V. O Trem da Madrugada

V. O Trem da Madrugada

Antes: IV. Moletom e chinelo

– O que aconteceu lá dentro? – Perguntou Mari para o namorado, após também deixar o clube com o resto das meninas.

– Coisa pouca… Esbarrei sem querer no cara e ele caiu na água. A galera dele ficou puta. – Respondeu Filho.

– “Sem querer” – Comentou Luciana, com sarcasmo.

Martin se anima quando vê que Fabiana e uma amiga também saíram do clube. O grupo se reúne num dos quiosques de palha que ficavam na beira da praia, comentando sobre a confusão. Zoila aparece no local, com uma garrafa de uísque:

– E aí, galera? Qual foi a boa?

– A boa tava no clube, se alguém não tivesse arrumado confusão. – Rebateu Pedro, se referindo a Filho.

– Cadê a Medéia? – Questionou Roserite.

– Chegaram uns amigos dela lá na casa… Gente estranha. – Disse Zoila.

Naquele momento, aproveitando que Martin já parecia bem enturmado, Kitz tenta uns avanços na amiga, Patrícia, mas não consegue muita abertura. Quando Pedro e o resto das meninas resolvem voltar para casa, Martin convida Fabiana para um passeio na praia. Ela aceita, e Patrícia também decide ir embora.

– Como é que a gente nunca se esbarrou por aqui antes? – Perguntou Martin, complementando: – Já é o terceiro ano seguido que meu pai aluga uma casa aqui pro réveillon.

– Meus avós têm uma casa no condomínio aqui do lado. Estou na casa da Patrícia. – Responde Fabiana, antes de questionar: – Mas já estive aqui antes, e nunca te vi…

– Não gosto muito do pessoal daqui.

– Deu pra perceber. – Completa Fabiana, esboçando um sorriso.

Os dois seguem jogando conversa fora caminhando pela orla da pequena praia particular do condomínio, e alcançam a costa de pedra do lado oposto ao clube.

– Vem aqui. Quero te mostrar uma coisa. – Diz ela, puxando Martin pela mão através de uma trilha entre as pedras.

Após alguns minutos de subida, eles chegam até um platô localizado ao lado de um trilho de trem. Martin já tinha ouvido o barulho da locomotiva algumas vezes, ao longe, mas nunca imaginou que havia um caminho tão perto da praia.

– Daqui a pouco ele passa. – Afirma Fabiana.

– O trem?

– Isso. Nas sextas, sempre no fim da madrugada.

Sentados em uma pedra que oferecia uma visão espetacular da praia, Martin e Fabiana ficaram ali por quase uma hora, trocando confidências. Ele explicou que estava aguardando o resultado do vestibular, e que podia mudar de cidade. Ela lhe mostrou as fotos dos pais que levava na carteira. Martin estranhou que a fotografia do pai de Fabiana era um 3×4 antigo, preto e branco, mas não deixou de comentar:

– Você parece muito com seu pai.

– Não vejo meu pai há mais de dez anos. – Disparou Fabiana.

Martin não comentou nada, mas ela continuou:

– Depois que eles se separaram, ele foi morar numa cidadezinha aqui da região, e minha mãe não deixou mais a gente ter contato.

– Você não sabe onde seu pai mora? Não tem um telefone? – Questionou Martin, estupefato.

– Nada.

Um silêncio profundo calou a conversa por alguns segundos, antes que Fabiana fizesse mais uma confissão:

– Além dessa foto, guardei uma carta que ele me enviou quando eu fiz 10 anos. Tem um endereço lá, mas eu nunca o procurei.

– A carta está com você?

– Tá na casa da Patrícia. Eu sempre levo na agenda.

– Pois então amanhã a gente vai sair daqui pra procurar o seu pai. Eu te levo lá. – Afirmou Martin, que tinha pego sua carteira de habilitação há poucos meses.

– Você ficou doido? A carta é velha. Ele nem deve morar mais nesse endereço.

– Isso a gente vê quando chegar lá. Vai comigo?

Fabiana não respondeu, mas seus olhos estavam brilhando. Naquele momento, os dois ouviram o barulho da locomotiva se aproximando pelo trilho. Em alguns minutos, quando o trem de carga já passava pelo platô, eles se beijaram longamente, iluminados pela lua cheia.

Já era quase de manhã quando os dois desceram a trilha em direção à praia, no caminho de volta para o condomínio. Foi quando viram o “espetáculo”.

Com exceção de um, todos os quiosques de palha que enfeitavam a orla da praia tinham sido derrubados. Aquela ação humana pareceu bastante familiar para Martin. A suspeita se confirmou quando ele percebeu que Kitz, Filho, Zoila e Roserite estavam justamente abrigados no último que restava de pé. De longe, foi possível ver quando Filho acendeu um isqueiro e tocou fogo na palha trançada que servia de cobertura. Em poucos minutos, o quiosque foi tomado completamente pelas chamas, no que parecia um “picolé de fogo” flamejante, oscilando com a última brisa da madrugada.

Fumados e embriagados, seus amigos tinham resolvido dar o troco pela expulsão do clube. Meio extasiado, meio envergonhado, Martin olhou para Fabiana, que parecia não acreditar no que estava vendo. Aquela turma era animalesca.

Com certeza, aquilo ia dar merda.

Continua…

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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