1. Réquiem de uma barata
A pequena barata oriental que morava no porão do Esperança era a última sobrevivente de sua espécie. Aquele inverno tinha sido cruel com a tripulação, que praticamente já tinha esgotado os recursos da embarcação. Os tonéis abertos suavam apenas maresia. Cada peixe fisgado era estraçalhado em segundos pela marujada faminta. A água potável restante cheirava a ovo podre. E um último barril de cerveja azeda era o que ainda mantinha o moral daquela tropa.
Era um inseto habituado a locais escuros e úmidos, mas até ele precisava comer, o que já não fazia há dias. Não havia mais qualquer resíduo orgânico em decomposição naquele porão. Tudo havia sido literalmente raspado pela população. Um dos piratas inclusive tinha passado a última noite lambendo o interior do tonel de biscoito, de forma que nem um mísero farelo a esperava ali.
Sem opções, a barata então resolveu seguir seu olfato apuradíssimo, que apontava ao convés. Pela fresta do alçapão, percebeu que era dia, mas precisava se arriscar. Ao menos uma migalha teria de engolir. E então ela viu o que parecia ser um pequeno pedaço de queijo. Ou talvez fosse bolo, não importa. Era matéria orgânica.
Num bote rápido, o inseto ganhou o convés da caravela, em missão arriscada. Foi quando viu o corpo humano caído perto da migalha. Engoliu rápido a iguaria e seguiu a trilha de farelos que levava até o homem. O odor de álcool era forte até para uma barata, mas ela respirou fundo e subiu até bem perto da boca do sujeito que dormia pesado, onde um resto de vômito ainda pingava ao chão.
O bicho se alimentava tranquilamente quando teve a infelicidade de ser visto por uma dupla de piratas esfomeados. Um era alto e magro, o outro baixo e gordo, mas ambos tinham o olhar de quem também não comia há dias. A barata não teve dúvidas de que aquele não era um olhar de quem tinha nojo dela, o que era bem comum. Era de quem tinha fome.
Com o mesmo ímpeto inicial, o inseto tentou retornar rapidamente ao porão, mas o magrinho sacou a intenção e se colocou à frente do alçapão. A barata teve de mudar de direção, chegando à parte superior do convés, onde se encontravam os demais piratas. O gordo gritou:
– Rato! Pega essa barata!
Um jovem pirata correu e tentou chutá-la para fora do convés, sem sucesso, o que irritou os perseguidores:
– Rato filho da puta! Não é pra jogar no mar!
Só então o jovem entendeu a intenção vomitante de seus companheiros, e teve engulhos. A barata disparou pelo convés, onde conseguiu se desviar das pisadas que seriam fatais de dois brutamontes carecas, um preto e outro branco, e nem acreditou quando um terceiro pirata a ignorou solenemente, até com certo desdém.
Caçado impiedosamente pelos dois marujos, que se esbarravam e tropeçavam atrapalhadamente enquanto salivavam, o inseto entrou por dentro da roupa de um velho perneta que mancava pelo convés, o que despertou no ancião habilidades sobrenaturais de dança com uma perna só, para espanto da marujada, que riu sem parar.
Cansada a ponto de já ter consumido quase toda a energia obtida com a pequena refeição do dia, a barata então deixou o corpo do velho e tentou um último sprint desesperado de volta ao porão. Mas, quando já estava prestes a se embrenhar de volta na fresta do alçapão, o bicho foi esmagado impiedosamente pela pesada bota do capitão do navio, virando menos que uma pasta esbranquiçada encerada na tábua de madeira do convés.
– Estão sentindo perfume da sorte?
Pela cara dos marujos, a resposta obviamente era não.
