I. Polícia e Ladrão

I. Polícia e Ladrão

“Bang! Bang!”

A onomatopeia servia para os meninos da Rua Amoedo dispararem os projéteis das suas armas fictícias enquanto se divertiam com a brincadeira que chamavam de “Polícia e Ladrão”.  Se de um lado corriam os rapazes mais fortes, mais hábeis e mais populares no grupo intitulado “Polícia”, do outro aqueles mais rebeldes, tímidos ou fracos eram relegados ao papel de vilões da brincadeira, e obrigados por isso a se emaranhar nas moitas do Bosque dos Esquilos, uma pequena reserva florestal no bairro, que oferecia um palco perfeito para aquele teatrinho.

Costumavam brincar por toda a tarde, desde a saída do colégio até o cair da noite, quando a baixa visibilidade do bosque, praticamente sem iluminação, os obrigava a encerrar a brincadeira e tomar cada um o rumo de casa.  Nessa hora, invariavelmente os ladrões sobreviventes se rendiam ante o inconfessável medo do escuro ou simplesmente da outra força policial, muito mais poderosa, que alguns enfrentariam em casa, caso chegassem muito tarde.

A polícia sempre vencia. Não apenas pela divisão injusta, nem pela estratégia que vez ou outra resumia a brincadeira a um simples jogo de paciência até que o último bandido, pressionado pela escuridão, era obrigado a sair de sua toca e cair nas garras dos policiais entrincheirados. Havia também outra diferença fundamental com relação à pontaria e poder de fogo das armas das duas equipes. Embora não passassem, todas elas, de simulacros de plástico (no caso dos mais ricos), ou de gravetos retorcidos e tocos de madeira rusticamente talhados à imagem de uma escopeta ou pistola, as armas de mocinhos e bandidos tinham eficácia diversa.

Quando um ladrão distraído era surpreendido em seu esconderijo de galhos por um policial, seu destino estava traçado: seria impiedosamente fulminado por um único ‘bang!’ e obrigado a abandonar a brincadeira.  Por outro lado, não eram poucas as vezes em que mesmo uma quadrilha inteira em fogo cerrado não era capaz de deter um policial em fuga. Acertavam-lhe o braço, a perna, o pé e até mesmo a cabeça, de raspão. Mas nada impedia que o heroico defensor da lei se esgueirasse, sangrando de forma figurada, para um abrigo seguro, onde ele poderia esperar retribuindo o fogo até que seus pares o encontrassem. 

Era assim porque eles próprios se incumbiam dos papéis de atores e juízes das aventuras que personificavam naquelas tardes belicosas. Não era de se espantar, pois, que os membros destacados da polícia narrassem os episódios. Que decidissem, alheios a critérios objetivos, quem tinham acertado seus ‘bangs!’ e quem tinha errado. Como se sabe, a história é contada pelos vitoriosos, pois o que determina uma vitória é justamente o privilégio de poder contar a história. 

Certo dia, o pequeno Emil se aproximou de seus colegas de colégio e, pela primeira vez, teve coragem de pedir para acompanhá-los ao bosque. Não foi recusado, nem aceito. Sutilmente o ignoraram. Mais novo que seus colegas da quinta série, quase todos repetentes famosos da Escola Municipal, devia ser tratado com desleixo por sua família pobre, uma vez que só andava sujo e com roupas gastas. Pior, era tímido, muito tímido. Havia quem jamais tivesse escutado sua voz em todo o ano letivo. Quando falava, falava baixo, quase em murmúrios. Quantas vezes tinha se deparado com a preparação dos moleques para a brincadeira, e quantas vezes tinha desistido de pedir a eles uma chance de participar. E quando se afastavam correndo, zoando uns aos outros e preparando as armas, os olhos de Emil calavam suas palavras. Restava-lhe caminhar sozinho para casa.

Mas, naquele dia, Emil tomou coragem para acompanhar os moleques que já discutiam os times. Esta era uma etapa importante da brincadeira, uma vez que atestava quem tinha prestígio para juntar-se aos policiais. Os ladrões de ontem cerravam punhos na esperança de serem lembrados ou reconhecidos por seus algozes. Eram poucos os brancaleones com vocação para o exército de molambos que configurava os ladrões. Mas os verdadeiros proscritos desdenhavam dos policiais. Dois ou três, no máximo. Policiais novatos bajulavam os mais antigos, na esperança de manter a posição recém conquistada. Sabiam que aquele era o momento exato em que um veterano poderia usar para retaliar algum desafeto de ocasião.

