“Eu”

“Eu”
Marigold tarot

Não me lembro do meu nome. Quando consigo dormir, tenho pesadelos. Às vezes me esforço para encontrar um significado nesses sonhos, mas não acho nada. Eles não fazem sentido. São apenas imagens, sons, odores totalmente desconexos. Quando falam, não compreendo.

Agora eu estou acordado. Pelo menos acho que estou. Pela luz mortiça, vejo minhas pernas. Meus tornozelos estão em carne viva. Sangue escorre pelas canelas. Não me importo. Vão cicatrizar. Sempre cicatrizam. Aprendi a não me preocupar com ferimentos.

O ar está úmido agora.

Se eu não soubesse que estou louco, me preocuparia com a sensação de brocas furando meus ossos. São os sonhos. Agora eu acordo e eles persistem. Não sei mais o que são sonhos e o que é real. Talvez um pesadelo que se torna realidade. Talvez um sonho do qual não posso acordar.

Me lembro do primeiro pesadelo.

Eram apenas rostos deformados e espectrais de pessoas e animais que se sobrepunham e mudavam. Mas havia um rosto, uma forma, que ameaçava aparecer e que era particularmente aterrorizante. Não que fosse mais deformada que as outras, na verdade sou incapaz de descrevê-la, mas significava algo apavorante. Antes que surgisse, acordei. 

Ao abrir os olhos nada vi. Estava tudo escuro. Levei alguns segundos para perceber que estava de cabeça para baixo. Quando percebi, gritei apavorado. Tentei entender como fui parar ali. Foi quando dei conta que não sabia onde havia estado antes de acordar ali. Na verdade não lembrava de absolutamente nada nem ninguém. Não sabia meu nome, mas sabia quem era eu. Sabia como eu era. Tinha certeza de que havia estado em algum lugar antes de despertar ali, mas não conseguia me lembrar. Meus pés estavam presos numa argola de ferro maciço. Eu estava pendurado por eles. Forcei os olhos para tentar enxergar as paredes, o chão ou o teto, mas não vi nada. Estava completamente escuro. No entanto, eu era iluminado por uma luz tênue. Pelas sombras que se projetavam nos contornos do meu corpo, ela parecia vir do chão. Mas quando eu olhava para aquela direção não via nenhuma fonte de luz. Não havia fonte de luz em nenhuma parte. Só eu estava iluminado. Eu e a corrente. 

Era uma corrente de elos de grosso calibre. A argola à qual estavam presos meus pés se ligava ao último elo. Dobrei-me tentando encontrar uma forma de me soltar. A argola envolvia meus tornozelos, mantendo os pés fortemente unidos. Era muito apertada. Não havia como me libertar. Soltei meu corpo. Fiquei com os braços pendurados. Não parecia haver nada em volta. Deduzi que estivesse em uma sala bem grande, para que eu não visse as paredes. Gritei por ajuda. Não havia eco. Era como se eu estivesse ao ar livre, mas estava escuro demais para isso. Eu estava pendurado em um imenso vazio. Se eu me soltasse, à que distância estaria o chão? Eu não pretendia arriscar para descobrir. A corrente devia estar fixa em algum lugar lá em cima. Me dobrei para tentar alcançar a corrente e me puxar para cima. O esforço era tremendo e eu não conseguia nem sequer me aproximar da corrente. Meus tornozelos já doíam desesperadamente. Reuni forças. Em um movimento brusco me dobrei e agarrei minhas pernas. Fui escalando por elas até alcançar a argola. Depois agarrei a corrente e fui puxando meu corpo até ficar de cabeça para cima. Não havia onde apoiar os pés. Os elos da corrente não eram suficientemente grandes para que eu pudesse usá-los como apoio. Eu tinha que sustentar todo meu peso com os braços. Escalei meio metro. Meus braços eram suficientemente fortes para subir mais, mas as mãos não aguentaram agarrar a corrente por muito tempo. Tive que descer e voltar a ficar pendurado. Se a corrente fosse muito longa eu não conseguiria. Deveria haver outra maneira.

Não sei como, mas eu simplesmente sabia que não ia aparecer ninguém ali. Tinha certeza de que estava completamente sozinho mas, mesmo assim, esperei. Esperei por algo ou alguém que sabia que não existia.

