6. Rato e a prisioneira

6. Rato e a prisioneira

No dia seguinte, pela manhã, Rato viu a prisioneira por uma fresta do madeirame, enquanto trabalhava com os negros em reparos no alto do castelo de popa. Ela estava deitada em um estrado na cabine do capitão.

Posicionando um olho entre as ripas, Rato ficou contemplando cada detalhe do formoso corpo da jovem aragonesa, até notar que ela tinha percebido que alguém a observava. Tímido e apreeensivo, Rato tirou o olho por alguns segundos, mas lentamente retornou a um ângulo de onde novamente poderia ver o interior da cabine. Foi quando se assustou com o olho da jovem aparecendo na fresta.

– Qual o seu nome, marujo? – Perguntou a donzela, com sua voz doce e sensual.

– Ra… – Antes de terminar a palavra, constrangido, o grumete resolveu inventar: – Rafael.

– Prazer, Dom Rafael dos Mares… – Disse a prisioneira, jogando uma isca que foi logo mordida pelo jovem pirata.

– Sou Ramona Dolores Sofia Castilhos Mendoza Licarno Pizzano de Valenciela, filha de Dom Ramon de Tarragona, guardião do principado da Catalunha e primeiro dos pares d’el Rey Fernando de Aragão.

Rato ficou embasbacado com o pedigree da moça. Além de linda, era nobre.

– Mas o que tão formosa dama faria embarcada numa nau, rumo às tais Índias?

– Fui prometida por meu pai ao Senhor de Santo Domingo, uma nova colônia d’El Rey no poente, muito rica em ouro e pedras!

– Prometida? Mas que cruel destino, señorita!

O grumete não percebeu, mas de longe João Ramalho assistia ao que parecia ser Rato falando sozinho. Aproximando-se sorrateiramente, o contramestre o repreendeu:

– Tá falando com quem aí, rato sujo?

– Com ninguém… Só pensando alto. – Respondeu o grumete, meio assustado, se afastando da fresta.

– Tá pensando alto demais, moleque. Alto demais…

E os próximos dias passaram calmos no Esperança, consumindo os recursos obtidos na última pilhagem, enquanto navegavam para o sul em direção a ilha de São Nicolau, em Cabo Verde, esperançosos de interceptar alguma nau desgarrada, ou saquear uma vila.

E em todo o fim de tarde o capitão saía de sua cabine ajeitando as calças e se alongando, após passar a tarde trancado na cabine com a prisioneira.

E toda noite Rato aproveitava alguns momento para trocar olhares e palavras com Ramona, pela fresta no tabuado que agora já era a deles. E quando ninguém estava olhando, o jovem grumete chegava a partilhar com a moça água e biscoitos de sua própria ração.

E a cada dia João ficava mais desconfiado do comportamento de Rato, ao mesmo tempo em que arquitetava mentalmente um plano para que pudesse entrar na cabine e ficar a sós com a ex donzela.

E em todo momento Ramona observava atentamente não apenas Rato, mas toda a tripulação do Esperança, decidida a sobreviver àquele inferno, nem que pra isso tivesse de ludibriar o capeta.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

Deixe uma resposta