Em frente ao portão principal da escola era recrutada a polícia daquela tarde. Todos muito compenetrados, alguns no exercício político da seleção, outros no da espera. Emil intuiu que talvez por esse motivo não lhe respondiam. Tinha de acreditar nisso para continuar procurando um sorriso, um menear, um gesto que fosse de assentimento. Não encontrou nada parecido, apenas um pequeno pedaço de madeira podre caído no chão, perto do bueiro. Com algum esforço da imaginação, aquilo poderia passar por arma. Ao segurá-la, sentiu-se pela primeira vez parte do grupo, e mesmo sem autorização expressa, seguiu com eles para o campo de batalha.

Já no bosque, quando os policiais deram o sinal para que os ladrões se escondessem, Emil logo percebeu qual era o seu grupo. De forma desajeitada, tentou seguir alguns moleques bandidos que lhe pareciam mais safos. Mas até mesmo seus novos comparsas não pareciam prestar muita atenção nele. Um barranco íngreme, a escalada de uma árvore mais alta ou a incursão num matagal fechado se tornavam uma barreira intransponível para o novato. Restou para Emil seguir correndo até os confins do bosque, o mais longe possível da base policial, para tentar garantir a sobrevivência na brincadeira.

Já perto da estrada que cruzava a serra nos limites do bairro, Emil parou e resolveu se esconder atrás de uma árvore com tronco largo. Naquele local, a vegetação do bosque não era tão densa, mas a folhagem morta espalhada no chão conferia um aspecto desolador. Devia estar seguro por ali, pelo menos durante algum tempo. De fato, ouviu apenas de longe, poucas vezes, a troca de tiros entre perseguidores e perseguidos, mas tratou de se manter quieto por longas horas.

Quando as sombras já se esticavam longas, Emil começou a sentir um pouco de medo. Talvez fosse melhor se entregar. Mas não teve tempo de pensar muito, pois começou a escutar o som ofegante de alguém correndo em sua direção. O coração do menino tinha disparado, finalmente estava no jogo. De olhos cerrados, se apertando contra a árvore, tratou de ficar em silêncio. A respiração do ladrão era cada vez mais perceptível. Quando já estava cogitando chamar o colega para dividir o esconderijo, Emil se assusta com um homem feito desabando quase ao seu lado, deixando um rastro de sangue como uma trilha.

De olhos arregalados, coração a mil, o menino apenas dá um passo para o lado, para se manter escondido. Já tentando se lembrar da oração que o padre do catecismo tinha lhe ensinado, Emil escuta passos firmes que se aproximam dali. O medo era muito, mas a curiosidade também. Com todo o cuidado do mundo, ele movimenta a cabeça apenas o suficiente para ter alguma visão da cena. Ao mesmo tempo excitado e aterrorizado, Emil vê outro sujeito se aproximar do homem caído, de forma ameaçadora. Antes, porém, que o perseguidor possa realizar qualquer ação, o ferido saca uma pistola automática e desfere um tiro certeiro no pescoço de quem o acossava, que tomba ao chão.

O estampido seco faz o menino tremer dos pés à cabeça. O assassino então se levanta com dificuldade, e Emil vê quando ele joga a pistola em cima do corpo do sujeito morto, já com uma poça de sangue fresco se espalhando ao redor. Mancando de uma perna, o homem ferido se arrasta para longe dali, deixando um sinistro rastro vermelho vivo pelo caminho.

Emil aguarda por um instante, e finalmente resolve sair do seu esconderijo. O bosque já estava na penumbra quando ele se posiciona à frente do cadáver. Um vento frio sopra sua nuca, enquanto ele observa detidamente as feições do morto, cabelos pretos, olhos castanhos abertos, barba e bigode por fazer. Fascinado com tudo aquilo, o menino joga fora sua arma de madeira e recolhe a pistola largada em cima do corpo. A brincadeira certamente tinha acabado. Já estava na hora de voltar pra casa.

(Continua: II. Bang!)

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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