12. João ataca Ramona

12. João ataca Ramona

No Esperança, os piratas continuavam apreensivos. Se, por um lado, a frota portuguesa novamente estava ficando para trás, por outro, estavam avançando rápido em direção ao desconhecido, o que poderia jogá-los no abismo. Em meio à tensão geral, Rato percebeu que João não estava no convés, nem cuidando das velas, ou do leme, e em nenhum lugar à vista. No alçapão do porão, perguntou a Pé-de-Porco se o contramestre estava ali, já sabendo que não estava.

– Uáun áa.. áa… Aí aun. – Respondeu negativamente o amigo, em seu dialeto próprio.

Preocupado, Rato teve um mau pressentimento de que João estivesse na cabine do capitão, e correu para lá. Quando o grumete adentrou o recinto, forçando a porta, viu o que entendeu ser o contramestre violentando a prisioneira, e se revoltou:

– Patife! Tire já suas mãos da señorita!

– Fica tranquilo que eu deixo o bagaço pra você, rato sujo.

– Ela… Hmmm… Ela é propriedade do Capitão!

– E vai continuar sendo. Só vou usar um pouquinho…

Enfurecido, Rato partiu para cima de João, que se desvencilhou de Ramona e reagiu, dando início a uma luta agarrada na cabine. Na confusão, o oráculo acabou caindo no assoalho, e rolou para um canto da cabine. Quando João já parecia ter dominado Rato, ameaçando matá-lo com uma faca, o capitão apareceu na porta da cabine, ameaçador:

– Mas que merda é essa?!

João disfarçou e rapidamente recolheu a faca, que já estava ferindo a garganta de Rato. E Ramona resolveu pegar o oráculo do chão.

– Alguém vai me explicar que diabo de mixórdia é essa que vocês estão fazendo na josta da minha cabine?!

– Esse monstro estava me atacando, Capitão! Por sorte, Dom Rafael chegou a tempo de me salvar! – Disse Ramona, em tom choroso.

– Dom Rafael? – Questionam Cabeças e João, em coro.

Rato olhou para baixo, envergonhado, enquanto o capitão e o contramestre do Esperança se escangalhavam de rir. Subitamente, Cabeças se dá conta de algo, para de rir, e questiona João:

– Quer dizer que estavas botando tuas patas fedorentas no meu brinquedo novo, corno desgraçado?

– Nada disso, capitão. Foi a moça quem me chamou à cabine.

– É mentira! – Gritou Ramona, ofendida.

– Ramalho estava atacando a nobre senhorita Ramona, capitão. – Afirmou Rato, bravo.

– Nobre quem?

– A moça foi prometida a um grande senhor de terras nas Índias castelhanas. Podemos conseguir um resgate! Especialmente se a entregarmos intocada.

Cabeças, João e Ramona se entreolharam rapidamente, constrangidos com a ingenuidade do moço. A prisioneira reagiu:

– É verdade, capitão! Meu futuro marido poderá lhe oferecer um grande tesouro como recompensa pela minha vida! Dom Rafael está certo!

Quando escutarem a expressão “Dom Rafael”, Cabeças e João começaram a gargalhar novamente. O capitão então se aproximou de Ramona e explanou a situação real:

– Dom Rafael? Tu falas desse pobre diabo a quem chamamos muito mais apropriadamente de Rato? – Disse Cabeças, antes de voltar ao grumete: – Desde quando tu tens nome de gente, roedor das sarjetas?

Rato engoliu em seco, aceitando a humilhação. O capitão então mudou de alvo, mas continuou o inquérito, dessa vez intimando João:

– E então é verdade ou não que andavas a ciscar no meu terreiro com teu bico sujo, corvo dos infernos?

– Não foi bem assim, capitão. Essa diaba em pele de mulher me provocou!

– É claro que ela te provocou, energúmeno! É uma mulher! É só que sabem fazer! A mera presença dela nesse barco já é uma provocação! Mas tu gostas tanto assim das coisas dos outros, Ramalho do caralho?

Naquele justo momento, porém, todos foram interrompidos pelo grito inconfundível de Russo, que já tinha um gancho amarrado ao cotoco::

– Alô vagabundagem! Olhõões!

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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