Sal em Calda de Passarinho

Sal em Calda de Passarinho
Imagem: Sabina Hahn for WBUR

O repórter deixou a redação apressado, às seis da tarde. O alarme do celular indicava que já estava na hora de sair para a primeira entrevista. Ele pegou o elevador, deixou o edifício, atravessou uma rua e ouviu o som de freada, mas não teve tempo de reagir. Acabou sendo atropelado por uma moto, que costurava os ônibus parados no engarrafamento. A pancada foi ouvida pelos transeuntes, que reagiram espantados, mais ainda quando ele se levantou quase intacto. Tinha sido arremessado a uns três metros, mas além da marca de pneu na calça jeans e uma ligeira dor na perna esquerda, estava inteiro.

– Filho da puta!

Antes de fugir dali, o motoboy ainda teve tempo de xingá-lo. Pensou em revidar, mas já estava satisfeito de ter escapado com um prejuízo mínimo. O entrevistado tinha fama de ser um sujeito difícil, então seria melhor não chegar atrasado. Somente quando pegou o celular caído no chão, com a tela rachada, é que percebeu que tinha acionado a câmera de vídeo por engano, assim que desligou o alarme na redação. Sorriu quando se ligou que tinha filmado o próprio atropelamento.

Foi assistindo no metrô à sequência. O celular estava no bolso da frente da calça, com a lente apontando justamente para a rua. As imagens eram tremidas, captando o vai-e-vem da caminhada, até o momento fatídico do acidente. Um rodopio no ar terminava com seu rosto catando o telefone no chão. Surreal. Certamente iria mostrar aquilo pra todo mundo.

Saltou na estação seguinte, o prédio era próximo. Quando tocou o interfone, o próprio Jopi Menezes o atendeu rapidamente, antes de liberar o portão eletrônico. Não havia porteiro naquele edifício. Mas havia um elevador.

Quando chegou ao apartamento, a porta já estava aberta. Jopi estava sentado displicentemente numa poltrona, de cueca, assistindo a um vídeo na TV. Controle remoto numa mão, cigarro na outra, o que combinava com a atmosfera noir da decoração. O repórter logo percebeu que era uma cena da obra prima do cineasta: “Sal em Calda de Passarinho”. Calda com “L”, para fazer um trocadilho esperto.

– Tá vendo esse prólogo? Sintetiza bem o filme, porra. Toda a nossa proposta de desconstruir a sociedade burguesa… Uma sociedade calcada em esperanças eternas, porra. O cara lá, esperando, e espera… E espera… E só espera…

Nem precisou quebrar o gelo pra começar a entrevista. Jopi sabia o que dizer. Mas o repórter se assustou quando o diretor mudou de tom repentinamente.

– TÁ ESPERANDO O QUÊ, PORRA?! – Gritou Jopi, se projetando para a frente na poltrona. E continuou agitado, gesticulando:

– Não vai cair porra nenhuma do céu não, porra! É mais ou menos o seguinte: o cara tá na privada, pensando: “Porra, o que eu tô fazendo aqui?”. Quer saber a resposta? Porra, não tem resposta! Não tem, porra! Nunca vai ter! É só busca, esperança vã. Entende, porra?

Entender, não entendia. Mas Jopi falava com tanta convicção que certamente ia dar matéria. O cineasta fez uma pausa, se levantou da poltrona, e o repórter notou que ele foi até a cozinha pegar algo para beber. Voltou com o cigarro aceso, dando goles num copo. Parecia uísque.

– É a mesma coisa que dizer: “Benhê… Põe o café na mesa?” – Jopi repetiu a frase em tom de deboche, imitando voz de mulher, antes de voltar a gritar.

– PORRA! Não tem café porra nenhuma! Entende? Não tem café. Café? Põe café por quê?

Atento a cada palavra, o repórter pegou o outro copo que Jopi colocou na mesa de centro e deu um gole. Era uísque.

– Não tem que por café nenhum. Aliás, não tem que por porra nenhuma. É inútil, entende? Naquela época, a Melissinha me perguntava: “Porra, Jopi… Eu não entendi a parte do café”. Eu tive que sacudir ela, entende? Tive que fazer ela ver que não tinha café nenhum. Era só metáfora, porra. Só metáfora. Aliás, tudo é metáfora. Igual na cena do amor. Deixa eu te mostrar a cena do amor.

Jopi apertou um botão no controle remoto, e adiantou o filme até a cena do amor. O repórter já tinha assistido muitas vezes à cena do amor, mas não iria interromper a explanação.

Na tela da TV, duas pessoas num quarto escuro, em cantos opostos. A luz da cena iluminava apenas a metade de seus rostos, que aparecem de forma intercalada. O ator era o saudoso Caio Vilhena, que declama sua fala com emoção genuína:

“E o que é o amor, afinal? Para que serve? Serão ratos a roer os lampiões de um moinho? Ou serão os rubores que minha face ainda há de corar ante aos juízos teus? Diga-me, Luíza… O que é o amor?”

Após um minuto de silêncio, a personagem de Melissa Adams finalmente começava a responder:

“Eu…”

Mas Caio interrompe a fala, definitivo:

“Não é mais preciso, Luíza. Você já me respondeu”.

Na TV, um corte brusco faz a cena saltar do quarto para uma imagem na rua, durante o dia, onde os personagens de Caio e Melissa tentam conversar numa calçada à frente de uma loja. Mas suas vozes são totalmente abafadas pelo som da britadeira de um operário que trabalha ali ao lado. Quando o repórter voltou o olhar para Jopi, percebeu uma lágrima escorrendo no rosto do diretor. Aquela seria uma noite longa, se ele ainda não tivesse que se encontrar com a própria Melissa num bistrô ali perto.

Muitas cenas e doses de uísque depois, o repórter deixou o apartamento de Jopi Menezes sentindo o mundo balançando. Era muita informação pra matéria. E muito sentimento também. Nem chegaram a se despedir. Quando o cineasta se levantou para ir à cozinha, ou ao banheiro, ele aproveitou a deixa para sair à francesa.

No restaurante, a ex-atriz de meia idade já esperava por ele, bebericando um Dry Martini. Na mesma hora percebeu que ela ainda era uma mulher atraente. Fez força para se sentar à mesa sem parecer tonto, e engrenaram um papo animado que narrou toda a trajetória improvável da jovem diva do cinema que largou a tela grande há tempos, e após muitos casamentos fracassados, tinha virado Chefe de Gabinete de um figurão da república, numa repartição meia boca. O assunto logo chegaria a Jopi.

– O Jopi… Ele entra na gente, sabe? O cara conseguia tirar de todo mundo exatamente o que tava precisando. – Suspirou Melissa, em tom nostálgico, antes de ilustrar o raciocínio:

– Quando ele dizia “É pau!”, a gente podia até não ver, mas era pau. De repente ele chegava e dizia “É pedra!”, e a gente: “Então é pedra”. Aí ele enlouquecia… “NÃO É PEDRA, PORRA! É PAU!”

Contou essa história com olhos brilhando:

– O Jopi é demais.

Não demorou muito para ser a vez do repórter entrar em Melissa Adams, num hotel fuleiro que ficava ali perto.

Acordou no meio da madrugada, a cabeça explodindo. Pegou o celular. A câmera também tinha filmado tudo o que acontecera após o acidente, desde que saiu do metrô. Ainda embriagado, não conseguia lembrar se dessa vez era outro engano, ou se tinha feito de propósito.

Aquela noite dava um filme. Um filme de Jopi Menezes.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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