Seu perfil de investidor está errado.

Seu perfil de investidor está errado.

Você é um investidor agressivo ou conservador?

O sujeito que toma a decisão de fazer o dever de casa e investir suas economias suadas de forma eficiente logo se depara com essa pergunta. “Eficiente” é palavra traiçoeira. Você nunca descobre realmente o que é eficiente embora haja uma alcateia de especialistas a vender respostas com base na própria trajetória de enriquecimento. Real ou fajuto, o caminho de sucesso do influenciador digital de finanças alheias é perfeitamente inútil pra você, como já discutimos em outro texto aqui no blog (Os Inúteis Conselhos dos Vitoriosos). 

Isso porque você simplesmente não é um “investidor”. Você é um pagador de boletos e um poupador. Também não é tolo e portanto não acha que vai ficar rico com bolsa ou bitcoin. Você só não quer ficar pobre. Se der pra ficar um pouco melhor a cada ano já está de bom tamanho. Se você ficar rico será porque poupou bastante, por bastante tempo e não fez nenhuma cagada com sua poupança. Então você não quer um guru de Wall Street. O que você quer mesmo é que outro pagador de boleto e poupador te ajude a não perder tempo batendo cabeça e compartilhe o que ele aprendeu abrindo picada no meio da selva de promessas fantasiosas e gatilhos de ansiedade que o mundo das finanças joga na sua cara todos os dias. Seus problemas acabaram, estou aqui para fazer isso!

Mentira. Seus problemas não acabaram e eu também não sei as respostas. Sou como você. A gente começa querendo apenas não perder mais da inflação que comeu o FGTS e a caderneta de poupança. Então começa a estudar o assunto e fica contaminado por variantes alpha, beta e delta do vírus do “benchmark” (um nome bonito para julgar a si mesmo olhando a grama do vizinho). Antes que possa saber, você está querendo “bater o CDI”, o “prêmio de risco”, o IPCA+4 e o escambau. Anos depois você está gastando duas horas por dia lendo relatórios e ainda tem dificuldade de sequer apurar a rentabilidade do bloco de carnaval em que se transformou sua “carteira de investimentos”. Fora o IR. Nem vamos falar do IR. Então relaxa por que é assim mesmo. Isso não quer dizer que não valha a pena. Você faz a parte mais difícil, que é gastar menos do que ganha, então vai tirar de letra.

Aquela primeira pergunta é o começo dos nossos problemas. Você é um investidor conservador ou agressivo? “Conservador” significaria menos risco e menos retorno. “Agressivo” significaria mais risco e mais retorno. Trata-se de um falso dilema, como é a maioria dos dilemas, e já vem com uma solução mágica: sou um investidor moderado. Ao menos é a conclusão que o questionário modelo da corretora cuspiu de volta. Não foi por acaso. Manipulei as respostas para que fosse assim. Gosto de reduzir a capacidade dos algoritmos de me jogar em alguma bolha de reforço cognitivo. Manipule o sistema ou seja manipulado por ele. Não há outra alternativa.

Cá entre nós, tenho nada de moderado. Dentro de mim escuto os gritos agudos dos passageiros de uma montanha russa. Alguns agarram-se à barra de segurança, outros levantam as mãos só pra sentir mais emoção. O moderado confia bilateralmente. Minha desconfiança é radial.

Nem eu nem você temos perfil “agressivo”. Tenho vontade de rir desse rótulo, certamente inventado por meninos adolescentes no pátio da escola, querendo se sentir corajosos. Pra mim o sujeito ou é investidor, ou é agressivo. Agressivo mesmo é o cara que gasta mais do que ganha e não paga as dívidas. Agressivo dirige com carteira e IPVA vencidos ou rola precatórios para os filhos dos outros pagarem. Já vivemos num mundo de bancos centrais e governos agressivos demais e vejo por todo lado os hematomas acumulados por essas agressões. Não. Dinheiro merece carinho.

Tampouco somos conservadores. Primeiro porque não podemos nos dar a esse luxo. É preciso ter muito a conservar para ser realmente conservador. É até feio conservar mixaria. Além do mais, o conservador é no fundo um grande otimista. Parece contraditório e talvez seja mesmo mas, pra ser conservador, o sujeito precisa acreditar que existe alguma forma de garantir segurança. Se você acreditasse em segurança ou garantia, não seria poupador. Não queremos abrir os potes de conserva depois do apocalipse e descobrir que azedaram. Prefiro comida fresca.

Esqueça essa coisa de perfil de investidor. Prefiro usar outro método, mais justo, para classificar investidores classificando-os em quadrantes que separam otimistas de pessimistas e idealistas de céticos. Explico:

O idealista acha que sabe algo, porque estudou muito aquilo. Se também for otimista, vai apostar tudo naquela ideia genial que vai mudar o mundo e o resto de nós vai torcer pra que ele esteja certo. Mas, se o idealista for um pessimista, provavelmente vai cavar um bunker no jardim para estocar enlatados e armas medievais. O cético, por outro lado, tem certeza que não sabe de nada. Assim, se for também otimista, vai acreditar que tem uma vantagem sobre todo mundo que não é cético, simplesmente por ser mais paciente. Já um cético pessimista é algo entre um monge budista e o vocalista de uma banda emo.

Apliquei alguns exemplos de investidores famosos (ou nem tanto) ao esquema, apenas como exemplo. Você deve estar em algum lugar desses quadrantes.

Mas, claro, isso não faz a menor diferença.

Daniel Mattos

Daniel Mattos

Nasceu em Petrópolis, em julho de 1975 e recebeu o nome de Daniel Vidal Mattos. Desde então está em busca de respostas sobre o que é ser Daniel Vidal Mattos, nascido em Petrópolis em julho de 1975. Não se parece com a foto aqui publicada.

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