Duas Cartas

Duas Cartas
Cain leadeth Abel to death, by James Tissot, 1900

Encontradas por pandora na casa abandonada, as cartas tinham letras pouco distintas entre si, de forma que não estava claro se haviam sido escritas pela mesma pessoa ou não. De toda forma, as peças foram incluídas no rol de Pandora como possíveis evidências sobre as causas da Crise.

Caro Abel,

Passei a vida batendo cabeça com o sistema, tentando contribuir com minha criatividade, capacidade etc… Jogando o jogo ingenuamente, dentro das regras, acreditando na possibilidade de ser reconhecido por mérito. Por todo esse tempo cagaram na minha cabeça. O que recebi em troca foi humilhação, exclusão e indiferença. Este é um mundo que não quer colaboração, que despreza inteligência, odeia a criatividade e é inimigo do pensamento independente. Uma máquina de moer gente, que gira exclusivamente em torno de disputa por privilégios. Só importam os privilégios. Se você não tem o poder de conceder privilégios ou migalhas do seu privilégio a alguém, você não consegue absolutamente nada. O que uma pessoa com o mínimo instinto de sobrevivência, com o mínimo amor próprio, faz diante disso? Essa pessoa só pode chegar a uma conclusão: quer saber de uma coisa? Me dá meu privilégio aqui! Exato. Não tem nada mais libertador do que assumir o jogo. Parasitas por ofício e privilegiados de nascença, dizem que sou um parasita? Isso aí. Sou parasita e com orgulho. Sou parasita porque não sou otário. Sou parasita porque não me deram nenhuma outra alternativa a não ser o parasitismo. Cavei meu caminho até um privilégio com a ponta da faca. Não abro mão desse privilégio de jeito nenhum. Vou sugar o hospedeiro até a última gota. Vou dar o mínimo e tirar o máximo. Não tem por que sentir culpa. Jamais ambicionei o parasitismo. Então paguem pra me sustentar sem que eu colabore com nada. Nesse mundo doente no qual privilégios são cobrados como se fossem dívidas, essa é a dívida que eu cobro. A dívida que uma sociedade doente tem com os sãos. É meu imposto pela escrotidão coletiva, minha justa indenização, meus lucros e dividendos dessa perversão. Me sustentem, filhos da puta! Paguem o preço de ter me desprezado e de ter desprezado tudo que tem valor. Sim, já está claro. Vou sugar o hospedeiro até que primeiro de nós morra. Se for eu, terei garantido meu sustento pelo tempo completo da minha vida e possibilitado a preservação e transmissão de valores hoje desprezados. Já é muito e para mim já começa a parecer suficiente. E se for o hospedeiro a morrer primeiro, melhor ainda, assassiná-lo será a maior reparação que eu poderia esperar. Das cinzas e caos que se seguirão, do corpo putrefato desse monstro, talvez renasça a civilização.

