V. Inimigo Público

V. Inimigo Público

(Antes: IV. Serial Killing)

Como a porta da frente do casarão estava trancada, e Emil não sabia onde estava a chave, procurou pela saída dos fundos, que dava acesso a um quintal grande onde havia um canil. Os cachorros estavam presos, mas não se importaram com o menino. Perto do muro que separava a propriedade da casa ao lado, havia uma cerca com uma pequena fresta, de tamanho suficiente para que ele pudesse escapar para a rua.

Max nem tinha terminado o trabalho no beco quando foi informado de outro assassinato na pequena cidade. Aquilo era demais. Em menos de 24 horas, o índice de homicídios já tinha batido todo o resultado do ano interior. Não havia mais dúvidas de que um serial killer estava à solta. Os moradores alternaram do sentimento de curiosidade, e até mesmo de excitação, para o medo. Os policiais já orientavam que todos permanecessem em suas casas, pelo menos até descobrirem o que estava realmente acontecendo.

Ao chegar ao casarão, Max estranhou a cena do crime. O que diabos aquele velho estava fazendo de cueca na cozinha? Também havia restos de comida na mesa, e o detetive logo imaginou que a vítima tinha companhia quando levou um tiro pelas costas. Com certeza o assassino não faria a refeição depois de matar o homem. Aparentemente, nada tinha sido roubado, nem a porta estava arrombada. Seja quem tivesse cometido aquele crime, tinha entrado ali a convite do morto.

Era um padrão diferente dos homicídios ocorridos na escola, que sugeriam um franco atirador, o do bosque, claramente uma execução, e aquele no beco, que parecia um crime comum, resultado de alguma briga ou rixa entre gangues que terminou mal. Mas os buracos de bala eram exatamente iguais. Os testes de balística certamente iriam confirmar o que as cápsulas encontradas já indicavam: todo aquele horror foi causado pela mesma arma.

Transtornado com tudo aquilo, Max orienta sua equipe a recolher diligentemente todas as impressões digitais da cozinha. A saliva no copo usado, as pegadas no chão, tudo. Tentando pensar com a cabeça do assassino, o detetive sai pela porta dos fundos do casarão e chega até o quintal. Os cachorros presos no canil latem de forma agressiva para o policial. Ele caminha pelo local, tentando imaginar como o sujeito escapou dali. Alguma marca de pé no muro, uma telha quebrada ou fora de lugar, mas não acha nada. Somente o buraco na cerca, mas era pequeno demais para alguém passar ali. Incomodado com os cães, Max resolve que já tinha passado tempo demais ali.

Naquela noite ninguém iria dormir tranqüilo. Os moradores da cidade em pânico com o noticiário da TV, que já atraía a cobertura de emissoras de todo o país. O detetive, de volta à delegacia, decidiu que ficaria de plantão por lá, já suspeitando que a escalada de homicídios poderia aumentar. Emil, que tinha voltado pra casa bem alimentado, logo percebeu que o clima estava pior que o de costume.

Completamente bêbados, a mãe e o padrasto de Emil continuavam brigando de forma violenta. Quando o menino percebeu que sua mãe tinha o rosto ensanguentado, e um enorme hematoma na testa, correu para o banheiro, onde se trancou. Iria ficar ali até o dia seguinte, ou pelo menos enquanto os adultos não dormissem.

Na delegacia, o perito chama Max para conversar. Tinha descoberto algo interessante. Todos os tiros tinham sido disparados de baixo para cima. Se, no crime do casarão e no banheiro da escola, isso podia ser explicado caso o assassino estivesse sentado numa cadeira ou na privada, era muito estranho que alguém tivesse se abaixado para acertar a professora, o homem no bosque ou aquele marginalzinho no beco.

O detetive arregala os olhos, iluminado pela informação. Repentinamente, ele se lembra do garotinho sozinho na porta da escola onde os crimes aconteceram. Os moleques brincando de polícia e ladrão no bosque onde o primeiro cadáver tinha sido encontrado. O beco e o casarão no mesmo bairro onde tinha deixado o menino na porta de casa.

“Agora eles não podem mais me fazer mal”.

