8. A próxima vítima
Assim como antes, os marujos davam seu jeito de passar o tempo, espalhados no convés. Uns pescavam, outros jogavam cartas, um deles tocava uma gaita, e alguns dormiam, esperando a morte chegar. Uma névoa baixa e branca tomava a região, o que aumentava a sensação de que aquela rotina de pilhagem e vagabundagem sempre se repetiria.
E se repetiu. Da gávea, Russo mandou seu alerta:
– Alô vagabundagem! Olhõões!
Como de costume, os homens despertaram rapidamente, animados, dando início ao ritual de ataque.
– Alô olhôôeees! A estibordo!
E como de costume, o capitão já estava a postos, dando ordens para que China e os Japas preparassem o canhão. Balançando no cesto da gávea, Russo deu mais uma golada no odre em que levava sua cerveja choca e sorriu feio, animado ao perceber que se tratava de uma nau de mantimentos, com bandeira portuguesa.
– China! Dessa vez com munição normal, hein? Caralhos me fodam se perdermos outro butim!
O mestre artilheiro repassa o comando para os japas:
– Mu nin xaon non mal! Mu nin xaon non mal!
– E, China… É pra acertar a porra do mastro! – Alertou Cabeças.
China então cerrou os olhos para ajustar a inclinação do canhão, e deu mais ordens aos artilheiros:
– Mi la nu pau! Mi la nu pau!
Satisfeito, o capitão autorizou o disparo, e o canhão cuspiu fogo com fúria. O projétil faz sua parábola no ar, mas contrariando a orientação de Cabeças, acertou a embarcação portuguesa na linha d’água.
A nau começou a afundar rapidamente. Furioso, o capitão arremessou um punhal na direção da cabeça grande do mestre artilheiro, que precisou se desviar para não ser morto.
– Com mil caralhos! Eu falei pra mirar no mastro! Está cego? Vou abrir esse teu olho fechado na faca, seu anão amarelo desgraçado! – Esbravejou Cabeças.
Como sempre, China repassou o esporro estapeando os japas:
– Zi zon bu lu pa ka la lu! Zi zon bu lu pa ka la lu!
Sem dar-se por vencido, Cabeças ordenou ao piloto do Esperança:
– Rápido, Piri! Toda vela rumo ao alvo! Antes que tudo seja tragado pela gula de Netuno!
Com muito afinco, os piratas trabalharam para acelerar o Esperança em direção à próxima vítima, antes que afundasse. Mas aí a névoa baixa do horizonte começou a se dissipar. E revelou que aquela nau portuguesa não estava sozinha. Em sua escolta, havia uma esquadra com mais doze naus e caravelas, fortemente armada.
– Fudeu! – Exclamou o capitão, sintetizando com precisão a impressão do resto da tripulação.
Agora os olhões estavam mais do que arregalados. É claro que aquilo iria dar merda.
– Meia-volta, Piri! Meia-volta! – Ordenou Cabeças, desesperado.
Sob o comando do piloto, Manabu puxou a cana do leme com toda força, enquanto João correu à ponte para mudar a posição de uma das latinas.
– Vamos contornar a grande Canária pelo norte, capitão! Assim saímos da vista! – Sugeriu o contramestre.
– Encheste a cuca com o que sai do cu de um gaivota, Ramalho? E por acaso não poderiam dividir a esquadra e nos cercar pelos dois lados, seu filho de uma rapariga manca?
João não teve tempo de retrucar, pois todos logo ouviram um forte estrondo.
De uma das caravelas da poderosa esquadra portuguesa, podiam avistar o brilho inconfundível de mais um canhão sendo disparado, de longe. E logo depois, outro. E mais outro.
Cabeças arregalou os olhos, apavorado.
– Fudeu!
