30. Não há lugar como o nosso mar
De volta a bordo do Esperança, Cabeças e os piratas olhavam para a praia com uma já saudosa expressão de melancolia.
– E agora, Capitão? – Questionou Asno, molhado.
– E agora o que, Asno infeliz?
– O que será de nós sem Rato? Ninguém mais o viu depois que a galega fugiu. E também não temos mais João.
Indignado, o capitão deu um tapão forte na orelha de Asno.
– Andou comendo uma arroba de merda de macaco, marujo?
Asno se encolheu.
– Uns poucos dias de moleza e vocês já viram todos uns maricas? Chega de sentimentalismo lusitano! – Esbravejou Cabeças.
O capitão então olhou para o jovem índio, que parecia se sentir bem à vontade ajudando no trabalho com as amarras na proa do navio.
– Além do mais, sempre haverá espaço na minha tripulação para quem não tem o cu frouxo!
Piri concordou sorrindo para Marrique, que não perdeu a piada, enquanto o Esperança começava a ganhar o oceano:
– Não há lugar como o nosso mar!
Cabeças olhou para o horizonte magnífico da alvorada, multicolorido pelo nascer-do-sol. Tinha sido obrigado a largar a boa, mas quantas mais não acharia naquele mundo novo maravilhoso que se descortinava em praias deslumbrantes à sua frente. Com um aceno de cabeça, ele concordou com Marrique e concluiu:
– Sentem o perfume da sorte, rapazes?
Encarando novamente o oceano, murmurou:
– O perfume da sorte…
***
Naquela mesma manhã, alguns índios em uma canoa resgataram o corpo desfalecido de Rato. Entre eles estava Nana.
Pouco depois, milagrosamente, o jovem pirata acordou em uma oca, onde viu a mesma anciã banguela comandando outro ritual de cura, que dessa vez parecia envolver a aspiração de sua boca. Quando a viu a velha sem dentes de aproximando, Rato deu um grito de horror:
– Nããããããããããããããããããão!
FIM
