VI. Gran Finale

VI. Gran Finale

(Antes: V. A Indicação)

Quando Zé Augusto começou a recobrar os sentidos, percebeu que já não tinha muita gente ao redor dele, além de uma secretária que o abanava com uma pasta de papel e lhe oferecia um copo de água, piedosa. Após o choque inicial, o resto dos executivos achou de bom tom minimizar aquela cena constrangedora e continuar a reunião. O deputado já tinha lambido bastante as bolas do afilhado e passado a palavra para o novo diretor.

Cheio de si, José Múcio começava a arrotar milhões de credenciais obtidas em anos de participação em comitês, comissões e grupos de trabalho absolutamente irrelevantes. Mas todos ali estavam encantados. Já recuperado, Zé Augusto tentava digerir cada uma daquelas palavras, mas alguma coisa estranha parecia crescer dentro dele, como um alienígena prestes a irromper de suas entranhas. Era um especialista em engolir sapos, mas aquele era grande demais. Venenoso demais.

Por alguns instantes, Zé Augusto ficou observando José Múcio falar, mas sem ouvir nada do que ele dizia. Somente aquela boca cheia de dentes restaurados com porcelana branquíssima se movendo, e sorrindo. Como ria aquele desgraçado. Zé percebeu que Múcio era uma versão mais jovem dele mesmo, uma versão ainda mais carreirista, e mais bem sucedida. Era um burocrata mauricinho vindo da capital, com um currículo gigantesco.

Completamente tomado pela inveja e pelo rancor, Zé nem sentiu quando o monstro tomou conta de sua consciência. De forma sorrateira, passou a mão num abridor de envelopes que estava dando bobeira por ali, se levantou da cadeira e deu a volta na mesa até parar ao lado do novo diretor. Estranhando aquela aproximação mais ou menos incômoda, Múcio parou de falar, mas abriu um sorriso esperando outra felicitação, um abraço ou tapinha nas costas. Os demais participantes também não estavam entendendo aquele gesto de Zé Augusto, mas ninguém teve tempo de reagir.

Com violência, Zé crava a pequena estaca de metal na lateral do pescoço de Múcio, que ainda tenta desesperadamente conter o sangue que começava a jorrar da garganta, sem sucesso. Os gritos de horror tomam a sala, enquanto Zé volta sua fúria para o presidente, que já se levantava da cadeira para tentar fugir dali. Um dos assessores tenta interceder entrando na frente de Zé, mas também leva uma estocada firme na palma da mão. Apavorado, o sujeito sai correndo gritando de dor enquanto olha fixamente para aquele buraco vermelho sangrante.

Todos conseguem sair da sala, com exceção do Grande Líder, encurralado num canto por Zé Augusto, e do pobre José Múcio, que a essa altura convulsionava no chão até morrer.

Quando os seguranças do Instituto chegaram à sala, Zé já estava mantendo o presidente como refém, abraçando-o por trás enquanto pressionava com força a ponta do abridor na garganta de sua nova vítima. O pânico já tinha tomado conta dos corredores, e não demorou muito até que a polícia cercasse o local. Mas Zé Augusto estava transtornado. Tinha perdido o controle, aloprado.

Chorando como criança, o presidente implora às forças de segurança para que não tentem fazer nada que arrisque sua vida. Um negociador da polícia é enviado para o local, e tenta usar todos os subterfúgios possíveis para que Zé liberte o refém. Mas Zé Augusto parecia em transe. Nada funcionava. Nada. Com exceção de uma única coisa. Ele queria que o presidente assinasse uma portaria com a sua nomeação para a diretoria.

A exigência parecia absurda, e era, mas ninguém questionou. Imediatamente, pediram a um assessor que redigisse a tal portaria. Uma das secretárias imprimiu o documento e entregou para o negociador, que por sua vez colocou o papel em cima da mesa, bem à frente de Zé.

Arrastando seu refém, e apertando ainda mais a ponta afiada na garganta do presidente, Zé fica muito irritado ao perceber que tinham errado o seu número de matrícula. O Grande Líder, então, fulmina os subalternos que assistiam à cena com um olhar de reprovação ainda mais penetrante do que o costumeiro, o que parecia impossível, mas não era. Suando frio, o negociador recolhe o papel e pede para que providenciem rapidamente o reparo.

Após conferir o novo documento com cuidado, Zé Augusto dá o comando para que o presidente assine o papel. Ele então pede uma caneta, e Zé afrouxa por um segundo a pressão na garganta quando tira o objeto da lapela para emprestá-lo ao chefe, como fazia sempre que requisitado. É a deixa para que dois policiais que estavam no terraço do edifício estraçalhem o vidro da sala por fora, num salto espetacular, usando cordas de rapel.

A ação cinematográfica de resgate assusta Zé, que cai para trás, ainda abraçado ao presidente. Os agentes, por sua vez, também tentam puxar o refém pelas pernas, e quando Zé Augusto faz ainda mais força para mantê-lo em seu poder, acaba se desequilibrando na direção da janela quebrada.

Com quase todo o corpo para fora da janela, Zé se desespera, agarrando-se com todas as forças na manga do paletó do chefe. Mas o Grande Líder tinha reservado para aquele momento o seu mais profundo olhar de desprezo. Com a mesma caneta que iria assinar a nomeação, e aquela força que lhe despertava os instintos mais primitivos quando exonerava alguém, o presidente fura a mão de Zé Augusto sem piedade.

Zé cai do último andar para uma morte horrível na avenida em frente ao Instituto, espatifando-se no asfalto e atrapalhando o trânsito. Mas finalmente tinha se libertado da sua condição miserável. Ou quase isso.

Zé acorda deitado no chão da sala, com a cabeça no colo da secretária que o abanava. Tudo aquilo tinha sido apenas um devaneio. Um sonho, ou pesadelo. A reunião já tinha acabado. O presidente ainda estava ali, vendo algo no laptop do Paulo Cesar, da TI. Quando percebe que Zé finalmente acordou, o Líder Supremo vaticina, decretando com frieza e alguma irritação o motivo da síncope:

– Foi emoção.

Antes de sair, o presidente chama Zé Augusto para ver o vídeo que PC tinha lhe mostrado: as câmeras de segurança tinham flagrado o momento em que Pedrão acionou o alarme de incêndio.

– Eu quero esse cara demitido amanhã de manhã.

Já era tarde da noite, e o Instituto estava vazio. Desolado, Zé volta sozinho para a sala deserta da coordenadoria de gestão estratégica e escreve um e-mail para o RH, solicitando o desligamento do colaborador terceirizado Pedro de Castro Arruda. Era mesmo um merda, mas acima de tudo era apenas um covarde.

Absorvido neste pensamento, mas definitivamente resignado, Zé olha para algum ponto fixo perdido no infinito, cercado por uma dúzia de porta-retratos de cachorro, caprichosamente arrumados por Neuza em seu pequeno cubículo em forma de aquário.

FIM

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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