Hotel Casarão

Hotel Casarão
Fonte: Pinterest (As imagens podem ter direitos autorais)

Um veleiro navega pelo mediterrâneo. No timão, um único tripulante conduz o barco com ar de satisfação. Óculos escuros, roupas brancas, como um autêntico playboy internacional. O som de um chamado eletrônico interrompe o idílio. No telefone via satélite, uma voz feminina fala antes dele.

– André, onde você está?

Olhando à direita, vendo uma costa desértica com uma cidade portuária de onde se destaca uma coluna negra de fumaça e helicópteros que voam em círculos, André Salvador responde:

– Você não vai querer saber.

A voz fica impaciente: 

– Está bem, não diga, mas aqui vai seu próximo destino. Algarve. Você vai se hospedar no Hotel Casarão.

Obrigado. Estava precisando mesmo de umas férias.

A voz ignora a ironia e continua: 

– Lá você vai conhecer Jade Gonçalves.

– Já conheço. Aliás quem não conhece? Como é mesmo o refrão da última dela? “É claro que me queres… mas gostas mais… de outra…” Desculpe pelo desafino.

– Não se anime. Ela não é seu contato, mas o segurança dela. Nosso agente. Pedro Queiroz.

O celular mostra a foto de um homem grisalho em boa forma.

– Está bem. Não me animo mesmo.

André aportou no cais do próprio hotel. Olhando para cima do penhasco, viu a grande mansão cercada por um jardim bucólico. Na recepção, onde já era esperado, viu sair do elevador Jade, deslumbrante, seguida pelo segurança. Trocou olhares discretamente com o segurança e menos discretamente com Jade.

Mais tarde, no jardim, bebendo algo refrescante, mas alcoólico, porque ninguém é de ferro, se aproximou de Pedro e fingiu ter uma conversa prosaica. O que interessa e foi dito por Pedro é que a famosa cantora tinha um segundo emprego: traficar informações entre seus amantes ricos e poderosos. Informações que derrubavam governos, evitavam algumas guerras e criavam outras.

– Então ela é uma de nós?

– Aí é que está. Não é nossa nem de nenhuma outra organização que conhecemos.

– Talvez esteja sendo chatageada. Uma refém a céu aberto. Talvez você mesmo seja seu títere.

– Talvez, mas ao menos por hora você terá que confiar em mim e eu precisarei confiar em você, porque temos aqui um bocado de gente querendo matá-la e a nós também.

– Sim já percebi. O sujeito na piscina parece um russo de filme do James Bond. Deviam mandar assassinos mais discretos. O barman, que deve ter sido contratado esta semana, não sabe nem fazer um morrito descente e anda com uma walther escondida sob o avental.

– Como você sabe que é uma walther?

– Ele tem cara de alemão, apesar do sotaque holandês.

A conversa foi interrompida por Jade, que anunciou que faria uma massagem no spa já que, aparentemente, a terapeuta corporal não tinha permissão para atendê-la na piscina. Pedro desconfiou logo. Tudo é permitido a um cliente do Hotel Casarão.

– Se você quiser, ficarei feliz a lhe massagear aqui mesmo. – Disse André, sedutor. A moça, olhando de cima baixo o corpo talhado por anos de pancadaria e missões mortais, logo se derreteu, lânguida.

– Não antes de uma apresentação, não é?

– Salvador. André Salvador. – Respondeu marotamente, enquanto beijava a mão da moça.

A massagem começou na piscina e terminou no quarto. Era uma forma eficiente de reunir o útil ao agradável e manter a moça vigiada bem de perto. Ao menos essa foi a justificativa que André deu à voz feminina ao telefone, que o censurava pelo comportamento impertinente. Enquanto André guardava a moça, Pedro vigiava do lado de fora da suíte principal, contrariado.

O sol alaranjado mergulhava nas águas do mediterrâneo. Chegou a hora de Jade se preparar para o pocket show que daria aos hóspedes milionários do Hotel, a quem chamava de “meus amigos”, embora fossem muito mais seu clientes, ou quem sabe seus patrões. Assim é a vida nas altas rodas, onde não há distinção entre vida e trabalho, sentimentos e interesses. 

André foi para seu próprio quarto, vestir-se com fraque e armar-se com pistola sob o colete, faca no tornozelo e foco na missão. Desceu para o jardim e circulou em ronda. Viu que mais dois carros haviam chegado. Estavam parados nos fundos, o que era suspeito. Viu entre hóspedes e funcionários novos rostos. Todos russos de filmes do James Bond, com as armas mal escondidas, incluindo a metralhadora na caixa do violoncelista russo. Ele precisava avisar Pedro imediatamente e tirar Jade dali. Subiu correndo pelas escadas dos funcionários para encontrar Pedro numa antecâmara da suíte com um furo entre os olhos arregalados. Dentro no quarto, Jade aquecia a voz no chuveiro com tanto vigor que não ouviu André batendo à porta. Só quando ele esmurrou, ela parou por um instante.

– Não vou mais ao restaurante! Irei jantar no quarto!

André não pôde responder, pois já havia uma corda de piano em volta do seu pescoço. Sem respirar, ele lutou pra se livrar do mercenário russo, jogando-se contra as paredes. Mas o que resolveu mesmo foi a faca no tornozelo.

