O Cinema como Vitrine

O Cinema como Vitrine

Em 1949, o psicólogo suíço Hugo Mauerhofer escreveu o artigo “A Psicologia da Experiência Cinematográfica”, posteriormente traduzido e incluído no livro “A Experiência do Cinema”, de Ismail Xavier, lançado em 1983. No texto, Mauerhofer utiliza a expressão “situação cinema” para designar “o isolamento mais completo possível do mundo exterior e de suas fontes de perturbação visual e auditiva”. Tal situação criaria um regime especial de consciência, proporcionado pela sala escura, de clima agradável e absolutamente silenciosa que permitiria a imersão completa do espectador na narrativa do filme.

Segundo o autor, tal ato psicológico teria uma função psicoterapêutica, tornando suportável a vida de milhões de pessoas, que catariam as migalhas dos filmes assistidos e as levariam para a cama. Maueuhofer chega a afirmar que se trataria de uma necessidade moderna, aliviando o fardo da vida cotidiana e servindo de alimento à nossa imaginação empobrecida. Seria então a “situação cinema”, caracterizada pelos atributos de tédio iminente (rompido brutalmente pela sucessão de cenas), imaginação exacerbada (provocada pela ausência de outros estímulos visuais e sonoros) e passividade voluntária (condição que gera uma afinidade com o estado de sono) um amplo reservatório contra o tédio e uma rede indestrutível para os sonhos. Não por acaso, o psicólogo suíço cita a frase do escritor revolucionário russo Ilya Ehrenburg, “o cinema é uma fábrica de sonhos”, utilizada até hoje por estúdios e redes de TV, com a ressalva de que, no sono, somos nós que produzimos nossos próprios sonhos, enquanto no cinema, e na produção audiovisual de forma geral, eles já nos chegam prontos.

Não é difícil perceber, assim, que o mercado de cinema, durante décadas, tomou a “situação cinema” como paradigma para o estabelecimento de um modelo de negócios vencedor. Lançadas prioritariamente em vitrines de luxo caracterizadas pelo conforto e conveniência, efeito potencializado com a associação com shopping centers e o modelo megaplex que dominou a indústria, as grandes produções cinematográficas ocuparam durante muito tempo um lugar especial na cultura de massas. Apropriando-se da literatura, do jornalismo, dos esportes, dos quadrinhos, dos jogos eletrônicos, da moda, da TV e de toda fonte simbólica que pudesse ser transfigurada em um produto para a sala escura, o cinema, tecnologia nascida no século XIX, contornou bravamente a virada do século XX para o século XXI, mas agora enfrenta o que talvez seja o seu desafio mais temível, com evidentes efeitos disruptivos.

Se, em primeiro lugar, a evolução da tecnologia de equipamentos domésticos já proporciona, para fatias cada vez maiores do público, uma experiência similar àquela ofertada pelas salas de cinema, com base em telas gigantes instaladas em recintos privativos e apropriados, dotados de sistemas de som adequados aos efeitos de imersão característicos da “situação cinema”, também não é difícil perceber que, no lado do conteúdo, a marcha inexorável das ferramentas de streaming, turbinadas pelas tecnologias de conexão digital cada vez mais rápidas e acessíveis, representam um cenário potencialmente destrutivo para alguns dos modelos de negócios mais arraigados na indústria audiovisual.

Para além da conjugação dos fatores apresentados anteriormente, não é preciso destacar que o cenário relacionado à pandemia de COVID-19 no ano de 2020, com reflexos ainda não completamente estimados nos anos vindouros, é um elemento avassalador, seja no tocante à precipitação das tendências anteriores, seja na inclusão de um novo e potencial elemento à “situação cinema”, no sentido de que a completa imersão em um universo narrativo deva ser necessariamente garantida pela eliminação de riscos externos à saúde ou à segurança dos espectadores. Para o mercado de salas de cinema, especificamente, trata-se de um contexto absolutamente negativo e desafiador. Seguindo movimentos de mercado que já podem ser mapeados atualmente, o filme de longa-metragem, produto audiovisual de primeira classe, já busca outras vitrines, notadamente as plataformas de streaming com planos de marketing cada vez mais agressivos e inovadores.

O cinema, como forma de arte e entretenimento, não vai morrer. Ao contrário, o conteúdo audiovisual demonstra força e resiliência notáveis em um mundo onde as telas são cada vez mais onipresentes. Mas o modelo de negócio que deu as cartas nas últimas décadas certamente passará por transformações substantivas, que impactarão inclusive o formato dos conteúdos, um fenômeno que já podia ser percebido há alguns anos. É provável que haja ainda mais tensão e, ao mesmo tempo, sinergia, entre os herdeiros de Edson, que inaugurou o consumo individual de audiovisual com o seu cinetoscópio, e os seguidores dos irmãos Lumiére, cujo cinematógrafo transformou o cinema em uma forma de espectação coletiva.

No mesmo sentido, é provável que os mecanismos de financiamento da atividade continuem combinando os recursos advindos de cada espectador (público pagante ou assinante), bem como aqueles oriundos de patrocinadores interessados em veicular determinadas marcas, produtos ou ideais. A convergência com a indústria de jogos eletrônicos é outra fronteira que promete ser brevemente alargada, tanto por conta das tecnologias de produção compartilhadas, quanto pelos universos narrativos de caráter transmídia, tomando conta de telinhas e telonas, com suas estratégias de interatividade e responsividade.

Voltando a Mauerhofer, no entanto, as transformações que se avolumam no horizonte prometem realizar mudanças significativas no elo mais importante da cadeia audiovisual: o consumidor. Bombardeado por opções de conteúdo, cada vez mais equipado para acessá-lo em qualquer lugar, a qualquer tempo, o espectador deve vender caro aquela “passividade” que configura um dos atributos da “situação cinema”. Trata-se, portanto, do surgimento de uma falsa passividade, que deve ser entendida mais como estratégia de canalizar a imaginação e alimentar as fantasias e os sonhos que acalentam a vida de tantas pessoas, do que mera receptação de conteúdos estereotipados e fabricados em massa. O novo consumidor de audiovisual já não se contenta com as antigas vitrines, nem com os produtos que costumavam enfeitá-las.

Se era certo de que o estado mental do espectador ao sair do cinema mantinha-se alterado durante algum tempo, cada um deles possuído, ainda que momentaneamente, pelo brilhante reflexo da vida – ou pela imagem desse reflexo – é mais certo ainda que tal experiência será renovada, através de novos conteúdos e novas tecnologias, pelos produtos certos em vitrines que hoje se encontram em um intenso processo de experimentação.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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