27. Um ritual de cura

27. Um ritual de cura

Rato e Nana tiveram uma linda lua de mel nos cenários mais deslumbrantes que existiam no entorno da Guanabara: praias, cachoeiras, penhascos, mirantes, lagoas azuis. Como jovens amantes apaixonados que eram, os dois corriam pelos campos floridos e trocavam carícias enamoradas ao luar, enquanto ela ensinava a ele, usando mímica, coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar.

Quando estavam deitados numa relva verdíssima, em pleno acasalamento, banhados por uma inebriante luz crepuscular do fim da tarde, uma aranha armadeira de aspecto ameaçador resolveu passear pelas costas de Nana. Caminhou por seus ombros, braços, mas acabou picando Rato. No pau.

O jovem pirata deu um grito de dor que foi ouvido pelo surdo Despagne a bordo do Esperança. Num pulo, saiu quicando pela linda relva com as mãos na região genital, praguejando aos quatro ventos. Até que a peçonha começou a fazer efeito e ele caiu no chão suando, delirando e se contorcendo.

Rato então foi levado para uma oca, onde uma anciã da tribo parecia comandar um ritual de cura e exorcismo. Alguns índios cantavam baixo e soltavam baforadas no doente, que estava em estado febril. Deitado numa esteira, viu quando a velha curandeira banguela se aproximou, impôs as mãos sobre sua cabeça e conjurou algumas palavras mágicas em seu ouvido.

Para desespero do pirata, que não conseguia mover o corpo, ele percebeu que a anciã foi descendo a cabeça pelo seu pescoço, peitoral, barriga, até chegar na área afetada, onde aplicou um velho e bem conhecido método de sucção para extrair todo o veneno. Paralisado, Rato deu um grito de horror:

– Nããããããããããããããããããão!

No dia seguinte, já se sentia bem melhor. Nana estava ao seu lado, sorridente e satisfeita. A anciã banguela também, para constrangimento do marujo.

Enquanto isso, na aldeia, os piratas já se sentiam em casa.  Cabeças seguia instalado numa esteira, cercado de mulheres e iguarias, assim como Marrique e Manabu. O jovem indígena seguia o capitão por todo o lado, e também parecia muito curioso com a vida daqueles homens desenraizados. Cabeças ficou feliz por estar sendo tomado como um exemplo. O que era uma grande novidade.

Numa roda, Piri tentava aprender a se comunicar com alguns anciãos da tribo. China e os japas cozinhavam excrementos numa panelinha em cima de uma fogueira, para fabricar salitre. Asno brincava de roda com algumas crianças, e Fininho acabava de roer outro pé humano.

Naquele momento, estavam todos satisfeitos e completamente integrados. Menos Rato. Estava feliz, de fato. E agora era um rei. Na verdade, príncipe. Sua esposa era linda, e ele tinha se apaixonado à primeira vista. Tudo era quase perfeito. Quase. Na areia da praia, Rato olhou para o Esperança e se lembrou de Ramona. Era um nobre, devia a ela uma satisfação. Então tomou coragem, arrastou o bote para a água e decidiu que já era a hora de resolver aquela situação.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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