11. A Volta do Mar
– Porco selvagem! Bárbaro idiota! Homens, peguem os remos! – Indignou-se Cabral, quando viu a bandeira do Esperança.
Seu imediato, de início, nem entendeu a ordem:
– Remos, capitão?!
– Isso! Remos! Vamos remar até essa malta ignara e ensiná-los a grandeza de Portugal!
– Mas só temos os remos dos botes, senhor… Não são longos o suficiente!
– Pois alongue-os! Imediatamente!
– Isto definitivamente não está no manual de procedimentos… – Resmungou o subordinado, murmurando a si mesmo.
No Esperança, o capitão Cabeças logo estranhou toda aquela movimentação no convés da nau capitânia:
– O que esse cabeça de nata está fazendo?
Em pouco tempo, todos compreenderam o que estava se sucedendo. Os portugueses tinham pregado longos cabos de madeira, arrancados do assoalho da nau capitânia, aos remos dos botes. E agora aquelas traquitanas bizarras estavam na água, sendo impulsionadas pelos gajos remadores!
– Filho de uma puta arrombada por um cavalo! Eles vêm a remo! Preparar para resistir à abordagem! – Gritou Cabeças, já se entecipando o pior.
Sentindo a aproximação dos portugueses, os piratas retornaram ao estado de paranoia e desepero, se agarrando às armas, às mandingas e à cerveja quente. Quando os canhões de Cabral voltaram a cuspir fogo, todos já estavam cagados, mas Piri percebeu algo estranho no mar:
– Curioso…
– O que é curioso pra essa tua cabeça de mouro judeu? O fato de que vamos morrer no meio desse mijo morno do mar oceano?
– Estamos em movimento… – Disse o piloto, olhando os mapas: – Só há uma explicação. Entramos na corrente.
– Que corrente? – Perguntou Rato, que espiava a conversa, interessado.
– Shhhh! Cala a boca, roedor! Conversa de gente grande!
O capitao retomou a conversa de gente grande:
– Que corrente, Piri?
– A volta do mar.
– A maldita volta do mar que arrasta toda bosta flutuante para oeste?
O piloto apenas assentiu com a cabeça.
– Raios me partam! Quem foi arrastado jamais retornou! É a corrente da cachoeira dos infernos, que nos jogará no abismo do cu do mundo!
Piri novamente revirou os olhos, cansado de ouvir sobre aquela babaquice.
– Mas tudo bem, porque esse tuga filhote de uma bacalhoada vai pro fundo do nada junto com a gente! – Exclamou Cabeças.
A novidade também já tinha sido percebida pelos portugueses, que começaram a ver o Esperança novamente se afastar, tornando inúteis os disparos de canhão.
– O que raios está acontecendo? Como podemos já não os ter ao alcance? – Estranhou Cabral.
– Acho que eles estão sendo puxados por alguma corrente, capitão. – Informou o imediato.
– Ora pombas, então nos coloque na mesma corrente!
– Já estamos. O problema agora é que somos mais pesados. Precisamos de vento para alcançá-los.
– Pelas barbas de Don Manuel! Não é possível! O porco é sujo, mas nasceu com o rabo pra lua!
No Esperança, porém, com exceção de Piri, ninguém se sentia sortudo. Os piratas olhavam para o horizonte a oeste com expressões de medo e reverência, prontos para despencar no vazio a qualquer momento.
