15. A tomada do Esperança

15. A tomada do Esperança

À noite, no convés do Esperança, enquanto navegavam para o sul ao longo da costa, os marujos estavam novamente reunidos em festa. Russo continuava tocando sua viola, que ganhou ainda mais vibração com o gancho, enquanto Asno, Fininho, Manabu e Piri dançavam. E o velho Despagne contava suas histórias. Para desgosto de Rato, o capitão tinha passado a tarde inteira trancado na cabine com Ramona.

– Em dois anos de ataques às naus que faziam negócios no Golfo da Guiné, o Esperança foi o maior troféu que conquistamos! – Dramatizou o velho semianalfabeto que era o escrivão de Cabeças.

A fala de Despagne era ilustrada por projeções de sombras numa vela branca da caravela. E esse efeito cinematográfico era produzido na coxia por Marrique, com a ajuda de Pé-de-Porco. Os marujos, excitados, se deslumbravam com as imagens. Com olhos marejados, Asno parecia uma criança.

– Quando vimos essa caravela pela primeira vez, o barco estava à deriva na Costa do Marfim… – Continuou o velho.

Agora Despagne apontava para um velho mapa de Piri exposto em um cavalete. Como o senil homem apontava para o local errado, o piloto teve de corrigir a posição do dedo do velho, que dava tons de suspense à narrativa:

– Chegamos à noite, na surdina, sem alarme…

Agora o teatro de sombras mostrava uma fileira de piratas andando pé ante pé, atravessando a tela.

– Mas nem era preciso. Metade da antiga tripulação havia morrido de escorbuto…

Um esqueleto humano apareceu de repente. Asno deu um grito de susto, agarrando-se a Fininho.

– A outra metade, ou estava fraca demais para lutar, ou aterrorizada demais para reagir. Foi aí que o capitão decidiu tomar o barco, estralando de novo, e passou a tripulação doente para morrer em paz no nosso velho navio, o Catacumba.

Na tela, os piratas viram o esqueleto saculejando, enquanto passava de um barco para a outro.

– Dizem que piratas não têm sentimento. Mentira! – Exclamou Despagne, simulando indignação.

Nessa hora, alguns marujos sempre repetiam “mentira!”, aqui e ali, em sequência, num jogral combinado.

– Um barco é muito mais que uma casa flutuante. É o único lugar na Terra em que somos livres!

Manabu se empolgava nessa parte, erguendo o punho esquerdo, sendo acompanhado pelos outros negros do Esperança:

– Sim! Livres!

Mas o velho só tinha começado:

– Eu me lembro! Muitos ficaram com os olhos marejados quando assistimos à nossa velha carraca arder em chamas e afundar, carregando junto para as profundezas do Mar Oceano a antiga tripulação do Esperança.

A sombra do velho navio afundou na vela até desaparecer, enquanto uma golfada flamejante surpreendia os espectadores à frente da tela. Era a participação especial de China, com um efeito especial produzido com pólvora. No convés, flambando um camundongo numa chapa do pequeno fogão montado no convés, Fininho tinha os olhos marejados de emoção.

– Uma coisa ninguém pode negar: somos os melhores marinheiros do Mar Oceano!

Os piratas então urravam em coro, entusiasmados.

– Em poucos anos navegando no Atlântico, já colocávamos os portugueses e espanhóis no chinelo. – Avançou Despagne, apontando novamente para o mapa: – Nessa época, poucos piratas se aventuravam a deixar a segurança do Mediterrâneo em busca das riquezas incertas no Mar Oceano. O comércio com o Oriente, com as suas naus e caravelas abarrotadas de pimenta, ainda engatinhava.

Desistindo de reposicionar a mão trêmula e errante do velho, Piri deu-lhe um tapa e resolveu apontar ele mesmo as  rotas que Despagne narrava.

– Mas havia muitas outras tentações na África! Atacamos muitos navios carregados com ouro e marfim, e pilhamos diversas feitorias de escravos.

Na coxia, Marrique agora produzia a sonoplastia de uma batalha violenta, imitando o grito de mulheres, o riso dos piratas, tiro, porrada e bomba.

– Ótimo para nós, porque os portugueses não tinham nada o que comemorar. Suas caravelas sumiam sem deixar vestígios no Golfo da Guiné! – Escarneceu o velho, que agora parecia tomado por afã patriótico.

E sua pátria era o Esperança.

– Em Portugal, corriam os rumores de que navios piratas singravam a costa africana atrás das riquezas D’El Rei. Mas todos preferiam acreditar que era apenas uma lenda. Afinal, como poderiam uns poucos marujos maltrapilhos se igualarem em técnica e coragem aos bravos marinheiros lusitanos, que já tinham conseguido contornar a África após um século de tentativas e muitas mortes? Não. Isso era impossível! Poderia ser até mesmo um navio fantasma, mas piratas? No Mar Tenebroso? Isso não podia ser. Os nobres engomadinhos acreditavam que o Mar e a Terra somente podiam se curvar à coragem de Portugal e Espanha. Quanta ilusão! Se ninguém em Lisboa sabia os motivos de tantos desaparecimentos era simplesmente porque o capitão se esmerava em não deixar sobreviventes para contar o que tinha acontecido!

Embora já tivessem visto aquela história mil vezes, a marujada acompanhava os detalhes com atenção. E o velho fitava cada um com orgulho. De certa forma, todos ali eram como se fossem seus filhos, incluindo o capitão.

– A cada serviço, a tripulação do navio perdia uns marujos. Em cada porto, uns entravam, outros resolviam ficar por lá. Mas alguns seguem firme na tripulação: João Ramalho, sujeito perigoso!

O contramestre entendia aquilo como elogio, assim como todos os demais.

– Rato foi praticamente criado nesse navio! Asno e Fininho são pau pra toda obra! E não posso esquecer do Russo, esse bêbado safado que vive pendurado e vê tudo!

Do alto da gávea, Russo ergueu um brinde, com a mão esquerda.

– E temos Marrique, nosso cozinheiro, ponta firme! Manabu, o melhor carpinteiro da costa africana! E Piri, nossa estrela guia, sempre levando esses mapas velhos de pele curtida que só ele sabe ler…

Em seu íntimo, Piri não gostava dessa coisa de ser a estrela guia, que pra ele era coisa de bicha.

– Por fim, vamos saudar nossa tropa de artilharia, que encontramos em Veneza vindos literalmente do fim do mundo! China e os japas sabem como ninguém a melhor maneira de fazer tudo voar pelos ares!

Era a deixa para mais uma intervenção do mestre artilheiro, que naquele momento soltou um rojão que explodiu em lindos fogos de artifício sobre a caravela, aos gritos dos marujos. Quem visse de longe aquele espetáculo, poderia acreditar que o Esperança estava sendo abençoado pelas águas do Atlântico Sul.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

Deixe uma resposta