V. Resgate Heroico

V. Resgate Heroico

(Antes: IV. Todos Contra Um)

Antes que o segurança possa abrir a porta, Santoro já está fugindo pelos corredores do shopping, com vários perseguidores atrás dele. No hall principal, cercado em todas as direções, acaba sendo obrigado a subir uma escada rolante que se encontra parada. Mas alguém consegue ligar a esteira, fazendo com que Santoro comece a descer na direção dos algozes. Ele então aumenta o ritmo, forçando toda a musculatura de suas pernas. Quando está quase alcançando o piso superior, percebe que outros mascarados já estão esperando por ele no local.

Sem alternativa, Santoro pula para a escada rolante ao lado e desce escorregando por uma rampa lateral até o corredor de baixo, onde os perseguidores continuam no seu encalço, cada vez mais próximos. Correndo em sua velocidade máxima, ele salta por cima de mesas, derrubando cadeiras e lixeiras pelo caminho, na tentativa de retardar o avanço dos mascarados. Novamente encurralado, e completamente desesperado, Santoro se joga com todo o peso do corpo na vitrine de uma loja de departamentos.

Caindo dentro do estabelecimento em meio a mil fragmentos de vidro, Santoro continua correndo até chegar ao setor de roupas femininas. Lá, ele pega um roupão de banho, um chapéu de praia com abas largas e se posiciona num cantinho, atrás dos outros manequins, aproveitando a penumbra. Tentando se manter imóvel, com o rosto escondido, ele observa de esgueira enquanto os mascarados o procuram pelo local. Para seu azar, no entanto, as luzes da loja são acesas, e somente nesse momento Santoro percebe que um rastro de sangue o denuncia. A adrenalina era tanta que ele nem sentiu um caco da vitrine enfiado em sua coxa, o que produziu uma trilha de gotas vermelhas marcadas no chão.

Suando frio, Santoro arranca o pedaço de vidro da perna e aguenta o tranco, mas se vê obrigado a correr dali, em fuga desabalada. Dessa vez, ele usa os manequins e balcões da loja para se manter afastado dos mascarados, que tentam cercá-lo. Quando a situação se complica, ele sai por uma porta de acesso exclusivo aos funcionários, atravessa algumas salas internas e acaba chegando às galerias de serviço do shopping. Passando por um depósito de limpeza, Santoro tem uma ideia brilhante: derrama no chão um galão de álcool e usa seu isqueiro para provocar um grande incêndio no local. Ufa! Agora ele teria um pouco mais de tempo para pensar em como escapar daquele inferno.

Seguindo silenciosamente pelo corredor interno, Santoro chega a uma sala de manutenção, onde encontra um mapa completo do estabelecimento. Durante alguns minutos, ele estuda suas opções. Tinha de arrumar um jeito de voltar à central de segurança para reparar o fio do telefone. De acordo com a planta, bastaria seguir por uma tubulação do ar condicionado, que conectava os dois setores. Antes de usar o armário para escalar até a grade no teto, Santoro pega um alicate numa caixa de ferramentas, o que seria suficiente para o conserto.

Com muita dificuldade, ele se arrasta pelo tubo estreito até chegar à outra grade, em cima da sala com os monitores. Mas, ao espiar pela fresta, Santoro nota que um dos mascarados estava de plantão no local, esparramado numa das cadeiras, segurando aquela ameaçadora lança de ferro. Com mil caralhos, o plano tinha falhado. Santoro respira fundo, mas com cuidado para não ser percebido. Quando já estava começando a se arrastar de volta, ele vê através da grade uma cena perturbadora: numa das telas de segurança, a que mostrava o hall principal do shopping, alguns mascarados conduziam outra vítima para o sacrifício. Era uma jovem, e bonita. Filhos da puta! Em outro monitor, Santoro vê que já tinham até preparado novamente o caldeirão fervente, no aguardo da presa. E o tenebroso líder encapuzado parecia continuar olhando para ele, mesmo ali escondido naquele tubo apertado!

Aí já era demais. Os mascarados agora tinham melindrado seus instintos de sujeito homem. Aquela mulher precisava ser salva, mesmo que isso lhe custasse a vida. De volta à sala de manutenção, Santoro passa os olhos no mapa do shopping, de forma a localizar algumas lojas estratégicas. O tempo agora era mais do que nunca um inimigo. Seguindo pelos corredores de serviço, ele passa em uma loja de esportes, onde se arma com um capacete de ciclista, uma corda de escalada e um taco de baseball. Num magazine de utensílios domésticos, cata uma pistola de pregos, barbante, várias garrafas de ácido muriático e uma enorme tampa de panela. Finalmente, numa loja de brinquedos, Santoro pega um drone.

Equipado para a guerra, ele segue pelas galerias internas do shopping até o local mais próximo do vão superior onde viu pela primeira vez os mascarados. Como um ninja, Santoro segue por um beco lateral até conseguir espiar a movimentação de baixo. O ritual seguia a pleno vapor, e a moça já estava sendo amarrada para o sacrifício.

– Ananá Kundê! Batanka fritá você!

Santoro amarra a corda no parapeito, e arruma as garrafas de ácido no mesmo lugar, conectadas ao dronecom o barbante. Quando a jovem já esperneava ao ser conduzida para o cadafalso, ele salta com bravura para resgatá-la, aproveitando o pêndulo, enquanto grita a plenos pulmões:

– Batanka vai fritar a puta que os pariu!

(Continua: VI. Noite Foda)

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: