presente para o capitão do Eaperança. Era um “Guara Abacu”, manto cerimonial ricamente decorado, tecido em uma complexa trama de envira e algodão, entremeada com plumas vermelhas de guará, e penas azuis e amarelas da araruna.

Cabeças pegou o manto sagrado dos indígenas e, meio sem saber o que fazer, usou o pano para dar uma boa enxugada no suor e no sebo do seu pescoço e da sua cara suja, que não viam um banho há muito, muito tempo. Os índios ficaram enojados, mas ninguém ousou protestar. O capitão então quebrou o gelo dando um tapa amigável no ombro do cacique, que enfim sorriu.

Toda a tribo na praia gritou de felicidade, bradando suas armas à nova aliança. Os piratas foram então conduzidos novamente à aldeia, mas dessa vez eram convidados de honra. Se antes, quando eram prisioneiros, os forasteiros se comportaram como verdadeiros animais selvagens quando viram o banquete oferecido pelos indígenas, agora que eram tratados como semideuses todo e qualquer resquício de parcimônia tinha simplesmente desaparecido.

Fininho comeu ainda mais do que antes, agora incluindo partes humanas, para horror de Asno, que fumava um cachimbo da paz numa roda de anciãos da tribo. Manabu se enfurnou em uma oca com uma dezena de belas jovens, enquanto China, que dividia com os índios uma bebida nojenta feita de cuspe, começou a tossir. Estava resfriado desde a noite anterior, mas era uma bobagem que não o impediria de se divertir.

– Viva o novo mundo! – Comemorou Manabu, dessa vez massageado por dez nativas.

– Acho que eu poderia ficar aqui pra sempre! – Prometeu Asno, ganhando lambidas de uma anciã.

– Eu VOU ficar aqui para sempre! – Enfatizou Fininho, roendo o dedo de um pé assado.

– Vamos todos! Vamos todos! – Decretou Cabeças, cercado de jovens nativas e ganhando lambidas de anciãs, enquanto comia um mingau de miolos.

Mais uma vez, os piratas estavam vivendo cenas de sonho em terras cariocas. Uma festa profana e maravilhosa. Naqueles dias de idílio, os marujos nadaram em rios, andaram pelos campos e se divertiam na praia pegando onda de peito, ou com tábuas, e jogando água uns nos outros, como crianças. Exploraram toda a região e declararam a posse de grandes porções de terra. No alto do morro do Corcovado, de braços abertos, o Capitão Cabeças estava mais feliz e mais sujo do que nunca, exclamando aos quatro ventos, em felicidade suprema:

– ISSO AQUI… É MEU! É MEUUUUU!!!!!

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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