24. A armadilha de João

24. A armadilha de João

Ramona estava dormindo na cabine, mas do lado de fora da porta, o velho Despagne ouvia atentamente a história contada por Rato, com lágrimas no olhos. Foi surpreendido por Asno, que tinha chegado ao navio de bote:

– Velho, onde está o Rato?

– Hmmm… Deixe-me ver. Acho que eles, ele, está onde? – Respondeu Despagne, fingindo demência.

– Rato! Rato! – Gritou o marujo pelo convés, tentando achá-lo.

Rato e Ramona pularam da cama com os gritos de Asno e rapidamente começaram a se vestir. A jovem estava recolocando sua cinta e pediu a Rato para lhe passar suas roupas. O grumete, que estava seminu, segurava o vestido de Ramona por sobre o próprio corpo quando Despagne abriu a porta da cabine para avisá-los de que estavam o procurando.

– Não é nada disso que você está pensando! – Protestou Rato quando foi visto pelo velho “provando” a vestimenta feminina.

– Eu não me importo. Você sempre será como um filho para mim. Ou seria filha?

Asno voltou à cabine quando ouviu o falatório, e avisou:

– Rato! Disseram que o Capitão precisa falar com você agora!

– Qual motivo? – Preocupou-se o grumete.

Asno não sabia:

– Só disseram que tem que ser agora.

– Então tomem conta da prisioneira que eu volto já.

Rato deixou o Esperança no bote, enquanto Asno estava observando o companheiro se afastar remando. Do outro lado do convés, o marujo escutou algumas batucadas no casco do navio e resolveu investigar.

Quando Asno se aproximou da beirada para verificar o que era aquilo, foi puxado por alguém que estava se escondendo nas amarras, se desequilibrou e caiu na água. Era João, que rapidamente escalou as cordas e apareceu no convés, com um sorriso maquiavélico. Despagne, que era míope e quase surdo, não viu nada e nem ouviu os pedidos de ajuda do pobre Asno.

Quando João Ramalho abriu a porta da cabine do capitão, Ramona não estava lá. O contramestre revirou gavetas e gabinetes, como se estivesse procurando alguma coisa. Quando abriu o armário, surpreendeu a prisioneira escondida lá dentro.

– Agora você não me escapa, belezinha!

Enquanto isso, Rato apareceu na aldeia e procurou pelo capitão. Agora os índios já espirravam e assoavam o nariz, combalidos por alguma “doença de branco”. Uma velha curandeira banguela fazia cortes nos braços ou pernas dos doentes e chupava seu sangue, entoando cânticos de cura.

Cabeças agora se encontrava como um verdadeiro nababo, pintado e adereçado como um cacique. Esparramado numa esteira,o capitão era servido de guloseimas por várias nativas, como um Jabba dos trópicos. Ao seu lado, um jovem indígena o seguia com admiração reverencial, atendendo a todos os seus comandos com prontidão.

– Índio! Mais cauim! – Gritou Cabeças, mostrando a caneca vazia.

Motivado, o nativo correu para pegar mais bebida, no mesmo momento em que Rato chegava ao local:

– Por que me chamaste com tanta urgência, Capitão? Vim o mais rápido que pude.

– E por qual diabo de motivo eu iria parar de tocar essa minha vidinha mais ou menos pra gastar saliva com um rato fedorento como tu? – Estranhou Cabeças, que chupava um araçá.

Imediatamente, Rato percebeu que tinha caído numa armadilha e saiu correndo dali o mais rápido possível. Quando o grumete chegou à praia, Asno estava acabando de sair da água, depois de ter quase morrido para nadar até a margem.

Furioso, Rato não se importou com o estado lamentável do pirata mais burro do Esperança, que não parava de vomitar água salgada, estirado na areia.

– Asno, seu imbecil miserável bastardo de pai e mãe! Você disse que o Capitão estava me procurando!

– Nada disso, Rato. Eu falei que “disseram” que o Capitão estava lhe chamando.

– E quem “disseram”, seu verme idiota?

– João Ramalho.

Agora tudo fazia sentido. Com os olhos intumescidos de raiva, Rato olhou para o Esperança, que continuava fundeado na baía, e decidiu que iria tirar suas diferenças com aquele desgraçado de uma vez por todas.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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