3. Parco butim
– Piri, vamos navegar junto aos destroços pra ver se encontramos algo que valha mais que uma badalhoca no rabo! – Esbravejou o Capitão, enquanto China repreendia os japas artilheiros por terem feito exatamente o que o capitão pediu:
– Zi zon bu lu pa ka la lu! Pol bu la di má! Pol bu la di má!
Navegando por entre os destroços da nau castelhana, os marujos içaram para dentro do Esperança tudo que encontraram boiando e parecia ter algum valor ou ser comestível. Um dos pobres marujos sobreviventes, vestido em trajes servis, se agarrava a uma tábua r tentou pedir clemência, mas foi imediatamente abatido por Cabeças com um tiro de arcabuz.
– Já temos bocas famintas demais por aqui.
No convés, João Ramalho revirou o parco butim, que não era muita coisa, mas pelo menos garantitia mais alguns dias de sobrevivência. Enquanto isso, o velho Despagne fingia registrar o inventário rabiscando traços aleatórios num velho caderno de papel de trapo. A pena quase não tinha mais tinta, o que não fazia a menor diferença.
Uma pequena caixa de aspecto mais luxuoso chamou atenção de João. Quando o contramestre abriu a tampa, viu uma carta com selo de nobreza e muitas palavras que aos seus olhos analfabetos pareciam hieróglifos incompreensíveis. Estranhando a movimentação de João, Rato se aproximou, mas não viu quando ele discretamente guardou o documento em sua casaca. Do convés superior, o negro timoneiro que chamavam de Manabu gritou:
– Ó pai ó isso aqui, minha gente!
Todos correram para a beira, onde puderam avistar um casal de náufragos, em roupas nobres, agarrados a um pedaço do madeirame do navio destruído. Asno então sacou uma pistola e mirou:
– Já temos muita boca faminta aq…
O marujo nem chegou a terminar a frase, pois levou uma bofetada desclassificante do capitão:
– Tá maluco, asno dos infernos! Traga a bordo os dois infelizes!
– Sim, capitão! Rato! Traga a bordo os dois infelizes!
Cabeças apenas olhou para o subordinado, que entendeu o recado:
– Rato, me ajuda a descer o bote!
Com a ajuda do grumete, Asno resgatou os sobreviventes. Rato não conseguia disfarçar o quanto ficou visivelmente impressionado pela beleza da donzela de cabelos escuros e olhos penetrantes. Quando os náufragos subiram a bordo do Esperança, Cabeças os saudou com seu estilo habitual:
– Pelas bolhas dos peidos de Netuno! Nem tudo está perdido! Se os aragoneses não sabem construir barcos, pelo menos sabem como fazer uma mulher bonita!
Todos os olhos se voltaram cobiçosamente para a prisioneira, cujas roupas molhadas coladas ao corpo revelavam toda sua sinuosidade. Os marujos literalmente babavam, excitados. Cabeças então resolveu dar alguma atenção ao prisioneiro, que trazia um objeto apertado contra o peito:
– Mas vamos começar pelo pior. Quem é você?
– Chamo-me D. Federico Castañeda, súdito de sua Majestade, Rei de Arag…
– Cala a boca, traça catalã. Não quero saber teu nome nem quem é o rei de quem você lambia a bunda! – Disse o capitão, puxando o infeliz pela orelha: – Agora só me importa saber se você é alguém que valha a pena deixar vivo.
Apavorado, o fidalgo deu um sorriso amarelo, e lançou um apelo desesperado:
– Sou de grande valia, meu capitão! Não fosse assim, não estaria a bordo de tão importante missão do Reino de Aragão para as Índias, navegando para o ocidente!
Cabeças sabia que era burro, mas aquilo era demais. Afinal, todos ali sabiam do abismo após o Mar Oceano, se navegassem para oeste. Bem, quase todos. Piri, o piloto de origem turca que era chamado de judeu pela tripulação, não demonstrou qualquer surpresa com aquela revelação, apenas um certo enfado.
