VI. Fogo no Parquinho

VI. Fogo no Parquinho

[Antes: V. Femme Fatale]

Procurando uma farmácia, Danton passa novamente em frente à joalheria onde está o homem de turbante, e resolve dar uma palavrinha com o sujeito, só de implicância.

– Tu vai ficar aí a noite inteira, né?

– Não compreendo você.

– Pois é. Sabe o que tem ali na loja do lado?

– Não compreendo você.

– Tem uma menina linda e gostosa querendo dar pra mim, cara!

– Não compreendo você.

– Compreende sim! Compreende sim, cara! Foder! Trepar! Meter! – Danton começa a fazer gestos obscenos: – Claro que tu compreende! E tu vai ficar aí, paradão!

O homem apenas observa, estranhando o comportamento de Danton, que sai comemorando:

– Valeu! Tchau! Bye Bye! Au revoir! Hasta la vista, baby!

Seguindo pelos corredores, a expressão de felicidade de Danton vai se esvaindo com o passar do tempo. Ele começa a refletir melhor no que fazer:

“Peraí, cara… O que tá acontecendo? Numa hora você toma um fora, leva porrada e tem de aturar os caras mais escrotos e sádicos que já viu. E agora tem uma doida de espartilho querendo te dar de qualquer maneira. Isso não pode ser real. Eu vou botar a cabeça no lugar, pegar minha carteira com aquele escroto e ir pra casa, que é o que eu tinha que ter feito há muito tempo. É isso que eu tenho que fazer. Nada de maluquice”. – Reflete Danton, parando no meio do corredor do shopping.

Quando ele olha para o lado, no entanto, avista uma farmácia. A vitrine de uma farmácia. A prateleira de uma vitrine da farmácia. A prateleira das camisinhas. Ele pode jurar que uma das embalagens tem a figura de Gabrielle. Estaria alucinando? Lutando contra si mesmo, ele hesita por um momento. Resolve ir embora, mas para. Volta para a frente da farmácia. Resolve ir embora de novo. Para. Danton volta decidido a furtar alguns preservativos. Pensando com a cabeça de baixo, Danton quebra a vitrine com uma lata de lixo e mete a mão em vários pacotes de camisinhas. Voilá! Mas sua expressão de glória logo some da face quando um alarme começa a tocar na loja, e ele ouve um grito vindo do fundo do corredor:

– Ei, você! Parado aí! – Exclama Jorginho, já correndo em sua direção.

Danton sai de fuga para o outro lado do corredor, sendo perseguido pela segurança fardado. Ele sobe uma escada e vê a loja de Dani. Para tentar despistá-lo, lembra da chave que jogou na lixeira. Com muita pressa, Danton joga o lixo no chão. Ele pega a chave, abre a porta e entra na loja no exato momento em que Jorginho chega ao local.

Danton se esconde atrás de um balcão, enquanto Jorginho o procura do lado de fora. Ele respira aliviado. Olhando de esgueira a movimentação do segurança, acha uma boa ideia ficar escondido ali durante um tempo. Para se distrair, Danton mexe nas coisas atrás do balcão. Nota uma caixa cheia de fotos, e pega algumas para olhar. São fotos de mulheres seminuas entre homens, fazendo festa. Danton se interessa. Ele vê uma, duas, três fotos. Mas a quarta, a quinta e a sexta são fotos de sua namorada, na maior putaria. Aquele coroa da pizzaria estava certo. Eram todas umas vagabundas. Irritado, ele larga as fotos de lado e percebe que Jorginho ainda ronda o local, iluminando as vitrines com uma lanterna. Tinha que haver uma saída no interior da loja. Sorrateiramente, Danton segue para o estoque da loja. Em meio às caixas, ele vê uma abertura no teto com uma escada de bombeiro. Provavelmente, aquela era uma saída de emergência. Ele sobe a escada, destranca o alçapão e alcança o terraço do shopping.

Quando chega ao local, Danton encontra Nil e Pepe sentados numa mureta fumando um cigarro, de papo pro ar, na maior vadiagem. Quando os faxineiros o veem apenas se entreolham, mas não dizem nada. Tenso, Danton se aproxima deles e começa a falar descontroladamente:

– Ei amigos! Eu sei que vocês não me conhecem, mas eu tô precisando muita de ajuda! É sério mesmo! Tem um pessoal colega de vocês que tá pensando que eu sou ladrão, que eu tô de sacanagem aqui no shopping mas não é nada disso… Eu só tô querendo ir pra casa! Sei lá, de repente vocês conhecem alguma saída daqui de cima lá pro estacionamento… Eu acho que já tô ficando maluco!

– Fica calmo, cara, relaxa… A gente vai te ajudar. – Afirma Nil, com calma.

– Dá um tapa aqui com a gente, brother. – Diz Pepe, passando o cigarro para Danton.

– Uns caras me bateram no banheiro. Aqui, tô todo machucado. – Diz Danton, mostrando o lábio ferido: – E ainda por cima me trancaram lá dentro. Hoje tá um inferno!

Danton dá um trago no cigarro e percebe, estarrecido, se tratar de um baseado. Ele mal consegue terminar sua última frase quando é interrompido por uma voz retumbante:

– AÍ MOLEQUE! DESSA VEZ TU TÁ FODIDO! – Grita o chefe de segurança, que tinha descoberto seu esconderijo no terraço.

