22. A primeira noite de um homem
Enquanto os piratas aproveitavam todas as delícias daquela terra firme, Rato e o velho Despagne cuidavam do Esperança, que estava fundeado na baía. Também deveriam vigiar a prisioneira, como o capitão tinha lhes ordenado. Sem a vigilância dos demais, e contando com o quadro de senilidade do companheiro, o grumete se sentiu confortável para paparicar Ramona de todas as formas possíveis.
Quando o velho contador de causos foi levar uma refeição para a prisioneira, que continuava confinada na cabine, Rato o interrompeu:
– Deixe-me ajudá-lo, Despagne.
– Não se preocupe meu jovem, tenho tudo sob controle. – Respondeu o idoso, tremendo com uma bandeja na mão.
– Eu insisto, meu velho! Pode descansar que eu levo a comida da Ramona, digo, da prisioneira.
– Descansar? Mas eu dormi a tarde toda! Bobagem, pode deixar comigo.
– Durma mais, ora. Sei como velho gosta de tirar uma sonequinha, não é? – Disse Rato, já segurando a bandeja.
– Velho é o caralho! Larga isso, moleque insolente! – Irritou-se Despagne.
– Com essa mão de tremedeira vai jogar toda comida no chão, velho gagá!
– Veja lá como fala comigo, Rato! Eu te criei desde que você molhava a cama! Te ensinei tudo que você sabe, e agora você vem me tratar como um tolo!
– Me ensinou tudo menos a ler e escrever! Agora me dá essa bandeja!
– Não!
Os dois disputaram a bandeja ferozmente, enquanto Ramona ouvia a confusão de dentro da cabine. Como resultado, a
bandeja se espatifou no chão, espalhando os potes de comida e tudo mais. Curiosa, a prisioneira se aproximou da porta para ouvir o que se passava do lado de fora. Rato recolheu agilmente as coisas do chão de volta à bandeja, soprando a sujeira nervosamente sob o olhar reprovador do velho. Então se levantou e parou diante da cabine, pronto para bater à porta.
– Eu sei por que você está fazendo isso, meu jovem. – Disse Despagne, compreensivo.
– Isso o quê?
– Sim, você passou a vida inteira no meio de homens. Eu vejo como você olha essa jovem. Cheio de… de…
– Que bobagem, velho. Eu apenas entendo a prisioneira. Você sabe, eu também…
– Exato! Mas você nunca será como ela, filho! – Interrompeu o ancião contador de causos.
– Como assim?
– Você sabe. Ela nasceu de outro jeito!
– Não, eu também…
– Não, Rato! Você nunca será uma donzela! Você nasceu homem! Vai morrer homem! E não venha com essa conversa de ser uma donzela aprisionada no corpo de um marujo porque eu sou velho demais para essas modernidades!
Rato suspirou impaciente e deu três batidinhas na porta da cabine, anunciando a comida.
– Oh, Don Rafael! Obrigado por me trazer o jantar. – Agradeceu Ramona quando o viu.
Ela então pegou a bandeja, se sentou à mesa da cabine conforme a etiqueta e começou a devorar a refeição, com uma fome que já era de pirata. Rato olhou ao redor, procurando algum assunto.
– E então? O que você estava fazendo?
– Ah, o de sempre né? Minhas coisinhas de prisioneira num navio pirata. Comer mal, dormir pouco, ser violada diariamente por um porco fedorento… – Respondeu Ramona, com a boca cheia de biscoitos.
– Eu entendo como você se sente, Senhorita Ramona. – Disse o grumete, triste e constrangido.
– Claro que entende. Afinal, você também é uma donzela, não é? – Disse a jovem sorrindo, com sarcasmo.
– Ora! Aquele velho gagá!
Rato então se aproximou e se ajoelhou diante da prisioneira, que ainda raspava com sofreguidão as últimas ervilhas cozidas de um pote.
– Se eu pudesse manejar esse barco sozinho, juro que levantaria âncoras agora mesmo e a levaria de volta à sua família!
– Bom, se você quer me levar de volta pra minha família é só afundar essa banheira no meio do Atlântico, porque foi pra lá que vocês mandaram todo mundo.
– Então eu a levaria para Santo Domingo!
– Para o meu futuro marido?
– Sim!
– Você me entregaria de mão beijada para outro? Só pra provar que é um honrado nobre de sangue azul?
– Sim!
– E faria isso sem tocar em nem um fio dos meus cabelos em toda viagem?
– Hã… Sim?
– Então o velho tem razão! Você não passa de um maricas!
– Não! Eu sou homem! Com H maiúsculo! E acredite, sei o que isso quer dizer, porque…
– Porque você sabe escrever. Ok, Don Rafael, você já mostrou que sabe usar a pena. Agora me prove que sabe usar a espada!
Ramona saltou sobre o grumete e começou a beijá-lo.
– Mas, Ramona… E sobre não tocar em um fio do seu cabelo?
– Tarde demais, meu amor. Teu capitão nojento já arruinou minhas… Minhas chances de ser alguém nessa vida. Meu ex-futuro marido jamais me aceitaria. Agora só resta você pra me proteger e me levar de volta à Europa. Você, Don Rafael!
– Sim, Ramona! Sim!
Rato não conseguiu conter seus hormônios juvenis em ebulição e avançou sobre a prisioneira. Aos beijos, logo estavam rolando na cama da cabine, forrada com palha e crina de cavalo. Era a primeira vez do grumete, que repetia sem parar o nome da moça durante o ato, de forma apaixonada. Para ele foi um coito febril, mas naqueles poucos minutos Ramona olhou três vezes para o teto, entediada, esperando pacientemente o jovem terminar o serviço.
