4. Mas que caralhos é um oráculo?

4. Mas que caralhos é um oráculo?

Os piratas se entreolharam, espantados. Não era a primeira vez que tinham ouvido falar daquele absurdo. Na verdade. Piri vivia falando aquele absurdo, e todos sempre riam dele. Na boca do fidalgo, já não parecia tão engraçado.

– Rumo a oeste? Direto ao abismo no cu do Mar Oceano?

– Senhor, não há abismos ou despenhadeiros nesse mar. O Atlântico é liso em toda a sua extensão. Um dos súditos D’El Rei chegou a terras chãs e extensas, que presume-se serem as Molucas, a Terra das Especiarias…

– Cala a boca, mosquito ruminante! Nada disso é novidade! Qualquer bosta que flutua no mar sabe que para além do Bojador está a Terra da Pimenta.

Assumindo que tinha perdido tempo, o capitão ordena:

– Asno! Mate-o! 

– Mas, meu senhor! Os castelhanos não chegaram às Molucas contornando o Bojador… Eles seguiram o sol! Pelo oeste, atravessando o Mar Oceano! – Suplicou o fidalgo, juntando as mãos numa prece.

Asno já estava empunhando sua cimitarra, uma comprida e pesada espada moura, pronto para degolar o homem, quando Cabeças o interrompeu:

– Espera, Asno… Os castelhanos seguiram o sol e chegaram nas Molucas? Pateta! O oriente é na direção oposta! Me toma como algum espetufado idiota da tua laia?!

– Não, meu capitão! Está mais do que comprovado de que a Terra é uma esfera!

Silêncio. O cérebro do capitão tinha bugado. Naquele momento, Cabeças tentava fazer cálculos e projeções mentais complexas, até que arregalou os olhos como numa epifania, e começou a gargalhar. Toda a tripulação riu com ele. Bem, quase toda. Àquela altura, Piri já supirava e revirava os olhos.

– Asno! Mate-o! – Ordenou Cabeças, mudando subitamente de humor.

Asno já brandia a cimitarra quando uma voz feminina intercedeu pelo castelhano:

– Não, capitão! D. Federico está certo! O mundo é redondo como uma pérola! – Gritou a prisioneira, que era mesmo belíssima.

– Não se meta, mulher! Nós é que meteremos em você… Ou você morre no lugar dele! Se o mundo fosse redondo, ele rolaria sem parar, e todos estaríamos vomitando as tripas pela vertigem!

Os piratas concordaram, acenando com a cabeça. Menos Piri, que balançava a cabeça, desanimado. Asno, com a cimitarra em punho sobre a cabeça de D. Federico, olhou para o céu girando os olhos vesgos, já  sentindo a vertigem. E o fidalgo se esticava, como se pudesse se proteger do fio da espada que balançava sobre sua cabeça.

– Não, meu comandante! É uma esfera grande, muy grande! Os mastros dos navios somem ao ultrapassarem a linha do horizonte! Colombo comprovou isso! – Disse D. Federico, quase chorando.

– Ah! Colombo, não é? Cristóvão, aquele janota de um figa… Mate-o, Asno!

Rato, que até então só tinha olhos para a moça a bordo, aproximou-se de Cabeças:

– Capitão, pergunte a ele o que acharam nessas Índias! Ouro? Riquezas?

Cabeças olhou fixamente para Rato, meio contrafeito com a petulância do grumete, mas se interessou atentamente quando ouviu a palavra “ouro”.

– Hum… E então, señor? – Perguntou o Capitão.

– Então o quê?

– Então o quê? Então o quê? Não me faça perguntar novamente, senão eu mesmo vou te estripar, sua lombriga de peruca! Essas “Índias” que vocês descobriram têm ouro e pedras preciosas ou qualquer outra coisa que faça valer a pena levantarmos nossos traseiros purulentos da África e atravessarmos o Mar Oceano?

– Err.. Não, meu senhor. Não há riquezas. – Vacilou o fidalgo, temendo já ter falado demais.

– Não! Mentira! A terra é tão rica que nas praias se pisa em ouro e prata ao invés de areia! – Gritou a jovem prisioneira, em tom desafiador.

– Não há ouro algum. Nada que possa lhe interessar, capitão! – Disse D. Federico.

Cabeças coçou a barba, pensativo. E depois coçou a valer:

– Piolhos desgraçados! Mas então? Há ou não há esse ouro? O que estiver mentindo vai alimentar os tubarões!

– Há muitas riquezas, meu senhor! – Insistiu a mulher.

– Terra estéril e cheia de nativos ferozes, capitão. – Reforçou o fidalgo.

– Asno, mate os dois! Não! Só o homem! A moça vai nos divertir primeiro! – Decretou Cabeças.

Quando percebeu o desespero nos olhos de Ramona, Rato mais uma vez interferiu na conversa, sussurrando ao ouvido do capitão:

– Mas que objeto é esse que ele segura com tanto cuidado, meu capitão?

Cabeças se aproximou de D. Federico, questionando:

– Que objeto é esse que você segura como se fossem os peitos de uma puta do Porto de Calais?