É impossível determinar quanto tempo eu fiquei pendurado lá, esperando, mas foi muito tempo. A dor nos pės passou conforme minhas pernas foram ficando dormentes. Eu já não sentia nem formigamento. Simplesmente não sentia as pernas. Já meus braços e cabeça latejavam pelo acúmulo de circulação. O ar estava parado e quente. O mormaço era insuportável. Apesar de estar nu, eu suava muito. O suor escorria pelo corpo desde as pernas, pelo abdome, tórax, subindo pelo pescoço até contornar o queixo e pingar dentro do meu nariz. Era tanto suor que eu não conseguia respirar. Empapava meu olhos, encharcava meu cabelo, escorria pelos braços pendentes até as pontas dos dedos de onde se atirava na escuridão.

De repente, bateu uma brisa fresca rompendo aquele ar quente e parado. Imediatamente pensei em prováveis procedências para aquela corrente de ar. Uma porta que se abrira? Olhei em volta e nada. O mesmo vazio, a mesma escuridão. O vento fresco batia no meu corpo em golfadas que, pouco a pouco, fizeram-no se resfriar. A temperatura amenizou. Fechei os olhos, aliviado. Foi quando comecei a ouvir um farfalhar distante. Não conseguia distinguir o que poderia ser. Talvez por que não lembrava nada que me remetesse aquele ruído assustador que tornou-se ainda mais assustador à medida que se aproximava e ficava mais estridente. Eu não conseguia ver nada. Continuei sem ver até que me atingiu. Era uma horda de morcegos. Vieram para cima de mim, famintos. 

Me debati como um animal agonizante tirando-os de cima de mim. Eles se agarravam ao meu cabelo quase arrancando-o. Eu agarrava seus corpos peludos e os atirava para longe. Sentia suas garras cravando em meus braços, pernas e tronco, seus dentes em minhas orelhas sugando meu sangue. Em bruscos movimentos, eu arrancava dúzias deles de mim, mas, em seguida, outros preenchiam o espaço criado. Eu continuei, gritando desesperado, puxando-os pelas asas que batiam frenéticas até que, rápido como surgiram, os morcegos desapareceram. 

O horror deu lugar a dor. Todo meu corpo estava coberto de ferimentos. Arranhões de suas garras penetrando em minha pele. Ardia lancinantemente apesar do frio que cortava o ar. Compreendi que fora isso que espantara os morcegos. O frescor que antes havia aliviado o mormaço infernal, transformara-se em um frio insuportável. Foi ficando tão frio que meus músculos ficaram rígidos como rochas. Depois, tão frio que os ferimentos pararam de sangrar. Depois tão frio que as gotas de suor a sangue congelaram no meu corpo formando pequenas estalactites e meu cabelo ficou duro como o gelo nele. Enfim tão frio que entrei em choque e desacordei.

Meus pés escorregaram pela argola e comecei a cair. Olhava para baixo e só via a escuridão. Caía no vazio sem ver nada. Continuei fixando meu olhar direto para baixo até distinguir o que seria o chão. Vi ondulações acinzentadas, fracamente iluminadas. Uma superfície espectral, que se estendia até o horizonte. Era água. Mergulhei fundo na água gelada, tão gelada que não conseguia nadar. Fui afundando e engolindo água salgada até sufocar.

Acordei com o susto. Meus pés estavam lá, presos à argola. O frio passara. A temperatura estava amena agora. Dos ferimentos causados pelos morcegos só restaram as cicatrizes, assim como nos tornozelos. Eu estava faminto e minha língua chegava a estar inchada de sede. O ar estava seco. Podia sentir isso pelo vento em minhas costas. Eu não aguentava mais aquilo. Precisava escapar. Tinha de haver um meio. Sabia que pular seria a morte. Fosse o que fosse lá embaixo, era muito alto para saltar. Eu precisava subir. Coloquei isso na cabeça. Mas precisava de meios para isso. Fiquei esperando ficar novamente quente ou frio, como sinal de um ciclo qualquer de tempo, como noite e dia, mas não sabia exatamente do que se tratava quando pensava em noite e dia, e nenhuma mudança de temperatura ocorreu. Fiz mais algumas tentativas de subida, mas sempre com o mesmo resultado. Minhas mãos não suportavam o esforço. Eu não podia fazer nada. Desisti de tentar. 