Cain

Caro Cain,

Sempre acreditei que tinha uma missão. Sempre tive uma confiança imensa e divina de que algo esperava por mim. Rejeitava o ordinário e a vida ordinária com todas as forças. Eu não haveria de ter uma vida ordinária. Não. Eu estava aqui para buscar o extraordinário. Confiei completamente na fantasia e na imaginação como se aquele mundo mágico que me habitava estivesse prestes a transbordar e conquistar o mundo. Como se esse fosse um segredo meu, só meu, que um dia eu poderia revelar ao mundo que o receberia como uma bênção ou uma profecia. Essa era uma certeza inata em mim. Tão certa que jamais, nem por um segundo, a questionei. Nunca duvidei do valor imenso do que eu tinha a oferecer e mal podia esperar pela oportunidade de fazê-lo. A cada rejeição desde a infância, minha alma de feriu e cicatrizou e com isso se construíram os dois mundos aos meus olhos. O mundo ordinário, das pessoas estúpidas, más e pequenas que não mereciam a dádiva e não entendiam o valor da dádiva; e o mundo extraordinário que, por enquanto, só existia na minha imaginação mas era o único mundo real e não esse mundo tacanho, mesquinho e cego em que eu passava os dias. Com o passar do tempo estabeleci uma estratégia de preservação desse mundo. Decidi ser esperto e traçar caminho pelo mundo dos homens até que as comportas do mundo extraordinário pudessem se abrir. Tomei decisões que me prendiam a deveres, relações e encenações de pertencer ao mundo ordinário pois eu precisava abrir a fenda pela qual o conquistaria. Precisava me sustentar para ser independente e livre para investir na construção desse projeto. Transigi e suportei a falsidade dos homens, trabalhei para eles nos trabalhos que me pareciam tomar menos tempo e menos contato com eles. Enquanto isso nutria as relações que me pareciam compatíveis com as aspirações que tinha e formava alianças com aqueles que pareciam ter aspirações semelhantes, aqueles cujos olhos brilhavam. Encenava minimamente e de forma econômica algum respeito pelo mundo ordinário e pelos homens ordinários, um respeito que decerto não tinha. Conforme avançava no mundo dos homens e minha fenda não se abria, disfarçava as vezes melhor, na esperança de ser apreciado, ou às vezes disfarçava pior e expressava meu desprezo. A necessidade de expressar desprezo aumentou com o tempo conforme se acumulavam frustrações e conforme meu mundo mágico perdia espaço para o mundo corrupto e rastejante dos homens apagados. Eu os suportava, ao meu entender, e era capaz de os suportar apenas porque tinha convicção que o lugar, sempre humilhante, que eu ocupava entre eles, que não eram capazes de apreciar o valor de nada realmente valioso, esse lugar era transitório. Então suportava esse lugar, por ser meramente transitório e porque eu sabia que um dia encontraria meu lugar, se ao menos encontrasse a chave que faria meu mundo extraordinário acoplar com o mundo deles para finalmente inundá-lo de luz. Acreditava e confiava ainda e plenamente que isso haveria de acontecer porque tinha que acontecer e confiava de forma igualmente plena na minha intuição ao escolher como fazê-lo e por onde traçar a rota entre o desejado e o possível. Tinha certeza que, uma vez que era verdadeiro comigo mesmo, minhas escolhas me aproximariam inevitavelmente do meu destino, por tortuoso que fosse o caminho. Acreditava que era questão de paciência e por isso ganhava tempo, comprava para mim um bocado mais de prazo por vez, para dar chance ao destino à espera de que algo acontecesse, que alguém aparece, que algum olhar se lançasse sobre mim e me visse, que o brilho áureo dos meus sonhos escapasse e encantasse um e outro e então muitos. Tentei dar forma a esse sonhos no pouco tempo que me restava e com as poucas habilidades que consegui desenvolver enquanto vivia a mediocridade dos homens, enquanto os desprezava e compartilhava seus restos, enquanto também tentava ser feliz e me divertir e amar. Quanto mais o tempo passava, menos me parecia sensato ou justo rejeitar o mundo e me poupar do mundo e foi assim que tomei também decisões que sabia me consumirem mais recursos necessários a luta pelo meu sonho. De bom grado dei esses recursos ao amor e formei uma família. Amei, me doei e acreditei ainda que, sendo aquilo certo e justo e divino, não haveria de me afastar do mundo extraordinário nem prejudicar o caminho daquele mundo para este em que penava a cada dia. Imaginava ainda que poderia ganhar mais tempo, manter acesa a chama do sonho, aguardar paciente e insistente que alguém respondesse ao meu chamado, que uma das garrafas atiradas ao mar encontrasse um destinatário. Mas o que acontece é que o tempo, mais cedo ou mais tarde, nos alcança. O afunilamento da vida faz um oceano de possibilidades de “toda a vida pela frente” e “todo o tempo do mundo” estreitarem até se fechar a fenda. Assim a vida ordinária, que era um entreposto transitório, se transforma no seu lugar no mundo e a realidade, que seria outra, revela seus planos pra ser isso aí mesmo e nada mais. A luz já mal escapa pela fissura entre o mundo sonhado e a escuridão esmagadora e humilhante de um lugar indigno entre homens indignos. A confiança se quebrou. A certeza de um destino à espera se converte em pesada desilusão e cortante vergonha. Destino brilhante revela-se sonho infantil e o ambicioso se descobre nada mais que um ingênuo e um inocente, flagrado tarde demais em seus delírios de grandeza. Tanto tempo se passou. Tempo demais para a redenção. A altura galgada foi grande demais e a vertigem da queda não dá espaço à compostura de uma tomada de consciência pretensamente sábia. Ícaro despencou dos céus. Ninguém veio, não há mecenas, não há salvador, não há redentor. Ninguém acima para reconhecer o que seria oferecido. Ninguém abaixo ou ao lado para sequer testemunhar a queda. Ninguém esperava nada de mim, ninguém me pediu a luz dos meus sonhos, ninguém interessado em ouvir o tenho a dizer ou ver o que tenho a mostrar. Não há mundo extraordinário que possa habitar um homem ordinário, um medíocre e ainda por cima arrogante, que passou os anos achando-se melhor que os outros e acreditando que tinha uma dádiva a oferecer ao mundo. Ninguém contempla a morte de um tolo. Ele morre invisível e em silêncio como a última brasa de uma fogueira deixada para trás por uma caravana há mundo partida. Todo homem é uma chance nova para que o mundo extraordinário da magia e da imaginação flua para este mundo inóspito e vazio. Alguns talvez consigam, não saberia dizer se sim ou não. Mas sei dizer que não foi este homem. Neste homem, como em milhares de outros também desconhecidos, a fenda se fechou. Agora minha casca vazia vive nesse mundo frio. O cordão está cortado. Agora finalmente vocês terão meu corpo. Agora eu vim ao seu mundo. Pensarão que nasci como homem, finalmente, maduro e sem ilusões. Nasci para a responsabilidade e a dureza da vida. Mas não é nada disso que realmente se passa. Pois de mim só terão o corpo. Preciso dizer que já não ando com os homens, se é que um dia o fiz. Em minha defesa tudo que posso dizer é que procurei manter a fenda aberta pelo tempo que pude e que no último instante tomei a única decisão que podia tomar. Como nunca quis viver no mundo de vocês, segui a luz e espremi minha alma pela fenda. O que está diante dos homens é senão uma sombra e uma ilusão, como lhes compraz. Minha alma migrou de volta à morada. Agora viverei nos meus sonhos sozinho. Sonhos que vocês nunca verão. Sonhos que vocês nunca quiseram ver. Podem acreditar ou não, já não me importa, mas devo lhes dizer: é o lugar mais lindo em todo o universo.

Abel

Daniel Mattos

Daniel Mattos

Nasceu em Petrópolis, em julho de 1975 e recebeu o nome de Daniel Vidal Mattos. Desde então está em busca de respostas sobre o que é ser Daniel Vidal Mattos, nascido em Petrópolis em julho de 1975. Não se parece com a foto aqui publicada.

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