26. Saga de João Ramalho
Fugindo pelo mato, humilhado, ferido no corpo e mais ainda no ego, João Ramalho logo percebeu que não estava sozinho. Inadvertidamente, tinha entrado justamente no território dos índios que tentaram invadir a aldeia. Aterrorizado, teve de usar todos os artifícios que conhecia para escapar de uma perseguição implacável empreendida pelos nativos, mas acabou sendo cercado.
Quando um dos guerreiros se aproximou para executá-lo com uma borduna, a sorte finalmente sorriu para João. Era o mesmo jovem que ele tinha salvado dias atrás, durante o ataque fracassado à aldeia. O índio então gritou alguma coisa para os seus companheiros. Estava salvo.
Nos dias seguintes, João se esmerou em ganhar a confiança dos indígenas. Meteu-se entre eles, meteu com elas, adotou o vestuário e os costumes dos nativos. Logo se ligou em quem era o cacique da área e fez de tudo para conquistar seu respeito. O que não foi difícil, usando seus conhecimentos de branco para ajudar (e assustar) os nativos.
Em muito pouco tempo já seria considerado um dos principais guerreiros da aldeia. Mas a dor continuava. Tudo que tinha sacrificado por aquela vida errante no mar, estava agora derramado como água no solo. Tudo que ele mais amava tinha morrido em um instante. Afinal, ele sempre soube que quanto mais perto de César, maior era a queda. Agora se sentia como se estivesse fechado em uma tumba que ele não conseguia levantar a tampa. Vivendo uma nova vida que jamais teria imaginado. E a todo momento ficava remoendo o seu último encontro com a prisioneira, o mesmo evento que tinha sido o estopim para a sua desgraça junto ao capitão:
– Agora você não me escapa, belezinha!
– Me deixa em paz! – Gritou Ramona.
– Onde é que ele tá?
– Onde tá o quê?
João deu um tapa na cara da prisioneira, que se fazia de desentendida. E explanou:
– O oráculo! Onde está?
– Ora, vai me dizer que agora você acredita em oráculo, Don Ramalho? – Ironizou a prisioneira, com um toque sedutor.
– Você não me engana mais, “donzela”… – Disse João, sacando da casaca a carta com selo de nobreza que ele tinha confiscado dos espólios da embarcação que levava Ramona: – Eu posso não saber ler, mas sei que essa carta não estava indo para Nueva Isabela, mas voltando de lá!
– Não tem nada pra saber, seu monstro. Você e seu capitão são burros, me violaram esse tempo todo e eu não valho mais o resgate. Minha família está morta e meu marido nunca…
– Cale-se, vadia! Teu marido está cagando para o teu cabaço. Ele quer é o oráculo! – Disse João, ameaçador, apontando uma faca no pescoço da prisioneira: – Me dá! Me dá se não eu vou achar e vou esculachar!
Ramona então percebeu que não teria como manipulá-lo e optou por viver. Enfiando uma das mãos pelo forro de seu vestido puído, retirou de lá o oráculo, erguendo-o para João.
– Agora abre! Se não souber como fazer, leia a carta!
Ela não precisou. Ainda com a lâmina no pescoço, Ramona pressionou a base junto com um dos olhos da carranca ao mesmo tempo e a peça de madeira se abriu, revelando um gigantesco diamante bruto! Em Bruges ou Antuérpia, aquilo teria um valor incalculável. A prisioneira não iria se casar com ninguém naquele fim de mundo do outro lado do Atlântico. Muito pelo contrário, devia estar deixando a colônia castelhana nas Canárias para casar no Reino, levando aquela pedra como dote.
João então soltou uma gargalhada maligna e guardou de volta a sua preciosade no oráculo. O oráculo que, naquele momento, já não estava mais com ele.