A monotonia foi rompida pelo terror. Novamente ouvi aquele farfalhar. Não, de novo não, pensei. O som aumentava com o meu pavor, ou o contrário. Quando eles se lançaram sobre mim algo se libertou na minha mente que nem eu poderia imaginar. Cada morcego que me atacava foi então atacado de volta. Estraçalhei-os com minhas próprias mãos. Mais: devorei-os. Saciei minha fome e minha sede com seus corpos e seu sangue. Não sabia oque estava fazendo, ou talvez soubesse mais do que nunca. Fui movido pelo mesmo impulso cego

que move os morcegos. Precisava saciar a fome. Tinha que comer e eles eram comida. Em última análise eu estava pegando meu sangue de volta. Assim, quando eles se foram, não me importei com a dor que era simplesmente o justo preço do alimento. Fiquei esperando congelar, com o gosto de sangue na boca. Sangue esse que manchava todo meu rosto. Mas, ao contrário do que eu esperava, não esfriou. Isso queria dizer que não era o frio que afastava os morcegos e também queria dizer que nada poderia me avisar de sua vinda e nada poderia me ajudar a contar o tempo. 

Notei que minhas mãos ainda agarravam os restos de dois morcegos devorados. Tive uma idéia. Arranquei suas cabeças, tirei todo o resto de carne e órgãos de seus corpos. Desocei-os cuidadosamente. Era difícil o trabalho. Não havia onde apoiar nada nem tinha firmeza nas mãos por estar de ponta-à-cabeça. Mas depois de quase deixa-los cair várias vezes, consegui ficar só com o couro dos bịchos. Enrolei o couro nas mãos deixando os dedos livres. fixava-os usando costelas como grampos. Ficaram bem firmes. Agora era hora de testa-los. Em um movimento rápido e brusco, agarrei a argola. Depois, fui me içando até ficar de cabeça para cima novamente. A sensação chegava a ser estranha. Já tinha me acostumado com a posição invertida. Comecei a escalar. Estava dando certo. O couro protegia minhas mãos. Subi vários metros. O esforço era tremendo e foi ficando cada vez maior, não só pelo cangaço, mas porque quanto mais eu subia maior era a extensão da corrente que arrastava atrás do meu corpo. Tentei forçar a sumida, mas acabei por cair. A queda foi interrompida drasticamente pelo final da corrente. O puxão deslocou minha perna. Urrei de dor. Meus pés pareciam que iam se separar dos tornozelos. Gritei novamente, não de dor, mas de raiva. Inconformado, agarrei a perna e com um golpe coloquei-a de volta no lugar. A dor me fez gritar de novo, mas aliviou pouco depois.

Comecei a sentir um formigamento nos pés. Achei que poderia haver algo errado com eles por causa da queda. Verifiquei. Eu estava enganado. O formigamento tinha outro motivo. Insetos. Eles estavam descendo pela corrente e chegando às minhas pernas. Espanei-os, desesperado. Eram muitos e eu quase não conseguia dar conta. Jogava-os para longe com movimentos histéricos. O esforço que eu tinha que fazer para me manter flexionado era insuportável, mas o pavor falava mais alto e eu continuei espantando-os até que o último descesse.

Até bem depois de terem parado eu continuava a me coçar temendo ainda haver algum. Relaxei um pouco, mas sempre olhando para cima para ver se não estava descendo nenhum outro troço cheio de patas pela corrente. Numa dessas olhadas, vi que o último elo da corrente, que se prendia à argola, havia se rompido, ficando com a forma de um gancho duplo. Um se prendia à corrente e outro å argola. Mal acreditei naquilo. Era a minha salvação. Agora eu poderia subir sem arrastar o peso da corrente atrás de mim. Além do mais, aqueles insetos teriam que ter vindo de algum lugar lá em cima.

Assim eu comecei a escalada. Subi o bastante para poder soltar o elo arrebentado. Passei a usá-lo em uma das mãos como gancho para ajudar a subida. Escalei uma grande distância. Olhando para baixo, nem via mais o fim da corrente. Olhando para cima, a corrente penetrava a escuridão. Depois de subir muito, tive que parar para descançar. Prendi o gancho em um elo da corrente e, na outra extremidade, prendi a argola com os meus pés. Fui descendo cuidadosamente até ficar pendurado novamente. Meus braços estavam doloridos com o esforço. Todo o meu corpo implorava por descanso.