– É um… um oráculo, capitão.

O capitão então olhou para Rato, e informou:

– É um oráculo.

– Pelos cabelos do meu rabo! Um oráculo! Um maldito oráculo! Um desgraçado de um oráculo! – Exclamou Rato, quicando de espanto, enquanto fingia compreender o que era um oráculo.

Os outros piratas ficam impressionados com todo aquele entusiasmo do grumete. Cabeças chegou a dar um passo para trás, apenas por precaução.

– Mas que raios é um oráculo?

Rato engoliu em seco. A pergunta do capitão era óbvia, e havia sido feita diretamente a ele, que não fazia a menor ideia do que responder.

Impaciente com a vacilação do grumete, Cabeças repetiu a pergunta pausadamente, sílaba por sílaba, com os dentes rangendo:

– O que é um o-rá-cu-lo? – Soletrou o capitão.

– Um oráculo? O senhor quer saber o que é um oráculo? – Serpenteou Rato, olhando para o objeto nas mãos de D. Federico.. – Bom… Como se pode ver, um oráculo é uma… Uma cabeça de madeira. É isso.

Ninguém se moveu um milímetro, nem deu um pio. Rato logo percebeu que todos esperavam a complementação da resposta. Especialmente o capitão, que a essa altura já o encarava como se quisesse lhe esfolar vivo.

– Um oráculo é uma cabeça de madeira que…

– Não necessariamente uma cabeça de madeira. Um oráculo pode ter qualquer forma, inclusive a forma humana e… – Interrompeu o fidalgo aragonês, desatando a falar, até levar um forte tapa estalado na cara que o lançou de quatro ao chão.

– Não me interrompa, prisioneiro! – Gritou o grumete, encobrindo com audácia o medo de ter sua ignorância desmascarada.

 – Como eu dizia… – Retomou Rato: – Esse oráculo em particular é uma cabeça de madeira. Aliás, como a grande maioria dos oráculos.

– Não exatamen… Aaargh… – Tentou reparar D.Federico, tendo imediatamente uma das mãos pisada pelo grumete.

O golpe teatral tinha funcionado. Os outros piratas agora pareciam admirar a autoridade do garoto, e aguardavam ansiosos pelo resto da aula.

– Mas o senhor meu capitão deve estar se perguntando para que serve um oráculo. – Apontou Rato.

– Não penso noutra coisa. – Respondeu Cabeças, serinho.

– É difícil encontrar palavras para as maravilhas de que um oráculo é capaz. – Continuou o grumete, enquanto fazia gestos nervosos com as mãos, como se quisesse expressar com elas as palavras que sua boca não conseguia dizer.

O capitão, por sua vez, escutava aquele bla bla bla com uma expressão cada vez mais séria, impaciente e feia.

– Um oráculo, ele…  ele faz… como diria… – Titubeou Rato, pressionado.

– Prediz o futuro. – Diz D. Federico, secamente.

– Certamente que prediz o futuro… – Minimizou o grumete, fingindo não dar importância à contribuição do fidalgo, enquanto simulava atingir um momento de esplêndida inspiração:

– Mas não é só isso. Eu não consigo achar as palavras certas… Um oráculo, ele… Ele fala de coisas que ainda não aconteceram. Coisas que vão acontecer mas que, por ainda estarem para acontecer, não aconteceram. Coisas que vão acontecer amanhã ou depois de amanhã ou depois de depois de amanhã. É isso o que um oráculo faz!

Os piratas ficaram estupefatos com a explicação de Rato.

– Mas isso é absurdo! Só os deuses sabem do amanhã! – Protestou o capitão.

– E o que é um oráculo senão a língua e a boca dos deuses? – Disse D. Federico, ainda de quatro.

– A língua, a boca, os dentes e a goela flamejante dos deuses! – Pontificou Rato.

– Onde tu aprendeu estas coisas, fedelho? – Perguntou Cabeças, entre desconfiado e maravilhado.

– O capitão esquece que eu tenho sangue bom? Que conheço as letras, que leio cada livro ou pergaminho que sobe a bordo do Esperança? Ao menos antes de serem usados como lenha.

– É verdade. Bom, agora que está esclarecido… Asno!

– Sim, meu capitão?

– Mate esse galego dos infernos!

D. Federico Castañeda ainda tentou protestar, mas antes que pudesse completar uma nova súplica sua cabeça já estava rolando pelo convés, separada do pescoço.

Ao ver aquela cena de violência extrema que era banal na rotina do Esperança, a jovem prisioneira deu um grito agudo e desmaiou. Sem que Rato pudesse protestar, Cabeças arrastou a donzela inconsciente pelos cabelos até sua cabine.

Enquanto o jovem grumete se resignava com a situação de sua nova musa, os demais marujos lançaram o corpo do fidalgo castelhano ao mar.

A cabeça de D. Federico ficou estacionada perto de um barril até a noite, quando Asno deu de cara com o resto mortal. Assustado, meteu um bico no crânio decapitado que o lançou ao mar, como se estivesse cobrando um tiro de meta.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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