Como Você Sabe?

Como Você Sabe?
Carl Sagan conta como Eratosthenes demonstrou a curvatura da terra há 2200 anos.

Se você é um dos três leitores deste Blog, talvez tenha notado que ele se organiza em categorias ou sessões como “Histórias Curtas” (onde postamos textos de ficção que se encerram neles mesmos) e “Clichê” (onde estão textos que exploram o fascinante universo dos arquétipos, estereótipos e clichês da imaginação humana), enquanto os textos de ficção seriada estão reunidos sob seus títulos (Batanka!, Crise, O Segredo do Meu Fracasso, Etc). Por fim, temos uma sessão intitulada “ID”, o que talvez tenha despertado a curiosidade de alguém para essa nomenclatura. Se você clicar na categoria, verá que o ID é apresentado como uma área que reúne “pensamentos e reflexões sobre temas variados, como cinema, audiovisual, linguagem, consciência, filosofia e cultura”. Mas por que ID?

ID, nesse caso, não tem a ver diretamente com o aquele sistema básico da personalidade inconsciente, a parcela mais instintiva da mente identificada e definida por Freud. ID é uma sigla para Instituto Demian, entidade abstrata que surgiu há muitos anos como uma brincadeira entre os atuais colaboradores do blog Maxie e sócios da produtora audiovisual Maxie Demian Ltda, cuja marca pública é simplesmente Demian. O nome da produtora é uma referência a um personagem do livro Demian, de Herman Hesse. Max Demian é mentor e daimon do personagem principal, Emil Sinclair. Demian é uma palavra derivada de Daimon,  do latim dæmon (“espírito”), uma espécie de anjo da guarda que nos acompanha e nos conecta ao nosso destino, vocação, propósito ou sentido de vida. A produtora recebeu esse nome porque é ali que seus sócios buscam realizar esse potencial.

No entanto, no cerne da Demian, a verve pela arte de contar histórias e transformá-las em dramaturgia audiovisual sempre foi acompanhada por uma borbulhante atividade filosófica (o que tornava o processo de escrever roteiros ainda mais demorado). Sócios e agregados reuniam-se frequentemente e mergulhavam pela madrugada em debates e leituras sobre as questões mais penetrantes da mente humana, que encontravamos nos gêneros culturais que mais amamos: as religiões, a filosofia, a ciência e os mitos (a ficção). Nossa busca era impulsionada pelo instinto básico de não estar satisfeito com as respostas para nossas perguntas. Sempre havia uma camada a mais a ser descascada nesse processo inesgotável de usar a mente para desfazer as ilusões da própria mente.

Em meio a esses devaneios, criamos uma escola imaginária: o Instituto Demian. A sigla ID e sua evocação ao Id de Freud apenas nos agradava ainda mais, já que nossas escavações buscam mesmo o que está sob a superfície das explicações racionais. Além do mais a escola imaginária que, em nossas fantasias, dava combustível a essas reflexões era meio que uma Mansão X, onde mutantes podem ser eles mesmos e trabalham para desenvolver suas habilidades incomuns. Acreditamos que o mundo precisa de mais Mansões X e menos Ivy Leagues. Mais comunidades de pensadores e menos centros de adestramento de gatekeepers. Mais perguntas difíceis e menos respostas fáceis.

No último natal, presenteei meu filho com o livro “Breve história de quase tudo”, de Bill Bryson. Outro dia perguntei se ele estava gostando da leitura. Ele me respondeu que, logo no primeiro capítulo, o autor “fala o que já precisava ser dito faz tempo”. Fiquei curioso e ele explicou que Bryson introduz o livro dizendo que as escolas têm um falha fundamental. Elas apresentam respostas para perguntas que não foram feitas. Mais que isso, ao apresentarem essas respostas não se preocupam em esclarecer a origem daquela ideia ou o processo pelo qual se chegou àquele conhecimento. Entendi que eu havia escolhido o livro certo. Bryson é um de nós (vide “Daltonismo”).

Acredito que seja bastante útil aprender a resolver problemas usando o teorema de Pitágoras. Ele é uma fermenta poderosa e deve ser oferecida a cada nova geração a oportunidade de aprender a manejá-la. Mas existe algo, ainda mais importante, que vem sendo negligenciado. É preciso compreender o teorema de Pitágoras em sua essência. Isso inclui saber como provavelmente se deu o processo de pensamento que culminou no teorema. Inclui também as implicações e princípios que ele evoca. Em resumo não basta saber que em qualquer triângulo retângulo, o quadrado do comprimento da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos comprimentos dos catetos. É preciso responder à pergunta que inevitavelmente sucederá: “Ah é? E como você sabe?” É preciso saber por quê.

Saber é entender como se sabe. Tudo mais não é saber, mas condicionamento. É possível condicionar-se a resolver todo o grande conjunto de operações matemáticas exigido para ter uma nota alta no Enem, receber elogios e conseguir um vaga numa Universidade concorrida sem que no entanto se compreenda realmente a mecânica interna, as origens ou implicações de quaisquer daquelas operações. Esse nível de adestramento, espantosamente viável, nos iguala a autômatos e não tem lugar no futuro uma vez que as inteligências artificiais são perfeitamente capazes de operar informação e conhecimento sem ter a mais vaga ideia do que ele signifique. Na teoria da inteligência artifical existe esse ente, o zumbi, capaz de simular perfeitamente uma pessoa consciente sem que no entanto ela mesma seja consciente. Saber sem saber como, reproduzindo de forma convincente um comportamente inteligente, é ser um zumbi.

O problema do conhecimento zumbi é que, mais cedo ou mais tarde, seus efeitos colaterais começam a cobrar um alto preço à sociedade. Por um lado, como seres humanos são conscientes e portanto não são zumbis, haverá quem reaja ao conhecimento meramente informado e o questione. O problema é que, sem ter recebido uma formação adequada para compreender o sentido do conhecimento, esse questionamento reativo assumirá formas disfuncionais e inadequadas, como o terraplanismo. Por outro lado, uma multidão de pessoas bem adestradas agrava o problema do questionamento mal resolvido respondendo a ele com o linchamento simplório, reafirmando o conhecimento mais correto, mas também sem ter uma compreensão verdadeira de por que esse conhecimento é mais correto. Mais espantosa que os argumentos e teorias conspiratórias dos negacionistas é a incapacidade da imensa maioria do seus detratores de demonstrar a contraprova com um mínimo de rigor. No fim das contas, essa dinâmica demasiadamente informada, mas insuficientemente educada, multiplica o ruído na comunicação coletiva e pavimenta o caminho para a manipulação, o sectarismo militante, as narrativas ativistas e outras doenças socioculturais contemporâneas.

É por isso que, no ID, temos como lema uma pergunta: Como você sabe? Essa pergunta fundamental deve ser feita por cada um de nós, primeiramente em frente ao espelho, e respondida com humildade e diligência ao longo de toda a vida. Fazer essa pergunta diante de uma afirmação não é um ato de descrédito ou desconfiança, mas um dever de respeito, da parte de quem pergunta e de quem responde, em relação a todos que vieram antes e todos que virão depois. Fazer essa pergunta, sempre, é a missão do ID. Acreditamos que ela é a bússola que guia nossa jornada pela maior aventura do ser humano: a aventura do conhecimento.

Daniel Mattos

Daniel Mattos

Nasceu em Petrópolis, em julho de 1975 e recebeu o nome de Daniel Vidal Mattos. Desde então está em busca de respostas sobre o que é ser Daniel Vidal Mattos, nascido em Petrópolis em julho de 1975. Não se parece com a foto aqui publicada.

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