II. Sem Nome
Antes: I. Eu não fumei a gonga
– Aquele cara vai com a gente de novo? – Perguntou Pedro, já lamentando a resposta.
Martin apenas acenou positivamente com a cabeça. Seus dois melhores amigos não se davam. Enquanto Filho era um fio desencapado, um bully de escola, sempre pronto a entrar em qualquer confusão, Pedro era o oposto disso: centrado, estudioso e bem-educado. Para completar a vendeta, ainda disputavam a preferência de Mari, irmã de Martin. Naquele momento, Filho estava levando a melhor. Embora fosse claramente um cafajeste, também era extrovertido e estava sempre presente, enquanto Pedro era bem mais reservado e ainda tinha arrumado uma namorada na Escola Técnica onde cursava o segundo grau.
– A Cris vai? – Questionou Martin. Durante um tempo, ele a irmã de Zoila tinham sido namorados, mas ela tinha lhe trocado por um cara mais velho da mesma Escola Técnica de Pedro.
– Acho que vai. Tua irmã convidou, e parece que ela e o Bond Boca lá da Federal não andam muito bem.
Martin nem chegou a se animar com a resposta. O coração ainda estava cicatrizando, e ele não podia nem pensar em ter uma recaída. Na verdade, a escolha em fazer faculdade em outra cidade tinha muito a ver com aquilo. Estava na hora de conhecer gente nova, outras amizades, outras meninas, outras mulheres.
Enquanto conversavam na praça do condomínio onde moravam, Kitz passou dirigindo a Uno vermelha do pai, acompanhado de Zoila:
– Bora pra Sem Nome?
Kitz parecia um vagabundo, mas trabalhava desde o início do segundo grau. Já Zoila era de fato. Tinha largado a escola no segundo ano, após uma confusão mal explicada que terminou em um convite para saída, e naquele momento não parecia muito preocupado com a situação.
Sem Nome era uma sorveteria próxima, a poucos quarteirões de distância do condomínio de casas geminadas financiadas pela Caixa Econômica Federal na década de 80, onde a gangue tinha se conhecido. Sem ter mais o que fazer, os dois resolveram entrar no carro, e alguns minutos depois já estavam tomando milk shakes. Para alegria do grupo, algumas meninas bonitas na mesa ao lado lançavam olhares e sorrisos. Kitz e Zoila, que não costumavam desperdiçar chances, começaram a provocar as garotas, fazendo gestos obscenos com canudinhos na boca. Após algumas risadas, o flerte parecia ter acabado quando elas se retiraram do local.
Pouco depois, já no carro, voltando para casa, Zoila viu as meninas numa esquina, conversando com um sujeito baixinho. Tirando o corpo pra fora da Uno, gritou:
– Tchau, gatas!
Quando os quatro já estavam em frente à portaria do condomínio, o cara baixinho apareceu de moto, sem camisa, usando uma pochete escrota na cintura. Fechando o carro, gritou bem alto para que todos pudessem ouvir, incluindo os seguranças que trabalhavam há décadas no local:
– Então vocês moram aí, né? Estão fodidos! É só esperar!
Com uma das mãos na pochete entreaberta, como se estivesse segurando uma arma, o sujeito deu meia volta com a moto e arrancou a toda velocidade, provocando surpresa em todos que testemunhavam a cena.
– O que houve, molecada? – Perguntou Tião Rosa, negão de dois metros e mais de cem quilos, um dos seguranças do condomínio.
Ninguém ali sabia responder. Mas conseguiam imaginar.
Martin estava calado, ainda tentando digerir a ameaça. Kitz e Zoila logo se ligaram que aquilo tinha alguma coisa a ver com as meninas da sorveteria.
– Que cara babaca! – Exclamou Zoila.
Martin e Kitz apenas se entreolharam. Nunca que iriam levar aquele desaforo pra casa.
– Bora voltar lá? – Disse Martin, já com os olhos vermelhos de raiva.
– Vocês enlouqueceram? O cara pode estar armado! – Gritou Pedro, apelando para uma sensatez que era inexistente nos amigos.
