A Árvore Frondosa

A Árvore Frondosa

Naquele lugar não faltavam jardineiros, já que quase todos os habitantes tinham seus jardins e, pelo hábito da mimese, tratavam de cuidá-los tão bem quanto seus semelhantes. Cada um tinha seus caprichos e razões de orgulho, como uma roseira híbrida que recebia elogios e logo também pedidos de mudas, pois quem nota o carinho de um jardineiro com uma planta é atraído naturalmente a admirá-la e, assim, desejá-la. O jardineiro, por sua vez, prontamente presenteava os admiradores com mudas, pois o afeto deles confirmava sua escolha, legitimava sua dedicação e aumentava seu próprio afeto. Essas trocas, de mudas e de preferências, dissipavam-se rapidamente conforme se caminhava para outras partes, onde outras preferências e outras mudas eram cultivadas. Tudo isso era, porém imperceptível, em meio à diversidade geral de espécies, variedades e afetos locais. Ao menos foi assim, até que uma onda incomum de admiração começou a tomar forma. 

Em pouco tempo se falava por todo canto sobre a árvore mais frondosa, florida e carregada de frutos que já se tinha visto e sobre a dedicação incomum do jardineiro que a cultivava. Os jardineiros de todo lado peregrinavam àquele lote para admirar aquele portento e saber, do orgulhoso jardineiro, os atos e fatos que resultaram em tamanha beleza. Como de costume, mudas e sementes foram fartamente distribuídas, mas em nenhum outro caso pareceram gerar o mesmo sucesso. Essa reprodução imperfeita excitava ainda mais a curiosidade geral e o jardineiro já vivia cercado de aprendizes e discípulos que queriam saber como fazer desenvolver suas mudas com a mesma graça e potência.

O jardineiro procurava inventariar todas as muitas decisões e providências que construíram e culminaram no resultado. Eram muitas, mas depois de algum tempo e muitos fracassos de seus mais dedicados seguidores, o homem passou a resumir seu método de cultivo em uma palavra: dedicação. Foi preciso um trabalho atento, constante, mesmo incansável para chegar àquela árvore. Tamanha concentração de esforços em torno de uma única planta revelou-se, por si só, como o maior obstáculo entre os que tentaram ter uma árvore como aquela. Com o tempo, a maioria desistiu simplesmente por não conseguir reunir tanta energia em um único interesse. Afinal, eles também tinham outros afazeres, interesses e suas próprias plantas para cuidar.

A desistência foi fonte de frustração ou mesmo sentimento de culpa para muitos que já não tinham o mesmo amor por suas melhores espécimes. O desinteresse dos outros, obcecados todos pela árvore frondosa, confirmava seu fracasso. Outros, incapazes de desistir e obcecados pelo desejo de receber a mesma atenção, consumiram-se na tarefa de cultivar suas próprias árvores. Boa parte deles, por imperícia ou má sorte, fracassaram redondamente. Sua derrota foi particularmente amarga pois o esforço dedicado exclusivamente àquela futura árvore custou-lhes o abandono das demais plantas em seus jardins. No fim, viram-se diante de árvores mirradas ou mesmo mortas, plantadas em jardins arrasados pela negligência e mesmo suas casas ficaram em mau estado, com janelas caindo e telhas faltando. Nada entretanto lhes feriu mais que o desprezo dispensado pelos seus semelhantes. Eram vistos como desleixados ou preguiçosos, indignos de respeito e, claro, ninguém se interessava em ouvir suas histórias.

Alguns, com notável tenacidade e uma dose de boa graça, lograram produzir muito boas árvores, que floriam e davam frutos. Eram plantas que, tempos atrás, teriam atraído o carinho de muitos vizinhos e originado incontáveis rebentos mas, àquela altura, nenhuma delas sequer podia ser comparada à original, que havia crescido ainda mais, a ponto de sua copa florida com grandes frutos pendentes ser vista elevando-se acima dos telhados, mesmo à distância. Com isso, os melhores exemplares dos discípulos mais fiéis pareciam apenas cópias inferiores de algo que já existia. Nem ao menos contava a favor deles o jardim ao redor, já que a atenção dada custou notável descuido com os canteiros restantes. Assim, mesmo aqueles jardins de sorte não recebiam a admiração dos vizinhos nem o orgulho de seus próprios jardineiros.

