5. Festa no convés

5. Festa no convés

À noite, à luz dos lampiões no convés, Russo tocava uma viola animada. Os piratas bebiam, cantavam e dançavam, afinal, tinham algo a comemorar. Como de costume, o velho perneta procurava entreter os companheiros, contando histórias que todos já tinham ouvido inúmeras vezes. Enquanto Despagne narrava, outros marujos interpretavam as ações de forma tosca, com figurinos improvisados.

– …E foi assim que Marrique resgatou aquele molequinho que boiava dentro de um barril. Quando a criança subiu a bordo, foi passando de mão em mão sobre as cabeças dos marujos! – Contou Despagne, olhando para Rato de forma divertida.

Marrique, um normando alto e forte, cozinheiro e “cirurgião” do Esperança, passou pelo alto um bonequinho tosco e feioso feito de pano para a mão de Asno. O pirata vesgo então o repassou para o gordo que chamavam de Fininho, que ainda tinha a marca da mordida do colega no braço, e assim foi sucessivamente, por toda a tripulação. O penúltimo a segurá-lo foi Pé-de-Porco, um rapazote gago, fanho e claramente retardado, grumete que era apenas um pouco mais velho que Rato, que o devolveu ao cozinheiro, fechando o círculo.

Do alto de um estrado, assistindo àquela merda de novo pela enésima vez, Rato se mostrava entre entediado, envergonhado e irritado.

– Mais um rato a bordo! – Gritou Marrique, batizando a criança.

Os marujos riam a valer, como se estivessem ouvindo aquela frase pela primeira vez. João Ramalho sempre aproveitava a deixa para escarnecer da história do grumete:

– O capitão ia vender o moleque como escravo… Mas não é que o rato deu pra pirata!

Todos sempre gargalhavam com a piada de duplo sentido, o que deixava Rato ainda mais irritado.

– Melhor alimentar um rato pequeno que sustentar um porco! – Declarou Manabu, se referindo a Fininho.

Os piratas riram da piada gordofóbica, menos Fininho, que sempre se indignava com a comparação.

– Melhor ser porco do que ser um.. um… – Gaguejou Fininho, enquanto tentava escolher um animal para comparar ao timoneiro.

Agora ninguém mais estava rindo. E todos aguardavam em silêncio o que ele iria dizer.

– Deixa pra lá… Gordo só se fode. – Murmurou Fininho, suando frio.

A cena constrangedora foi interrompida pelo capitão, que saiu de sua cabine ajeitando as calças e se alongando. Tinha passado a tarde inteira trancado com a prisioneira.

– Asno, seu maldito imprestável! Pode servir um pouco de água e biscoito para a prisioneira.

Os demais marujos se entreolharam, invejosos. Sem pestanejar, Asno se levantou prontamente para a missão, com um sorriso largo no rosto, mas Rato se intrometeu:

– Eu levo, capitão!

João olhou atravessado para o grumete, entendendo a intenção.

– Com mil caralhos… Tu agora te chamas “Asno”? Eu falei pra um burro levar a bosta da água pra señorita, e não um roedor dos infernos! – Respondeu Cabeças, bem ao seu estilo.

Os demais marujos começaram a rir de Rato, mas o capitão os interrompeu:

– Estão rindo de que, malta de imbecis? Isso vale pra vocês também! A galega é propriedade exclusiva do capitão, entenderam? Se alguém encostar um pingo de suor porco naquela pele alva e cheirosa do meu brinquedo novo, vou amarrar a ponta das tripas do infeliz na âncora e jogar ao mar! Ouviram?

Rato e João Ramalho se entreolharam. Tinham ouvido a advertência do capitão, mas nenhum deles tinha escutado. Um estava surdo de paixão, e o outro de cobiça.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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