“Deixa” Dílson, chefe da segurança, que era macaco velho no apaziguamento de tretas, fez coro:
– Deixa essa porra pra lá, rapaziada… Isso não vai dar em nada.
– Porra, vocês são tudo moleque de faculdade… – Insistiu o Rosa.
Mas agora já corria um burburinho pela praça do condomínio. A Uno vermelha ainda estava estacionada na portaria, com os quatro amigos tentando digerir o que tinha acontecido.
Saído do nada, como se tivesse sido atraído pelo aroma da confusão, Filho apareceu no local. Tinha marcado com os amigos da academia de jiu-jitsu de ir a um baile funk pra sair na porrada durante os cinco minutinhos de alegria. Quando ficou sabendo do ocorrido, no entanto, foi correndo pra casa, que ficava na parte de cima do condomínio, e voltou confiante:
– Kitz, toca pra Sem Nome!
Pedro, absolutamente desconfortável com tudo aquilo, saltou do carro para dar o lugar ao cunhado de Martin, que por sua vez chegava a tremer de raiva. Sempre que se sentia ameaçado acontecia aquilo. A razão dava lugar a um ódio descontrolado. No banco de trás da Uno, ele percebeu que Filho tinha catado a pistola 9mm do pai. Levava o ferro na cintura, embaixo da camisa. Temendo o pior, Martin pediu ao amigo:
– Tu vai ficar no carro. Se der merda, você sai.
Kitz arrancou com a Uno de volta à sorveteria. Antes mesmo de estacionar, puderam ver o cara da moto conversando com as meninas na calçada, junto a mais dois amigos. Para Martin, o babaca obviamente estava tirando onda por ter apavorado os forasteiros.
– É ele. – Apontou Zoila, já saindo do carro com Kitz e Martin.
Kitz já chegou intimando: – Qual foi, filho da puta?!
O baixinho se encolheu. Claramente não esperava aquela situação. Seus amigos também pareciam bem surpresos, para não dizer cagados. De calma aís e não foi bem assim, o sujeito pareceu tentar jogar panos quentes. Alegou defesa da honra, o decoro na vizinhança e a paz mundial. E então ofereceu a mão para cumprimentar Kitz, como se estivesse propondo um armistício.
Kitz esticou o braço meio reticente, intuindo o que viria a seguir. Covardemente, o babaquinha se esquivou do aperto de mãos e tentou atingir o rosto do sagaz Rafael Lopes Maia, que chamávamos de Kitz. Como não teve sucesso, achou que era melhor correr. O caos se instalou rapidamente. Enquanto Kitz perseguia o sujeito pela calçada, Zoila trocava soco com um de seus amigos. Martin calculou a trajetória de fuga do baixinho e acertou-lhe em cheio um bico na perna, que o fez cair no asfalto.
Foi a deixa para que alguns coroas saíssem da sorveteria e de uma pizzaria ao lado para interromper a confusão (“mas que porra é essa, molecada?!”). Filho então saltou do carro com a pistola em punho, disparando imediatamente uns cinco tiros a 45 graus de inclinação, enquanto caminhava lentamente na direção do tumulto.
Naquele momento, deu-se um salve-se quem puder. Os homens que tinham saído para moralizar a situação se arremessaram por cima de mesas e cadeiras, fugindo de volta para os estabelecimentos, buscando abrigo. Um sujeito que passava pelo local de bicicleta freou a magrela com os próprios pés, amassando o saco no quadro. Ônibus e carros pararam na rua, evitando passar pela sorveteria. Após os tiros, um silêncio absoluto tomou o ambiente. Geral escondido, com exceção de Filho, Kitz, Zoila e Martin.
– Essa porra não é bagunça! – Gritou Filho, sem se dar conta da evidente contradição.
Enquanto voltavam para casa na Uno vermelha, Filho colocou o corpo para fora da janela e apontou a pistola mais uma vez, o suficiente para instalar novamente o pânico no local. Entre os frequentadores da pizzaria, porém, estava a mãe de Martin, que gritou o nome do filho em alto e bom som quando testemunhou a delinquência.
“Que bosta, hein mãe?”, pensou Martin, antecipando que os próximos dias seriam difíceis.

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