II. Bang!

II. Bang!

(Antes: I. Polícia e Ladrão)

Emil chega em casa no início da noite, com a pistola escondida na mochila. Quando o menino entra pela porta da sala, percebe que sua mãe está dormindo no sofá. TV ligada na novela, uma garrafa de vodka barata quase vazia em cima da mesa de centro. Não era comum que ele voltasse tarde da escola, mas a verdade é que ninguém se importava.

Tomando o rumo do cubículo ao lado da área de serviço que servia como seu quarto, o garoto não conseguia parar de pensar na cena que tinha presenciado. O fugitivo estava ferido, encurralado, perdido, mas aquela peça de metal miraculosa o salvara da morte certa. Um poder realmente impressionante. Tudo estava resolvido com apenas um único tiro. Emil então abre a mochila apenas para olhar novamente a pistola. Era de cor preta, metalizada, com a pintura já gasta em algumas partes. Ficou ali meio hipnotizado o resto da noite, e só deixou o aposento para ir ao banheiro e depois comer um resto de pão de velho na cozinha. Ele sabia que nos dias em que sua mãe começava a beber à tarde não tinha jantar, nem café da manhã no dia seguinte. Dormiu profundamente, e pela primeira vez em muito tempo teve um sonho bom. Seu pai, que ele não tinha chegado a conhecer, aparecia em casa e o pegava pela mão. Não conseguia ver o rosto do homem, mas tinha certeza de quem ele era.

Emil acordou atrasado para a escola, ouvindo gritos na cozinha. Vestindo a mesma roupa do dia anterior, pegou sua mochila e não parou para ouvir a discussão feia que a mãe estava tendo com seu padrasto. Aquilo era comum. Um mal estar tomava conta de seu estômago naquelas horas, mas já tinha passado da época em que ele chorava ou tentava interceder de alguma forma. Ele sabia que, para não levar a pior, era melhor esperar tudo voltar ao normal.

Quando entrou na sala de aula, percebeu uma pausa acompanhada pelo olhar de reprovação da professora. Como na maioria das vezes ninguém o notava, sentiu-se estranhamente confortável com a situação. Buscou a mesa do canto, perto da porta, a mesma onde ficava todos os dias. Mas um dos moleques mais velhos tinha colocado sua mochila em cima daquela cadeira. Emil ficou olhando um tempo para a mesa, e percebeu os sorrisos de deboche dos colegas ao redor. A professora então se incomoda:

– Algum problema, Emil?

Sem nem desviar o olhar, o menino se dirige para o fundo da sala, procurando uma mesa livre. Com a aula momentaneamente paralisada, Emil escuta o burburinho do resto da turma, que se divide entre risadinhas de desprezo e cochichos de piedade. Senta em uma cadeira encostada na parede, ajeita a mochila com cuidado e retira um caderno surrado e um lápis para anotar a lição. A professora continua olhando em sua direção. O silêncio agora já era um pouco constrangedor.

– Escuta aqui, menino. Da próxima vez que for chegar a essa hora, não precisa vir. Estamos combinados?

Emil assente, abaixando a cabeça. Mais risos de deboche. O resto da aula acaba passando rápido demais para ele, que estava com a cabeça em outro lugar. No intervalo para o recreio, como jamais tinha dinheiro para comprar um lanche e não gostava da merenda que era servida de graça na cantina, partiu para o banheiro, como fazia nos outros dias. Mas dessa vez tinha levado a mochila. Entrou numa cabine, trancou a porta e novamente ficou observando a pistola. Alguns minutos depois, Emil escuta outra pessoa entrando no banheiro.

– Cadê você, “Emília”? Tá escondido no banheiro com a mochila por quê? Trouxe lanche de casa hoje e não quer dividir com os amigos?

Era a voz do Chico, um dos “policiais” da brincadeira. O mais agressivo. Já tinha sido humilhado por ele muitas vezes, a pior delas quando foi obrigado a comer o próprio sanduíche com um escarro verde desferido pelo moleque. Naquele dia, tinha chorado de raiva.

– E aí, “Emília”? Quer levar porrada hoje?

De dentro da cabine, escutou quando Chico começou a procurá-lo nos demais reservados. Mas dessa vez sabia o que fazer. Dessa vez não ia ter humilhação. Segurou firme na pistola e esperou o moleque aparecer, suando de excitação e um pouco de medo.

Quando Chico tenta abrir a cabine e percebe que ela está trancada, dá o ultimato:

– Melhor sair daí agora, “Emília”…

O moleque então toma um impulso e se pendura na porta. Com a cabeça para dentro da cabine, percebe com horror o cano da arma apontado em sua direção.

“Bang!”

(Continua: III. A Invasão da Escola)

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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