Sem perder tempo, Max sai apressado da delegacia e pega uma viatura, avisando os demais policiais para seguirem-no.

Enquanto isso, em casa, Emil está sentado na privada do banheiro. A briga parecia ter terminado, mas passados alguns minutos, seu padrasto logo começa a esmurrar a porta:

– Abre essa porta, moleque! Tá querendo apanhar, porra?!

Emil fica calado. Mas já estava com a pistola nas mãos, por precaução.

– Eu quero usar a porra do banheiro, seu imprestável!

O padrasto se enfurece cada vez mais com o silêncio, e começa a chutar a porta, na intenção de arrombá-la. Emil faz a mira.

– Abre essa porta, porra! Vou derrubar essa merda!

Max e os policiais chegam até a casa de Emil. O detetive pede que os outros aguardem, enquanto ele decide averiguar o local. O padrasto do menino enfim consegue arrombar a porta, mas se surpreende quando vê o cano da pistola apontado para sua cara. Max se assusta com o barulho e corre para a porta da casa, só parando quando escuta o estampido seco da pistola.

“Bang!”

O tiro é certeiro. No meio do rosto. Emil continuou sentado na privada, observando o sangue que fluía lentamente ao redor da cabeça do padrasto, que tinha caído de cara no chão. Não sentia remorso algum, mas até algum alívio.

Do lado de fora, os policiais entram em estado de alerta máximo, e começam a se espalhar para cercar o local. Reforços são solicitados pelo rádio. O assassino estava lá. Parado de costas para uma janela, Max saca sua arma, mas não sabe o que fazer. Com cuidado, ele espia para tentar ver o que estava acontecendo, mas só consegue ver o vulto de uma mulher correndo da sala para o interior da casa.

A mãe de Emil chega ao banheiro e dá um grito de horror quando vê o marido caído no chão. Ela então se joga sobre o corpo, chorando, e vira seu rosto. Quando a mulher vê o buraco da bala ao lado do nariz, entra em desespero. Olhando para o filho, que continua segurando a pistola, ela berra com raiva:

– O que você fez?! Seu monstro!

Ao escutar os gritos, Max toma coragem e entra na sala, com cuidado. Os outros policiais tentam alcançar posições estratégicas ao redor da casa, onde possam ver a cena do crime pelas outras janelas e basculantes.

No banheiro, a mãe de Emil avança para cima do filho, e tenta tomar-lhe a arma. Em cima do telhado de uma casa ao lado, um dos policiais se esforça para assistir à cena de luta, através de uma fresta do basculante. O detetive chega ao recinto exatamente no momento em que a arma dispara, e a mulher tomba ao chão. Quando escuta o segundo disparo, o policial de tocaia não hesita em atirar para abater o que lhe parece ser um assassino em série dentro daquele banheiro.

– NÃO!

O grito de Max é em vão. O corpo do menino cai sobre os cadáveres da mãe e do padrasto.

O reforço policial chega no momento em que o detetive sai da casa com Emil no colo, desesperado por ajuda. As lágrimas correm pelo rosto de Max, que parece inconformado com a tragédia que tinha acabado de assistir. Todos ficam atônitos no local, mas não há muito o que fazer. O tiro do rifle tinha atravessado o pequeno coração do garoto.

***

No dia seguinte, Max está terminando de redigir o relatório da noite anterior. O detetive continuava muito abatido, tentando encaixar todas aquelas peças. Ele conseguia imaginar uma justificativa, ainda que parecesse absurda à primeira vista, para os assassinatos na casa de Emil, na escola, no beco e até no casarão. Mas aquela primeira morte no bosque não fazia sentido algum. O tiro também tinha sido disparado de baixo, de fato. Mas havia uma trilha de sangue no local, que não era do morto, nem do garoto. Ficou pensando durante um tempo, até chegar à conclusão de que jamais saberia ao certo o que tinha acontecido. Mas de uma coisa ele tinha certeza.

No fim do relatório, Max digitou: “Eu preferia ter morrido no lugar dele”. O detetive então olhou para o cursor piscando na tela, e apagou a última frase. À sua frente, num saco plástico, estava a pistola automática de cor preta, com a pintura já gasta, que tinha sido encontrada na cena do crime final.

FIM

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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