Ânima

Ânima

– Ok, Corta! Tá ótimo. Bom trabalho, pessoal.

A diretora olha pro assistente, satisfeita, ajeitando os óculos de aros grossos. Antes do comando, modelos com roupas moderninhas andavam de um lado para o outro sob a luz de flashes, entre manequins masculinos e femininos vestidos com trajes de gala. Meninas jovens e lindas, bebendo champanhe no gargalo, brincando e posando ao lado de bonecos sem rosto. Cool.

Após algum tempo, as estrelas deixam o estúdio. A equipe se desmobiliza, entre o burburinho dos técnicos que guardam os equipamentos de filmagem. Num canto do recinto, o velho zelador observa tudo aquilo de forma tímida, de certa forma acuado por toda aquela juventude feliz e opressora. Antes que ele possa fingir começar o seu trabalho com a vassoura, de forma a evitar contato com aquela gente, uma dos produtoras se aproxima, com um tablet na mão.

– Tristão!

O velho chega a estremecer, como se fosse uma criança assustada, mas volta toda a sua atenção para a moça.

– Já tá muito tarde e eu queria dispensar a equipe. Sabe como é, orçamento apertado, não tem como pagar hora extra…

A produtora cutuca Tristão, com um sorriso de falsa cumplicidade que sempre utilizava nessas ocasiões. O velho dá um pulo para trás com o toque de intimidade forçada, mas acaba sorrindo de volta, encabulado. A moça põe o braço ao redor dos ombros de Tristão, enquanto caminha com ele pelo estúdio já quase vazio.

É o seguinte: o seu Alberto me disse que ninguém vai filmar aqui no fim de semana, então eu vou deixar pra desmontar o cenário na segunda…

Tristão acompanha cada palavra com atenção, já pensando no trabalho a mais que provavelmente teria de fazer.

– Eu queria que você tomasse conta das coisas direitinho pra mim, pode ser? Você faz esse favor pra sua amiga?

A produtora tira da carteira uma nota de vinte reais e entrega para Tristão. Ele sorri. Já se retirando com os últimos integrantes da equipe, ela dá um tapinha nas costas do velho, que observa a trupe indo embora. Quando o último técnico fecha a porta do estúdio, carregando uma caixa, o zelador escuta o eco que já lhe era familiar, antes do silêncio completo.

Tristão olha em volta. Lá estão os bonecos estáticos, com as roupas do comercial. Quando o zelador termina de varrer o chão, dá de cara com uma das manequins, vestida com um longo vestido vermelho e um chapéu glamuroso. Ainda que sem rosto, a imagem parece tocar de alguma forma o coração do velho homem, que a encara por um momento. Tristão vai até a porta do estúdio e, antes de apagar a luz e sair dali, lança mais uma vez o olhar para o rosto vazio da boneca, que logo depois desaparece nas sombras.

ENCONTRO

As luzes do estúdio se acendem novamente. Tristão entra no recinto e começa a varrer o chão, diligentemente. Enquanto varre, ele dá umas olhadinhas pro lado, parecendo incomodado ou até mesmo atraído por alguma coisa. O velho então se deixa levar pela curiosidade. Interrompendo o trabalho, Tristão põe as mãos nos bolsos e fica observando o manequim de vestido longo e chapéu, vermelhos. Ele se aproxima. Escrutina a boneca com um olhar clínico, como se estivesse olhando uma estátua de pedra, uma verdadeira obra de arte. De início, o zelador mexe nas roupas elegantes de forma tímida e desajeitada. Como se estivesse com medo de quebrar algo, como uma criança fazendo o que não deve.

Disfarçando os próprios atos para absolutamente ninguém além de si mesmo, Tristão remove do ombro do manequim uma poeira que não está lá. Ele ameaça olhar por cima do decote do vestido, mas hesita. Interrompendo a ação, o zelador olha para o rosto vazio da boneca, como se temesse uma impossível reação adversa. Sutilmente, Tristão puxa o decote para o lado, o que revela um relevo suave de um seio feito de plástico.

Subitamente, o zelador escuta um barulho no estúdio. Assustado, recolhe as mãos rapidamente, em alerta. É claro que o barulho não é nada, talvez seja apenas coisa da sua cabeça. Os outros manequins permanecem estáticos. O velho olha de novo para a boneca, que tem um dos braços estendido, parado no ar, exatamente como esteve em todo esse tempo. Aquele rosto vazio já não parecia mais inexpressivo. O rosto de Tristão se ilumina com um sorriso de admiração, ou fascínio. Delicadamente, ele estica seu braço em direção à mão daquela moça bonita de vestido vermelho. Os dedos se tocam. A mão calejada do velho desliza suavemente sobre a dela, como se fosse conduzi-la para uma dança. Mas ele recua, envergonhado.

