2. O Esperança ataca nas Canárias

2. O Esperança ataca nas Canárias

Era um lindo fim de tarde no Mar das Canárias no ano de 1500 da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas toda aquela beleza contrastava com a desolação no convés do Esperança, onde uma pequena tripulação de piratas sujos e maltrapilhos definhavam há dias.

Esparramado numa cadeira na cabine do castelo de popa, o capitão roncava profundamente. Era um sujeito feio e sujo, com barba farta e bigode desgrenhado. Ao seu redor reinava uma bagunça desqualificante, com mapas e apetrechos de navegação espalhados pela cabine, rolando de um lado para o outro com o balanço do mar.

Enquanto alguns tentavam manter a sanidade pescando, ou rezando, outros jogavam cartas, ou dormiam esperando a morte chegar. O pirata alto, magro e faminto que tinha perseguido uma barata agora se encontrava em estado semi catatônico, estatelado no convés daquela pequena caravela redonda. Com olhos entreabertos num estado intermediário entre a vigília, o sono e o coma alcóolico, ele agora sorria levemente, expondo os dentes apodrecidos e a pele vincada de sol.

Em seu devaneio, ele agora estava na cama de um bordel em Calicute, onde diversas mulheres de cores e sabores diferentes o acompanhavam, algumas em seu colo, outras acariciavam seus cabelos oleosos, e ainda haviam as que lhe ofereciam enormes pedaços de pernil e grosseiras canecas de cerveja que destoavam da cena.

– Acorda, Asno! Acorda!

Asno acordou com Fininho lhe dando tapas na cara. Acordou, mas não despertou. Por um momento, lamentou ter sido trazido de volta àquela realidade, mas a fome era tanta que logo viu à sua frente não seu velho companheiro de guerra, mas um pequeno leitão humanoide, provavelmente delicioso. Tomado por instintos primitivos, agarrou o braço que lhe estapeava com as mãos e desferiu uma mordida que doeu até em quem estava assistindo.

– Aaaaaaahhhhrgh! Asno maldito filho de uma puta! – Gritou Fininho, com os olhos arregalados, enquanto já socava a cabeça de seu delirante predador.

Mas os dois foram interrompidos por um esguicho podre de vômito vindo da gávea, que os acertou em cheio, encerrando a briga e o delírio de Asno, que rosnou:

– Vai tomar no seu cu, Russo desgraçado!

Após limpar o resto do vômito na boca com as costas das mãos, enquanto balançava por conta própria no cesto da gávea, já que o mar estava bem calmo, Russo arregalou os olhos quando percebeu algo no horizonte:

– Alô vagabundagem! Olhõõões a bombordo! Olhõooes!

Todos logo atentaram para uma nau com a bandeira Senyera do Reino de Aragão navegando solitária e indefesa a poucas léguas. Na cabine, o Capitão Cabeças abriu os olhos, como que por instinto. Segundos depois, como que num passe de mágica, já estava no convés, cheio de energia, dando ordens ao piloto e para seu mestre artilheiro:

– Pra cima deles, Piri! China! Manda fogo na bunda desse galego! Não é pra relar o casco, pro ouro não descer ao fundo do oceano! Aponta aos mastros e ao cordame e limpa o convés dos paisanos!

Os homens imediatamente se animaram, despertando rapidamente do estado de torpor. O jovem que chamavam de Rato era um dos mais animados. Muito entrosada, a pequena tripulação iniciou uma rotina de trabalho sincronizada com amarras e velas, enquanto China e dois artilheiros de olhos puxados já preparavam um canhão no convés superior da caravela, bem ao lado do capitão.

– Atenta, Senhor Cabeças! Pelo través de bombordo, avisto pano largo! É nau pesada, de gávea alta. Pelo casco, vem de torna-viagem, pança cheia de especiarias! – Salivou Piri, que era o piloto do Esperança.

— Louvado seja o demo se for carraqueta da Carreira da Índia! Alija o disfarce, Piri! Russo! Arreia a bandeira de isca e iça o pano do osso de pica!

No cesto da gávea, o marujo deu mais um gole em seu odre de cerveja podre e manobrou para trocar o pano surrado de uma bandeira de Castela, que tinham confiscado de uma vítima há alguns anos, pelo símbolo sórdido do Capitão Cabeças: um pano preto com uma mão esquelética erguendo o dedo médio.

— Às adriças, cães do mar! Guina o leme à orça, que o vento favorece o barlavento! Não deixem a latina colher saco, ou perderemos a caça! – Gritou João, que era o contramestre, em direção ao negro Manabu, que era o timoneiro operando a cana do leme, e os demais marinheiros nas velas.

O Esperança então adernou com a força do vento, ganhando velocidade em direção ao alvo. Sob o comando de China, que gritava palavras ininteligíveis, os dois japas que operavam o canhão já começavam a carregá-lo, quando foram interrompidos pelo capitão:

– Munição especial, China!

China se assustou com o comando, mas repetiu a ordem para seus homens, sério, naquele idioma que era incompreensível aos demais. Os japas se entreolharam, mas não questionaram. China então abriu com todo o carinho uma caixa de madeira com palhas, revelando sua munição explosiva, de última geração. Com todo o cuidado, os japas carregaram o canhão e aguardaram as clássicas palavras do capitão:

– Fode eles!

Os japas então acenderam o pavio e se protegeram. O canhão do Esperança cuspiu o projétil numa trajetória precisa, atingindo a nau castelhana em cheio, que acabou explodindo em mil pedaços. Contrariado, o capitão esbravejou:

– Chinês desgraçado de pouca piça! Exageraste de novo na carga!

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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