Quando Danton olha para os lados, não há mais nenhum vestígio de Nil e Pepe. Percebendo a gravidade da situação, ele nem tenta explicar. Sai correndo até a mesma escada de serviço da loja de Dâni, tendo o chefe em seu encalço. Danton passa pela loja apressado, chegando ao corredor. Para se livrar de seu perseguidor, ele entra numa porta lateral, que dá numa lixeira. Somente nesse momento, ele nota que ainda está com o cigarro de maconha na mão, e o joga fora, irritado. No recinto, há uma rampa para descer o lixo para o subsolo. Sem pestanejar, Danton pula pela passagem. O cigarro começa a incendiar um saco de lixo.

Danton cai numa grande caixa de coleta, em meio ao lixo geral. Com dificuldades, ele sai do coletor e tira o lixo impregnado da roupa. Olhando pelo ambiente escuro, tenta encontrar alguma saída. De uma porta no fundo do recinto, Danton começa a ouvir um estranho som de batuques. Ele caminha até lá com cuidado, morto de curiosidade. Quando abre a porta, não acredita no que vê. Aquilo era demais. Melhor deixar pra lá. Danton procura outra saída, enquanto reflete mais uma vez sobre aquela madrugada alucinante:

“É mentira. Eu tô tendo um pesadelo, só pode ser”.

Ele chega até uma escadaria que termina em uma pesada porta de ferro. Do outro lado, Danton escuta alguns barulhos, e então faz força para abri-la. A porta revela a área de brinquedos do shopping. Lá, Nil e Pepe estão se divertindo em um carrossel, logo à sua frente. Muito irritado, resolve ir até lá para tirar satisfação com os caras. Pega uma barra de ferro do chão e aproxima-se ameaçadoramente, sem que os faxineiros percebam. Quando já está bem próximo do carrossel, o supervisor de segurança chega primeiro. Danton entra em choque. Assustado, larga o ferro no chão, atraindo a atenção de todos. Nil desce do carrossel e pede calma à Danton:

– Já te falei pra relaxar, cara. Tu tá muito tenso.

Pepe também desce do carrossel e vai em direção ao supervisor de segurança. Danton percebe que o faxineiro entregou algo para ele, e recebeu outra coisa em troca. Embasbacado, fica sem entender nada. Aquilo era surreal demais.

– O supervisor aqui é gente boa, não é Nil? – Diz Pepe, com um sorriso maroto no rosto.

– Pode crer, Pepe. Gente finíssima. – Concorda Nil, dando um tapinha nas costas do homem de terno.

O supervisor vai embora sem dizer uma palavra. Danton está num estado semicatatônico, abobalhado, tremendo. Nil e Pepe chegam perto dele e o levam para um fliperama.

– Vamos nos divertir, cara. Tu é muito pilhado. – Convida Nil.

– É isso aí. Aqui tem uns joguinhos maneiros pra desestressar. – Completa Pepe.

Eles então passam um tempo se divertindo nos brinquedos. De início lesado, Danton começa a recuperar os sentidos. Depois de uma noite escrota, fazia bem relaxar um pouco. Mas sua alegria termina repentinamente quando o chefe de segurança aparece do nada, ao seu lado em um fliperama. Danton sai correndo dali e percebe que Jorginho também está no local, tentando cercá-lo. Para fugir deles, ele se joga em um escorregador, mas o chefe resolve segui-lo, junto com o subordinado. Alheios a tudo aquilo, Nil e Pepe continuam se divertindo em um trenzinho.

Danton sai da área de diversões e volta para um corredor do shopping, seguido por Jorginho e o chefe. Mais uma vez, ele passa pela joalheria. O homem de turbante está lá, impávido. Todos passam na frente do sujeito, que não move um músculo. Danton chega até uma praça de alimentação e olha para os lados, procurando uma saída.

Jorginho e o chefe chegam ao local e procuram por Danton, que se escondeu deitado no fundo de um chafariz no meio da praça, e respira através de um canudinho. Quando os seguranças deixam o local, Danton se levanta, ainda com o canudinho na boca. A água escorre por sua roupa. Ele dá uma olhada ao redor e, percebendo o ridículo de ainda respirar pelo canudinho, arremessa-o longe.

Enquanto isso, na loja de lingeries, Gabrielle ainda está deitada no chão, seminua, esperando por Danton.

Completamente molhado e absolutamente irritado, ele anda apressado por um dos corredores, sem saber o que fazer. O som de seu tênis encharcado rangendo no piso faz com que ele se sinta o cara mais otário do mundo. Mais uma vez, Danton passa pelo corredor da joalheria. Para sua grande surpresa, o homem de turbante não está mais ali.

Danton fica intrigado com a ausência do sujeito, e se aproxima da joalheria para ver o que aconteceu. Aquele cara devia ter uma missão importante. Quando chega mais perto, ele vê alguém, completamente vestido de preto, se afastando da vitrine lateral e saindo por uma porta de serviço no fundo do corredor, carregando uma sacola.

Danton se aproxima da vitrine, sem entender o que está acontecendo. Há um buraco redondo no vidro da loja. De dentro da joalheria, um sujeito encapuzado lhe passa uma sacola, sem olhar, e sussurra:

– Consegui pegar a belezinha. Vambora!

Confuso com a situação, Danton pega o saco de pano. A figura encapuzada olha para ele e percebe o engano.

Puta que o pariu. Tinha se metido em mais uma encrenca. Será que ele teria de enfrentar todas as merdas desse mundo naquela madrugada?

[Continua: VII. O Coração do Oceano]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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