28. A traição de Ramona

28. A traição de Ramona

Quando Rato subiu ao convés do Esperança, encontrou Despagne sentado num banco, com o queixo apoiado nas mãos, de olhos fechados e boca aberta, cochilando.

– Dormindo no posto, velho?

O perneta tomou um susto, deu um pulo e sacou seu punhal. Quando viu que era Rato, resmungou:

– Dormindo?! Mais um passo e você estaria morto!

– Onde está a prisioneira?

– Está onde sempre esteve e onde deveria ficar.

Rato seguiu em direção à cabine. O velho completou:

– Você é que está insistindo em ir onde não deveria, meu filho.

Rato ignorou o alerta e parou diante da porta da cabine. Ajeitou o cabelo e percebeu que tinha uma pena presa na orelha. E então se lembrou que seu rosto ainda estava pintado. Cuspiu na mão e limpou o que pode antes de entrar.  Ramona estava em um canto e não olhou para ele, parecendo fria e distante.

– Você está bem?

Ramona se virou bruscamente e atirou um objeto em Rato, e depois outro, e mais outro, deixando clara toda a sua irritação:

– Bem? Bem?! Não! Eu estou ótima! Seu patife! Canalha!

– Calma, Ramona! Eu posso explicar! O cacique me concedeu um grande honra! Nós precisamos desses índios para sobreviver neste novo mundo, eu não podia dizer não. Fui obrigado a aceitar a mão de Nana em casamento!

– Nana?!? Casamento?!? Do que é que você está falando?

– Nana é a filha do cacique. Ele me ofereceu a mão dela em casamento e agora eu faço parte da nobreza local. Mas veja: isso é bom! Agora eu poderei ajudá-la com… com…

A prisioneira voltou a atirar objetos contra Rato, que se espatifavam contra as paredes quando ele se esquivava.

– Você casou com uma índia! Depois que eu te dei minha… minha confiança!

– Mas, Ramona, eu venci o Ramalho! Ele se foi! Não poderá mais te fazer mal!

– Ele se foi? Se foi?

– Agora eu posso te proteger.

– Então prova.

– O quê?

– Prova que você é o fodão da aldeia. Prova quee pode me proteger e tal. Prova!

– Como?

– Me leva pra aldeia! Eu não aguento mais ficar nesse navio com esse velho gagá, recebendo visita de estuprador a cada meia hora! Eu quero ir pra aldeia!

– Não posso! O Capitão… – Hesitou Rato.

– Por favor, bravo guerreiro cara-de-rato, me leve pra aldeia com você, eu suplico!

– O Capitão não vai aceitar.

– Você me deve isso! Afinal, você é homem ou um rato? – Insistiu Ramona, furiosa, saindo da cabine com decisão.

Ela então atravessa o convés e começa a descer ao bote. Rato a segue, apavorado, tentando convencê-la a não fugir. Naquele momento, Despagne roncava sonoramente ali perto.

– Você está mais segura aqui do que na aldeia.

– Segura? Aqui? Faça-me rir!

– O João está à solta lá fora!

– Como assim, você não disse que ele se foi, que você acabou com aquele patife?

– Sim, ele fugiu como um rato, digo, como um covarde para a floresta.

– Fugiu? Fugiu pra onde? Ele levou o oráculo?!

– Não se preocupe, o capitão está com o oráculo. Mas, desde quando você acredita no poder do…

A fala de Rato foi interrompida por seu gemido. Ramona enfiou um punhal nas costas do jovem pirata, assim que embarcaram no bote. Incrédulo, ele cambaleou e caiu na água, enquanto a prisioneira já remava para a praia.

Ramona não fazia a menor ideia do que faria a partir de agora. Mas preferia se arriscar naquela terra desconhecida do que continuar em poder daquela escória. Enquanto estava absorvida em seus devaneios, pensando em estratégias para sobreviver entre os selvagens, uma mão saiu da água e agarrou o bote, assustando a fugitiva. Era Rato.

– Ramona… Por quê? – Murmurou o pirata, agonizante.

– Tá bom. Se você precisa então eu vou desenhar. Você não é diferente do resto do seus amigos piratas de quinta, Rato. Você é só um garoto idiota que finge que tem sangue azul, mas você quer a mesma coisa que todos os outros animais desse navio, estuprar e roubar.

– Mas eu só queria te ajudar… – Disse Rato, quase sussurrando.

– Queria nada, seu fedelho patético. Você queria me usar pra se ajudar. Pra se livrar dessa vida de merda e casar com uma donzela e, puxa, não custa nada meter seu piruzinho fino nela antes de salvá-la não é mesmo?

– Fi… Fino?!?

– E você, como todo homem nessa terra re-don-da, é tão volúvel e patético que preferiu pegar um atalho e virar genro de um selvagem! – Gargalhou: – Ah, Rato! No fundo você me dá pena. Mas eu tenho ainda mais pena de mim. E prefiro testar minhas chances nesse bote do que continuar negociando minha carne com um bando de porcos!

– Ramona… Eu… Eu sinto muito.

Agora ela quase sentia pena. Delirante, Rato disse suas últimas palavras antes de perder todas as forças:

– Você vai sair dessa… Você vai seguir em frente e vai fazer bebês e vê-los crescer e você vai morrer uma velha senhora, quente na sua cama. Aqui não. Não esta noite. Você me entende?

– Na verdade não.

– Ramona, me escuta. Ouça. Cair nesse barco foi a melhor coisa que já me aconteceu. Isso me trouxe até você. E eu sou grato por isso, Ramona. Eu sou grato. Você me deve essa honra. prometa-me que você sobreviverá. Que nunca desistirá. Não importa o que aconteça. Não importa quão sem esperança. Prometa-me agora e nunca largue essa promessa.

Emocionada, Ramona agora segurava as mãos de Rato:

– Eu prometo.

– Nunca largue…

– Eu prometo… Nunca largar. Nunca. – Disse a fugitiva, com lágrimas nos olhos, antes de soltar as mãos de Rato, que então afundou na água e desapareceu nas profundezas.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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