Após uma passada rápida no lavabo para recompor a persona, André correu para a cozinha. Seria mais fácil, claro, arrombar a porta da suíte, fuzilar os russos e fugir num Porsche roubado. Mas isso arruinaria seu disfarce de playboy e daria à Agência um trabalho danado de acobertamento, que talvez lhe custasse o emprego. André não gostaria de terminar como aqueles mercenários, servindo champanhe com uma AK47 serrada embaixo do paletó. Além do mais, se um mercenário russo já é coisa de se lamentar, que diria um mercenário português naturalizado.

Chegando à cozinha, chamou o chef e disse que queria fazer um agrado à senhora Jade, levando-lhe um belo jantar. Supervisionou de perto o preparo da bandeja. Quando tudo ficou pronto, chegou a moça que serviria a refeição.

– Clara? – engasgou André, diante da moça alva com uniforme de serviço. Ela ficou ainda mais surpresa que ele.

– André…

– Não diga nada, eu…

Os gaguejos de ambos foram interrompidos pela chegada do maitre, acompanhado por um sous chef russo que fazia mais esforço para sorrir do que para andar com a escopeta dentro das calças. Clara, num soluço, se recompôs.

– Vou ligar para o quarto… Boa noite, senhora Jade, já podemos servir o jantar aí?

André, vendo o sus chef russo capengar escada acima, pede para falar com Jade pelo interfone, mas Clara desliga, para seu desespero.

– Não! Eu preciso falar com ela! 

Incomodada, Clara coloca a bandeja sobre o carrinho, mas André a interrompe, ansioso.

– Eu vou levar o jantar. Pode deixar.

Clara arranca o avental e joga na cara de André, com lágrimas nos olhos.

– Eu já devia esperar por isso. Você não passa de mais um playboy com roupas caras e carros e barcos. Como não desconfiei? Explica-se tudo. 

– Você não entende. Não tenho nada. O barco não é meu. Nem este terno é meu!

– Então é a ela que você quer?

Por um momento André esquece a missão e lembra da canção.

–  Sim, a quero, mas é de ti que gosto.

A frase, mal explicada, sem contexto e de sinceridade suicida, resulta num tapa de mão aberta que deixa as marcas dos dedos longos de Clara nas bochechas de André. A oportunidade de consertar as coisas é perdida, porque mais dois russos entram pela cozinha e alcançam facas afiadas. André enlaça Clara que, sob protestos, é empurrada para dentro de uma despensa e trancada com cadeado. André não tem tempo de alcançar a arma. A luta na cozinha é feroz. O primeiro russo é abatido com água fervente e um golpe de caçarola. O segundo, enforcado com um polvo.

Ajeitando a gravata, após arrastar os corpos dos russo para o frigorífico, André sobe para a suíte. Quando chega ao corredor, escuta tiros vindo de lá. Corre e, no embalo da corrida, salta sobre a porta derrubando-a no chão. Jade está deslumbrante, num vestido brilhante de gala, junto à janela, empunhando um rifle e trocando tiros com os músicos que, do jardim, disparam contra ela usando os instrumentos retirados de suas manjadas caixas. Ao ver André, ela grita:

– Diabos! Onde você estava? Por que demorou tanto?

Ela aponta pra o sofá.

– Anda!

André tira as almofadas e rasga o tecido sob o qual está um fuzil de mira telescópica. Ele corre para outra janela e se junta a Jade no abate de assassinos russos. Assim que o último é derrubado, André sente uma pancada seca na nuca. Antes de desmaiar, recebe um beijo molhado de Jade.

– Obrigada. Você é muito prestativo.

Quando André acorda, o Hotel está repleto de agentes da organização, disfarçados de policiais, de paramédicos, de peritos e até de faxineiros. Todos criando a versão oficial de um atentado terrorista de separatistas chechenos ou algo do gênero. Após ser liberado pelo médico, André vai até a despensa e abre o cadeado, mas só encontra uma janela quebrada, com um trapo de avental bordado de garçonete pendurado entre os cacos. No jardim, uma senhora elegante e bonita se aproxima.

– Você deve ter sido um pedaço de mal caminho quando esta na ativa, Stela.

– Absurdo. Eu ainda sou um pedaço de mal caminho.

– Sem dúvida. Ela escapou?

– Sim. É melhor assim, entende? Se você realmente gosta dessa menina.

– Não gosto dela. Só gostei de massageá-la.

– Não estou falando de Jade Gonçalves. Essa nós pegaremos outro dia. Falo da moça chamada Clara.

André fica mudo por alguns segundos, depois cede à preocupação.

– Ela não é uma ameaça pra ninguém.

– Sim. Creio que ela ainda não sabe de nada. É melhor pra ela que continue assim. É melhor pra você também.

– Certamente é melhor pra você, não é, Stela?

– Esqueça isso. Preciso de você no Brasil, urgentemente.

– Brasil?

– Sim. Tudo indica que a reunificação irá realmente acontecer. Precisamos descobrir quem está por trás disso.

– O Reino Unido de Brasil e Portugal. Quem diria que eu voltaria para casa à serviço da Coroa… Posso levar o veleiro?

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Daniel Mattos

Daniel Mattos

Nasceu em Petrópolis, em julho de 1975 e recebeu o nome de Daniel Vidal Mattos. Desde então está em busca de respostas sobre o que é ser Daniel Vidal Mattos, nascido em Petrópolis em julho de 1975. Não se parece com a foto aqui publicada.

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