13. O Descobrimento do Brasil
Após o alerta, o capitão brotou no convés de Esperança imediatamente, como de costume. No cesto da gávea, Russo apontava o céu:
– Capitão! Aves costeiras!
Eram dois urubus que agora rondavam o barco, meio que intuindo que aqueles piratas maltrapilhos e mortos de fome poderiam em breve virar carniça. Mas Marrique chamou a atenção para as algas que flutuavam por ali:
– Botelhos!
Então Russo voltou a gritar, parecendo muito surpreso:
– Capitão!
No horizonte, ainda bem ao longe, todos começaram a enxergar terra firme. O monte pascoal, em toda a sua glória virginal, aparecia bem à frente da tripulação do Esperança, que àquela altura já tinha parado tudo que fazia para assistir à descoberta.
– Pu-ta-que-o-pa-riu! – Exclamou Cabeças surdamente, articulando as sílabas sem emitir qualquer som.
Além do capitão, estavam todos boquiabertos. João e Rato já tinham deixado a cabine, e até Ramona estava agora no convés, pois deixaram a porta aberta. Geral incrédulo, vendo crescer à frente aquela colossal massa de terra.
– A terra é tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa! – Surpreendeu-se Piri.
– De ponta a ponta é toda praia. Muito chã e muito formosa! – Observou Marrique.
– Ares frescos e temperados como os do Entre-Douro-e-Minho! – Maravilhou-se Fininho.
– Águas são muitas! Infinitas! – Exagerou Asno.
– Dar-se-á nela tudo, por causa das águas que tem! – Profetizou Manabu.
– Deuses do Céu! Mas essa terra é o Paraíso! – Decretou o capitão, embasbacado.
– Era… – Avaliou Piri, pessimista.
Enquanto isso, no convés da nau capitânia da frota militar portuguesa, Cabral e seus comandados também ficaram estarrecidos com o que viram.
– Os castelhanos são mesmo uns cretinos! Pero, temos de avisar a D. Manuel que aquele tratado é uma bosta!
– Escrevo isso nos registros, Capitão? – Perguntou o escrivão.
– Sobre o tratado? Claro que não! E nem mencione nada sobre aqueles malditos piratas!
– E quanto à nau de Vasco de Ataíde, meu capitão?
– Escreva aí: “Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para poder ser!”
Pero Vaz ouviu as palavras atentamente, se esforçando para reprozi-las com precisão em sua pena. Cabral concluiu, ditando as palavras a seguir:
– “Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras partes. Mas… não apareceu mais!”
No Esperança, Cabeças percebeu que os portugueses tinham parado de avançar, e resolveu aproveitar a deixa:
– Sebo nas canelas, Piri! Toca essa desgraça o mais rápido possível pra longe dos portugas!
– Rumo ao norte ou para o sul, Capitão?
– Vamos para a colônia de Santo Domingo ao norte, Capitão! As Índias que os castelhanos acharam!
– Para o sul, Piri! – Reagiu Cabeças, mal humorado, quando ouviu a sugestão do grumete: – Ninguém aqui tem a mínima puta ideia de onde fica essa tal Santo Domingo…
Rato tentou esboçar um argumento, mas o capitão continuou, olhando para Ramona:
– E se soubéssemos, quando chegássemos lá os espanhóis iam nos empalar pelo rabo, isso sim! Além do mais, quem foi que disse que o meu bibelô está à venda?
Cabeças então se deu conta de que algo ali estava fora da ordem:
– Por falar nisso, algum filho de uma égua poderia me dizer o que a guria estás a fazer no convés?
– Capitão! Foi dela a ideia de consultar o oráculo, o que nos salvou a todos!
– De fato, a moça tem algum crédito… – Disse o capitão, após coçar a barba piolhenta por uns segundos: – E o que o oráculo nos diz agora, señorita?
No mesmo instante, Ramona fechou os olhos e ergueu a carranca de madeira, fingindo ter novas visões:
– Sim, eu posso ver! Haverá uma comemoração especial pelo grande feito de termos escapado de uma poderosa esquadra inimiga!
– Mas não é que esse oráculo é bom mesmo! – Reonheceu Cabeças, enquanto toda a tripulação já dava gritos de alívio e… esperança.
A movimentação dos piratas logo foi percebida pelos portugueses:
– Os fora-da-lei estão fugindo para o sul, senhor! – Atestou o imediato.
– Danem-se os piratas! Vamos aportar à costa! – Definiu Cabral.
Enquanto descia do convés superior para começar a organizar o desembarque, o subalterno resmungou:
– Sem foco, prioridades que mudam a todo instante… De que serve estudar esse manual? Que se dane!
E atirou seu livrinho de regras ao mar.
