9. Fuga para o desconhecido

9. Fuga para o desconhecido

Agora os piratas do Esperança estavam desesperados. Fininho rezava, Asno estava catatônico, e os demais corriam de um lado para o outro, sem saber o que fazer. Ao contrário do entrosamento e motivação, agora restava choro e ranger de dentes, dedo no cu e gritaria. Toda a coordenação vista nos ataques deu lugar à histeria e diversas trapalhadas. Pé de porco acaba ficando preso numa corda, de cabeça para baixo, e um dos japas desmaia ao tomar na testa uma paulada violenta de uma retranca em movimento.

Os primeiros projéteis dos canhões portugueses já faziam a água levantar ao redor da caravela pirata. Um deles, miraculasamente, varou uma das velas, levando o odre de cerveja junto com a mão direita de Russo, e caprichosamente caiu na água, raspando a amurada do Esperança.

– Em Zigue-zague, Piri! Em zigue-zague! Se mantivermos a rota, vamos levar uma naba de ferro pelo reto! – Gritou o capitão, tentando manter o controle da situação.

Enquanto Manabu e os negros faziam força na cana do leme, João e os demais marujos ajustavam freneticamente as cordas e velas para cambar o barco. Cabeças andou pelo convés e deu um forte tapa na cara de Asno, que até então se encontrava paralisado, atônito com a situação. No cesto da gávea, Russo desesperou-se quando se viu maneta, e desmaiou.

No meio de toda aquela confusão, Rato se lembrou de Ramona, e correu para a cobertura do castelo de popa para tentar contato com a moça, pela fresta.

– Ramona! Está ouvindo?

A prisioneira então apareceu com o olho na fresta, assustada:

– Eu ouvi o disparo de canhões! O que houve, Dom Rafael?

– Estamos sendo atacados por uma frota de guerra!

Secretamente, Ramona ficou feliz com a notícia, mas fez o máximo para não demonstrar.

– Você precisam se entregar. El Rey será misericordioso!

– Não! É uma frota portuguesa! E com muitos canhões!

– Puta la madre! – Respondeu Ramona, que sabia que os portugueses podiam ser bem piores que os piratas.

– Aquela sua história das Índias? É pra valer?

– Claro que é! Diga ao seu capitão para fugir para oeste! Os portugueses são burros! Ainda não acreditam no continente que Colombo descobriu. Acabaram de assinar um tratado em que ficam só com água!

– Mas o Capitão jamais acreditará nisso! Ele é teimoso como uma mula velha!

Enquanto falavam através da fresta, os tiros de canhão continuavam a dar em água, mas chegavam cada vez mais próximos do Esperança, o que mantinha em nível máximo o estado de pânico a bordo.

Ramona pensou rapidamente em um plano, enquanto olhava ao redor da cabine. Numa caixa em cima da mesa, ela viu o oráculo, e teve uma ideia.

– Eu tive uma ideia! Diga ao seu Capitão que o oráculo pode nos salvar!

Confuso com a sugestão, mas também apavorado com o bombardeio, Rato decide procurar o capitão em meio a toda aquela confusão.

– Capitão, o oráculo!

Cabeças apenas olhou para o grumete, estranhando a sugestão:

– Sim, e o que planejas, garoto? Perguntar à bosta do oráculo como cada um de nós vai morrer desgraçadamente?

– O oráculo poderá nos apontar o melhor caminho, capitão! Não temos outra chance!

Como a artilharia portuguesa não dava tréguas, Cabeças aceitou a sugestão, e ambos correram à cabine. Lá, Ramona estava de joelhos, com os olhos fechados, segurando a pequena estatueta de madeira.

– O oráculo manda seguir para oeste, rumo ao desconhecido! – Exclamou Ramona, fingindo ter uma visão.

– Me dá isso aqui, rapariga! – Gritou Cabeças, grosseiro, arrancando a peça das mãos da prisioneira.

O Capitão então segurou o oráculo com força e fechou os olhos, mas não teve nenhuma visão. Abriu apenas um dos olhos e continuou espiando a carranca, e nada. Ramona e Rato se entreolharam.

– Raios! Acho que essa porra de oráculo não funciona comigo! – Praguejou o capitão.

Com uma das mãos, Cabeças puxou seu punhal e apontou para o queixo do oráculo, com uma expressão ameaçadora:

– Vamos, maldita cabeça de tábua! Mostra o caminho! Mostra ou vai virar lenha!

– Não! – Gritou Ramona, repentinamente assustada: – Assim vai danificar o oráculo!

– Deixe-me tentar, capítão! – Sugeriu Rato.

Sem muita confiança, Cabeças entregou a peça para o grumete. Rato então olhou para Ramona, fechou os olhos e, após alguns segundos, também começou a fingir:

– Acho que eu estou vendo… Sim! Estou vendo!

O capitão ergueu a sobrancelha, enquanto o aposento balançava e estremecia ao som do caos que ocorria do lado de fora.

– E por mil diabos, está vendo o que? Diga!

– Fui adiante no tempo, para ver futuros alternativos. Para ver todos os resultados possíveis do conflito que se aproxima.

– Deus das putas e dos leprosos! E quantos você viu?

Rato então abriu os olhos, de forma dramática:

– Quatorze milhões seiscentos e cinco.

– Puta que nos pariu a todos! Isso deve ser muito! E em quantos nós salvamos nossos rabos miseráreis?

– Apenas um…

Ramona aprovou com o olhar a interpretação do jovem pirata, e Cabeças saiu apressado da cabine para o convés do Esperança, berrando novas ordens para a marujada:

– Fuga para bombordo, rumo ao desconhecido!

Os piratas se espantaram com a decisão. Mas, como de costume, ninguém ousou questionar as ordens do capitão. Se houvesse mesmo aquela cachoeira, logo saberiam. E logo estariam fodidos, ou salvos.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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