IV. Todos Contra Um

IV. Todos Contra Um

(Antes: III. Perseguição no Shopping)

Aquela madrugada era mais do que mindblowing. Era literalmente mindfucking. Sem mais opções, ele tenta o celular de seu melhor amigo, o último dos números que sabia de cabeça. Alguém atende em meio a uma algazarra, com voz pastosa, falando alto, de boca mole:

– Alôoouuu…

– Marcelo?! Puta que o pariu, mermão! Aqui é o Santoro, cara! Tô precisando muito da sua ajuda! Questão de vida ou morte!

– Faaala, Santoroooo! Uhuuu! Aqui é o Mateus, cara!

– Mateus?! Teu irmão taí?! Chama ele pra mim, por favor!

– Ih, cara… Ele tá no quarto com a Mônica. Acho que tá dormindo.

– Mateus! Escuta bem, moleque! Nós dois sabemos que ele não tá dormindo porra nenhuma! CHAMA ELE AÍ AGORA!

– Tá maluco?! Tu sabe muito bem o que ele vai fazer se eu bater lá na porta do quarto…

– PORRA, MATEUS! Faz o que eu tô te dizendo senão EU É QUE VOU TE ENFIAR A PORRADA!

– Hmmm… Espera aí então.

Santoro aguarda alguns instantes na linha, sempre olhando ao redor para se certificar que não vem ninguém.

– Alô?

– Porra, Marcelo! Tu tem que vir aqui no shopping pra me pegar, cara! Eu tô fudido! FUDIDO!

– Shopping?! O que tu tá fazendo aí a essa hora, porra?

– Caralho, cara! Depois eu te conto! Eu tô numa merda gigantesca! Vem pra cá AGORA! E CHAMA A POLÍCIA!

– Para de sacanagem, Santoro…  Eu tô pelado, cara! Que porra é essa?!

– PORRA, MARCELO! É SÉRIO, CARA! VEM PRA CÁ AGOR…

Santoro para de falar repentinamente quando percebe, através de um monitor de vídeo, que os mascarados já estão no corredor de serviço, chegando à central de segurança. Em outra tela, o líder encapuzado aparece olhando para a câmera, como se pudesse vê-lo! Borrado de medo, ele desliga o telefone e procura por ali mesmo algum lugar para se esconder. Espremendo-se num canto entre um armário e uma mesa, Santoro observa pelos monitores a movimentação de seus perseguidores, que estão prestes a entrar no recinto.

Para seu completo horror, só agora ele percebe que um dos monitores capta exatamente as imagens do cantinho onde ele está! Um mascarado já está perto de entrar na sala. Ele vai ver o vídeo! Santoro então se lembra do celular sem bateria, e o arremessa diretamente no monitor bandeiroso, que apaga. O mascarado abre a porta e começa a vasculhar o local. Ele acha o telefone no chão, e passa perto do esconderijo de Santoro, sem vê-lo. Pouco depois, ele acaba desistindo de continuar a busca por ali.

Santoro respira aliviado. Ainda não seria dessa vez que aqueles putos o teriam como vítima de sacrifício. Ele volta ao telefone, mas descobre que estão mudos. O mascarado tinha cortado os fios. Filhos da puta. Santoro então percebe, na imagem de uma das câmeras que aponta para a entrada principal do shopping, um segurança do estabelecimento. O guarda está de costas, parecendo alheio a tudo de bizarro que acontece dentro do local.

Aquele cara podia ser a salvação! Mas era o portão principal. Como chegar lá sem ser notado? A verdade é que ele não tinha muitas opções. Pelos outros monitores, Santoro observa que seus perseguidores já estão espalhados por todo o shopping, e o líder continua o encarando pela câmera! Como aquele sujeito podia fazer aquilo? Ou seria alucinação? Seja o que fosse, logo eles voltariam àquela sala. Tomando coragem, ele sai da central de segurança pisando em ovos, pé ante pé, como um gato. No corredor de serviço, ele aguarda a passagem de dois mascarados, e corre até chegar ao hall principal.

Agora não havia mais jeito de ser sorrateiro. Santoro abre todo o gás até a entrada principal, sendo percebido por alguns perseguidores que rondavam no andar superior. Eles correm para descer uma escada. Ao chegar à porta, Santoro começa a gritar e esmurrar o vidro para chamar a atenção do segurança.

– EI, CARA! POR FAVOR! AQUI! SOCOOOORRO!

Enquanto faz movimentos bruscos, quase chegando a quebrar a maçaneta da porta do shopping, Santoro percebe que outros mascarados também o avistaram, vindos do corredor lateral. Do lado de fora, a uns 20 metros de distância, o guarda parece ainda não ter escutado as súplicas desesperadas.

– ABRE ESSA PORTA, CARA! ME AJUDA!

Em pleno desespero, ele dá um golpe com o cotovelo no vidro, que se estilhaça. Quando o segurança se vira, Santoro tem uma surpresa absolutamente desagradável: o funcionário está usando uma máscara do mesmo tipo que a de seus perseguidores. Com olhos arregalados, Santoro pragueja contra tudo aquilo:

– FUDEU!

(Continua: V. Resgate Heroico)

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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