De volta ao trabalho, Tristão guarda alguns objetos no depósito do estúdio, em meio a araras cheias de figurinos e pedaços de cenários. Quando ele tenta colocar uma caixa de papelão no alto de uma prateleira, esta acaba escapulindo de suas mãos e cai no chão, espalhando todo o seu conteúdo ao redor. Paciente, o zelador recolhe as bugigangas de volta à caixa. Ele se distrai um pouco com cada objeto: experimenta um chapéu, encosta o ouvido em um velho relógio de bolso, para ver se funciona, sopra uma nota desafinada em uma corneta empoeirada. No meio de tudo aquilo, ele vê um colar de contas de plástico coloridas, e sorri.

FLERTE

Tristão e a manequim estão sentados em uma mesa que ele mesmo preparou, no meio do estúdio. Sobre a mesa, iluminada à luz de velas, uma garrafa de champanhe utilizada no comercial que estava sendo filmado. O velho serve a bebida em dois copos de requeijão. Ele dá um gole e se levanta. Galante, o zelador dá uma volta e se posiciona de pé, bem atrás da boneca. Ele põe suas mãos sobre aqueles ombros duros e começa a fazer uma massagem. Acaricia-lhe os cabelos, e enfim coloca o colar de contas em volta de seu pescoço. Então, Tristão carrega a boneca até um espelho no canto do estúdio, para que ela, ou melhor, ele, veja o resultado. Linda.

CONQUISTA

O velho zelador coloca um disco de vinil em uma vitrola velha. O disco range, estala, e enfim começa a tocar uma valsa. Tomando a boneca de vermelho e colar de contas pela mão, eles dançam no meio do estúdio, tendo os outros manequins como espectadores. Da valsa para um tango, rostos colados. A música atinge o clímax quando Tristão dá um beijo cinematográfico naqueles lábios firmes e não desenhados.

PAIXÃO

Com uma expressão maníaca, Tristão se ocupa de preparar algumas ferramentas, e separa uma furadeira. O zelador então abre uma caixa de brocas, e pega a maior delas. Como um verdadeiro cirurgião, o velho encaixa a broca e aciona a máquina, que ronca de forma ensurdecedora. À sua frente, apoiada na mesa, a boneca lhe aguarda de pernas abertas, já sem o vestido vermelho.

REALIZAÇÃO

No quartinho de descanso do estúdio, a boneca está deitada numa cama, coberta por um lençol até a altura do peito. Ao seu lado, Tristão fuma um cigarro, em estado de graça.

SEPARAÇÃO

Tristão está dormindo quando a campainha toca. Ele acorda sobressaltado e se veste rapidamente. Com agilidade, põe o vestido vermelho na boneca e a leva de volta para o estúdio. O zelador corre para a porta, mas para ao se lembrar de algo. O chapéu! Após montar o manequim no mesmo lugar, o velho lança um último olhar para sua amada. Já diante da porta externa, Tristão ajeita o cabelo e se recompõe. A produtora já entra apressada:

– E aí Tristão, tudo ok no fim de semana? Eu trouxe o pessoal pra desmontar o cenário… Pode entrar, pessoal!

Um bando de ajudantes invade o recinto. O zelador acompanha seus passos de perto, tentando disfarçar seu desespero. De forma rude e descuidada, eles começam a recolher os manequins. Um dos homens pega a boneca de vestido e chapéu vermelho, e começa a despi-la. Indignado, o zelador quase reage para proteger a honra de sua amada, mas consegue se conter. O ajudante separa o tronco do manequim das pernas, para horror do velho, que sofre em silêncio, tão despedaçado quanto a boneca.

Ao colocar a parte de baixo do manequim num caixote, o sujeito percebe algo estranho e comenta com um dos colegas:

-Ei Zé… Tinha esse buraco aí antes?

Zé também faz uma expressão de espanto, mas logo eles continuam com o trabalho pesado. O zelador disfarça, olhando para outro lado. A caixa é levada junto com as outras para um caminhão. O velho acompanha tudo aquilo, desconcertado. As portas do veículo se fecham, e eles partem deixando Tristão amargurado, no meio da rua, com o olhar perdido.

Ele volta para o estúdio cabisbaixo, arrastando os pés, arrasado.

Antes de sair, a produtora chama o zelador para lhe mostrar algo:

– Já viu o novo aplicativo do estúdio, Tristão?

A moça saca o celular e clica em um ícone na tela. Uma sexy voz feminina saúda o usuário, enquanto uma agenda de atividades aparece numa tabela.

– Olá, eu sou Isolda, sua nova assistente digital. Deseja incluir alguma tarefa?

Enquanto a produtora explica a novidade, o rosto de Tristão se transfigura novamente em um sorriso brilhante.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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