O elo se rompeu totalmente e eu despenquei. Tentei desesperadamente agarrar a corrente que passava zunindo perto de mim mas não conseguia. Passei pelo final da corrente e mergulhei no vazio. Lá em baixo, pude ver um tracejado que se estendia até o horizonte. Só muito perto, percebi o que era. Todo o solo era composto de lanças apontadas para cima. Cai diretamente sobre algumas delas. Atravessaram meu tórax e meu abdome facilmente. Em um espasmo, tentei respirar, mas não consegui.

Esses sonhos já estavam me aborrecendo. Refeito do susto, voltei a subir. Por muito tempo subi. Muito mais tempo do que imaginara. Sempre tinha esses pesadelos, quando adormecia. Me acostumei com eles. Sonhei que caía em uma montanha de insetos, que caía em brasa viva e até mesmo em um chão duro e liso. Me alimentava dos morcegos e com seus restos e couros das asas fiz cordas para poder descansar de cabeça para cima. Com suas costelas fiz garras que, amarradas aos meus dedos, tornavam o ataque a eles mais eficiente.

Depois os sonhos ficaram piores. Passaram a ser povoados por aquelas carrancas vivas e aqueles gritos. Mas eu conseguia não enlouquecer porque eu tinha um objetivo. Tinha algo que me mantinha conciente. Subir. Escalar mais e mais. Não me preocupava se ia encontrar algo lá em cima ou não. Simplesmente subia. Fiz da escalada a âncora de minha sanidade.

Eu estava subindo sem nem olhar para cima quando senti uma gota cair na minha cabeça. Olhei para cima e vi o teto de pedra. Acelerei a escalada. Chegando lá, toquei a pedra úmida e lisa. Olhei em volta e percebi o pior, o verdadeiro pesadelo. O teto de pedra cinzenta se estendia em todas as direções. 

Não havia saída. Não havia nada lá além de uma enorme muralha que cobria tudo. Eu não pude acreditar. Me negava a compreender como podia ser aquilo. Não havia mais nada que pudesse fazer. Não havia como escapar daquele inferno. Não havia aonde ir. Não havia mais a escalada. Nada mais poderia me manter são. Foi então que, enlouquecido e desesperado, fiz a única coisa que me restava. 

Soltei o gancho e saltei para a escuridão infinita.

Agora, caindo eternamente na escuridão, após lembrar tudo que existe em minha memória, neste instante de sanidade, compreendo como neguei o que já sabia desde o início. Não havia saída. Não havia porque haver uma saída. Desde o primeiro instante eu sentia que, seja o que for que estava acontecendo, a questão não era achar uma saída. A procura não era procura de uma solução, mas a procura de um significado. Eu compreendia agora. Após perseguir um motivo para tentar descobrir quem era eu. Após me esforçar inutilmente para tentar me manter eu mesmo através de uma caminhada sem objetivo, percebo que o que realmente importa é o que restou. Nem lembranças, nem sonhos. Nem escalada ou medo. Nem propósitos e, no fim de tudo, só eu permaneço. E não importa quem eu seja. Já não preciso fazer nada. Não preciso descobrir nada. Só preciso olhar para dentro e me ver. E dizer: eu existo!

Depois de um clarão me cegar, acordo na cabana. Estou deitado em uma cama macia. A lareira está acesa. O mestre está ao meu lado. Ele me estende uma tigela com chá e diz: “Beba isto. Não diga nada. Você ainda está confuso. A memória vai voltar aos poucos. Agora durma um pouco”. Obedeço. Bebo todo o chá, depois me deito. Fecho os olhos e sonho estar voando em uma grande planície iluminada.

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Daniel Mattos

Daniel Mattos

Nasceu em Petrópolis, em julho de 1975 e recebeu o nome de Daniel Vidal Mattos. Desde então está em busca de respostas sobre o que é ser Daniel Vidal Mattos, nascido em Petrópolis em julho de 1975. Não se parece com a foto aqui publicada.

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