10. Fúria de Cabral
No castelo de proa da nau capitânia da poderosa frota militar liderada por Pedro Álvares Cabral, um dos imediatos media as palavras para anunciar o revés ao fidalgo:
– Capitão Cabral, lamento informar que aqueles piratas afundaram a nau de Vasco de Ataíde…
O comandante da missão portuguesa suspira profundamente e olha para o subalterno, mui ofendido. Ao seu lado, o escrivão Pero Vaz de Caminha anotava tudo em um caderno, enquanto repetia as palavras escritas em voz alta.
– Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, piratas afundaram a nau de Vasco de…
– Que estás a fazer, Caminha? – Questionou Cabral.
O escrivão logo percebeu que iri levar um esporro, mas ainda não sabia por quê.
– Não registre nada agora! Depois vemos isso! Raios me partam se não esfolo esse gajo parido de uma puta! Atrás deles, pela honra de D. Manuel!
– Os piratas içaram velas rumo ao Grande Abismo, meu senhor! Nosso manual de procedimentos veda terminantemente incursões a menos de mil léguas do… – Alertou o imediato.
– Não quero saber de detalhes! Avise aos capitães para seguirem a rota daquela maldita caravela, e continuarem o fogo!
– Mas capitão…E a missão para oriente?
– As índias terão de esperar! Pegarei esse puto a unha, ou juro nunca mais colocar os pés numa embarcação!
– O capitão ordenou que abandonássemo a missão para as… – Prosseguiu Pero Vaz, lendo ao mesmo tempo em que escrevia.
Impaciente, Cabral deu um tapa na pena de Pero Vaz, que voou longe para o mar. Apesar de contrariado, o imediato deu as ordens para que o piloto conduzisse toda a esquadra de guerra em perseguição à caravela dos piratas, rumo ao sol poente.
Enquanto isso, no convés do Esperança, Cabeças observava o mar, apreensivo, e pareceu não acreditar quando percebeu que a esquadra portuguesa continuava atrás deles. Tinham ganhado alguma frente com a manobra, e agora nem todos os tiros disparados pelos canhões portugueses ofereciam alguma ameaça. Ainda assim, eram muitos, e poderiam facilmente cercá-los.
– Firme ao poente, Piri! João! Enfunar as velas! A todo pano! Vamos içar a bujarrona!
Como a artilharia de Cabral não dava trégua, a tripulação do Esperança era obrigada a um trabalho insano no leme e nas velas, para que se mantivessem em zigue-zague, com os portugueses em seu encalço. Marrique deu seu jeito aplicando um torniquete rudimentar no cotoco de Russo, que não sentiu nada pois já vivia anestesiado. Àquela altura, o sol por ali era inclemente, num céu sem nuvens, e os ventos começaram a rarear. No fim da tarde, os navios flutuavam praticamente parados, com as velas murchas. Para sorte dos piratas, quando escureceu eles já estavam a uma distância segura da artilharia lusitana.
No convés do Esperança, o capitão Cabeças mantinha o olho na esquadra portuguesa, enquanto a marujada suarenta fazia o que podia para a caravela capturar qualquer leve sopro de ar, sem descanso. E assim seguiu-se até o fim da noite. E durante a madrugada. E de manhã não veio brisa. Piri, que a todo momento conferia seus mapas e rabiscava anotações à pena, comentou:
– Dia inteiro sem vento. Chegamos ao deserto atlântico.
– Nem um maldito peido dos céus pra tirar a gente dessa poça infernal! Portugas malditos!
A algumas milhas dali, no convés da nau capitânia portuguesa, Pedro Álvares Cabral também olhava fixamente para o Esperança, impaciente.
– Tens certeza que não estamos nem um pouquinho mais perto daqueles putos sujos? – Questionou o comandante.
– Uns poucos metros mais próximos que ontem, capitão. Nosso desenho de casco nos favorece por ter menos arrasto e… – Respondeu o imediato.
– Excelente! Vamos testar o alcance dos canhões. Disparar!
O mestre artilheiro comandou uma salva de tiros, mas nenhum deles conseguiu chegar nem perto do barco pirata, para alívio de Cabeças e de sua cansada tripulação, e desgosto de Cabral.
– Português perebento, filho de uma siciliana leprosa! Tenta de novo, maldito! – Vociferou Cabeças, raivoso.
– Anota aí Pero: Vamos eliminar esses piratas na Semana da Páscoa, como um presente de Deus à Vossa Majestade!
Caminha até tentou, mas naquele momento não tinha uma pena disponível para escrever em seu caderno.
No convés do Esperança, o Capitão Cabeças viu quando uma bandeira colorida foi hasteada no mastro principal da nau capitânia. Como não entendia os códigos portugueses, e nem os códigos de lugar algum, questionou ao seu piloto:
– Piri, sabes o que significa aquele trapo de maricas?
– Acho que é uma proposta de julgamento justo em caso de rendição, Capitão.
– Rendição?! Gajo de merda! Aqui tem colhões! Asno! Suba a nossa bandeira! – Exaltou-se o capitão, ofendido.
Orgulhoso, Asno hasteou o pano preto com o símbolo de Cabeças, que tremulou gloriosa mandando a ossatura do dedo médio em riste para os portugueses.
Quando Cabral viu aquilo, pirou o cabeção. Agora era pessoal.