A árvore frondosa continuou a crescer com força renovada a cada estação. Seu jardineiro já tinha pouco a fazer que fizesse diferença. A escada mais alta já não alcançava seus galhos para a poda e suas raízes bebiam diretamente dos lençóis subterrâneos, dispensando a rega. O jardineiro obstinado agora dedicava-se quase exclusivamente à venda de sementes e frutos que abarrotavam seu celeiro e já haviam em muito maior quantidade do que o povo local podia ou mesmo queria consumir. Foi obrigado a contratar ajudantes, diversos dos quais eram antigos seguidores que abandonaram seus próprios jardins e agora carregavam fardos para ser vendidos em outras cidades e pagar seus próprios salários.

Com o passar do tempo a antiga admiração do povo local foi-se convertendo em antipatia, desconfiança e até mesmo medo. A árvore agigantou-se a ponto de sua sombra encobrir os jardins vizinhos, fazendo definhar as outras plantas. Suas raízes secaram os poços, racharam as paredes das casas em torno e seu tronco alargou-se a ponto de não restar espaço à casa do jardineiro. Sua família precisou se mudar para uma vila próxima mas, obstinado, ele ainda passava seus dias trabalhando sem cessar aos pés da árvore que plantou e cultivou. Lidava cada vez mais com seus danos e cada vez menos com seus frutos. Desgastava-se conciliando reclamações, reparando perdas alheias e oferecendo compensações. Como a população já havia desenvolvido certa aversão pelos frutos, restava-lhe oferecer empregos bem remunerados na exportação, muito embora já não houvesse trabalho para tanta gente que se enfileirava em seu portão e a maioria ficasse ociosa, queixando-se da vida e fomentando intrigas.

Foi inevitável chegar ao ponto em que a árvore passou a ser considerada oficialmente uma calamidade. O clamor popular exigia sua imediata derrubada. Embora ainda fossem minoria, os trabalhadores e famílias que hoje dependiam daquela produção para seu sustento reagiram veementes em sua defesa. O acirramento dos ânimos evoluiu de escaramuças pontuais até assumir a forma de uma guerra civil, que degringolou finalmente para uma batalha final. Cercados, os jardineiros da árvore resistiram até o último homem, qual seja, o próprio jardineiro que a plantou. Ele morreu pisoteado, entre as raízes descomunais de sua criação, enquanto a turba furiosa golpeava o troco com machados e lançava tochas.

O ataque revelou-se futil. O tronco era largo demais, duro demais para ser cortado por qualquer machado ou serrote conhecido. O fogo chamuscou a casca do tronco e das raízes superficiais mas as labaredas nem sequer alcançaram os galhos mais baixos da copa que se estendia muito acima, cobrindo os céus. O incêndio, no entanto, se espalhou destruindo o celeiro, as casas, jardins e plantações. Os sobreviventes flagelados passaram a habitar o entorno da árvore e subsistir dos restos de frutos, amargados pelas cinzas do incêndio, que caíam derrubados pelos pássaros que se banqueteavam no alto da copa. 

Depois de muito tempo, a história havia sido completamente esquecida, soterrada pelo tempo e as folhas que caem. A árvore envelheceu e seus frutos, menos saborosos e em menor número, passaram a ser disputados entre os descendentes dos jardineiros. Embrutecidos, eles cultuavam a árvore como a um Deus e faziam sacrifícios de sangue entre suas raízes, em rituais cuja origem e sentido eles mesmos desconheciam.

Daniel Mattos

Daniel Mattos

Nasceu em Petrópolis, em julho de 1975 e recebeu o nome de Daniel Vidal Mattos. Desde então está em busca de respostas sobre o que é ser Daniel Vidal Mattos, nascido em Petrópolis em julho de 1975. Não se parece com a foto aqui publicada.

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