Adição

Adição

(Escrito por volta de 1996 – Não revisado)

O som do spray é tudo que eu posso distinguir de real nesse momento, tudo mais é  sufocamento. Na verdade eu não me importo, não podia mais viver desta maneira. Fico entregue ao êxtase, virado de barriga para o ar, debatendo as seis patas esperando pelo derradeiro momento em que um chinelo de dedos vai findar em um golpe certeiro minha agonia de envenenamento e estampar em meu cadáver sua marca assassina: Raider. Tudo bem, era de se esperar. Por toda minha vida driblei as armas humanas para chegar com sucesso aos miolos de pão e restos de pudim nos pratos da pia. Sem falsa modéstia, fui dos melhores. O que me destruiu foi o vício. Desde que escapei por pouco de uma baforada de aerosol no quarto dos fundos. Corri para a fresta do roda-pé no último segundo, mas ainda houve tempo hábil para que eu respirasse um pouco daquela nuvem química. Já em segurança, desmaiei sob efeito da droga. Sonhei os mais loucos sonhos. Sonhei que podia voar pelo quintal como uma mosca, sonhei com mares de coca-cola e com fêmeas de um palmo de comprimento. O resultado desta alucinação não poderia ser pior: Acordei querendo mais. Passei a me dedicar a isso. Desenvolvi uma arte que consistia em me deixar ver, esperar que o jato mortal fosse lançado no ar e, o mais importante, controlar, com precisão milimétrica, o tempo de exposição à substância para que tivesse a alucinação desejada sem expor-me a overdose. A melhor parte, confesso, era correr, doidão, das chineladas histéricas de meu fornecedor. Uma mistura orgasmante do tóxico humano e da adrenalina em meu sangue branco. Só não contava eu com um dos acessórios do vício: a adição. Acontece que cada vez eu precisava de mais. Cada nova investida contra os pés de um deles tinha de ser mais ousada para propiciar uma dose cada vez mais elevada do delicioso veneno. E assim foi, até o dia de hoje, no qual eu quis demais. Minha escalada pelas pernas da senhora foi uma temeridade, dessas que o destino não perdoa. Afastado demais de qualquer abrigo, acabei por ser premiado com uma dose muito maior do que meu corpo rastejante poderia dar conta. A paralisia deu-se no momento errado, bem no meio da copa. Tornei-me um alvo fácil. A condenação tardou, mas não falhou. Lá vem a sombra crescente do pisante humano em direção a minha cabeça embutida. Lá vem minha última visão do mundo: Havaianas.

Daniel Mattos

Daniel Mattos

Nasceu em Petrópolis, em julho de 1975 e recebeu o nome de Daniel Vidal Mattos. Desde então está em busca de respostas sobre o que é ser Daniel Vidal Mattos, nascido em Petrópolis em julho de 1975. Não se parece com a foto aqui publicada.

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