IV. Moletom e chinelo

IV. Moletom e chinelo

Antes: III. Viajando na “Bomba”

O Montanha Russa tinha esse nome por causa da estrada sinuosa e extremamente íngreme por onde os carros tinham que passar antes de chegar ao local. Se, para os automóveis em perfeitas condições, aquela descida já era uma prova de estabilidade, descer na bomba era suicídio. Por isso, já à noite, Roserite, Zoila e Kitz resolveram deixar o carro no acostamento da estrada e descer o morro pelo mato. Sim, eles também sabiam que os seguranças do condomínio jamais os deixariam entrar no local, não apenas pelas condições do automóvel, mas porque eles não eram formalmente convidados de ninguém.

– Eu sei onde fica a casa dela. – Disse Zoila, confiante, já se embrenhando no matagal.

– E se a Medéia não deixar a gente entrar na casa, cara? E se ela chamar os seguranças? – Perguntou Roserite.

– Aí a gente diz que só veio pegar nossas coisas. – Respondeu Zoila misturando as pessoas: – Mas tô tranquilo, vocês vão ver.

Após alguns minutos descendo pelo meio do mato fechado que cercava o Montanha Russa até a praia, os três chegaram a uma das bucólicas ruazinhas que caracterizavam o lugar, onde as casas não tinham muros. Eram todas decoradas com lindos jardins. Tentando não chamar a atenção dos seguranças que faziam rondas pelo local, Zoila conduziu os amigos até uma das casas mais imponentes da rua principal, no quarteirão da praia. Como se nada tivesse acontecido, foi entrando pela porta da frente, e logo deu de cara com a Medéia esparramada no sofá, completamente chapada.

– Pega uma dose de uísque ali. – Ordenou ela quando o viu.

– Não, quero não… – Disse Zoila.

– É pra mim. – Definiu Medéia, sendo prontamente atendida.

Kitz e Roserite mal podiam acreditar naquilo. Horas atrás, o casal estava se agredindo em um carro e ela literalmente tinha os deixado na mão, no caso, a pé. Mas agora o amigo já tomava conta da casa, servia bebidas e mudava o canal da TV no controle remoto. Zoila pegou da mesa a chave do carro de Medéia e lançou para Roserite:

– Pega as coisas lá no porta-malas. Vocês vão dormir no quarto de cima.

Sem entender nada e nem questionar porra nenhuma, Roserite atendeu rapidamente ao comando. Se tinha algo que ele zelava mais do que sua prancha BZ nova, ninguém sabia. Kitz, absolutamente confortável com a situação, já escolhia diligentemente o que iria consumir do suntuoso bar da casa, recheado de garrafas com marcas caras de bebidas premiadas envelhecidas há cinquenta anos. Um drink para abrir os trabalhos, pois tem dia que a noite é foda.

Enquanto isso, na casa alugada pelo pai de Martin, somente ele ainda continuava por ali, sentado numa rede da varanda, lendo um livro sobre xadrez achado numa estante do porão. O resto da turma tinha descido para a praia no fim da tarde, e provavelmente àquela hora ainda estavam no clube do condomínio, onde costumavam passar a noite quente curtindo uma piscina e o salão de jogos. Martin não gostava muito do lugar, especialmente da galera local: a maioria era de filhos dos proprietários, que se conheciam desde sempre e formavam uma panela fechada de playboys e patricinhas. Sua irmã e as amigas se enturmavam muito mais, pois sempre haviam gaviões de olho em presas novas. Para ele, aquelas viagens de Réveillon serviam mais para descansar. Aquela, no entanto, era bem necessária, pois naquele momento ele e seus amigos eram fugitivos perseguidos, devido ao famigerado incidente na sorveteria.

Quando já tinha quase terminado de ler a primeira parte do livro, sobre os principais tipos de abertura (gostou da Ruy Lopez), viu Kitz e Roserite subindo a rua. De patrão, os amigos aproveitavam a caminhada para fumar um (outro) baseado.

– Fala, mermão! – Gritou Rosera, com um sotaque debochado: – Furamos o bloqueio!

– Cadê o Zoila? – Perguntou Martin, deixando o livro de lado.

– Ficou em casa com a Medéia. Os dois tão trancados no quarto há duas horas. – Respondeu Kitz, já passando a ponta.

– Vocês são malucos. – Disse Martin, dando uma tragada.

– Maluco a gente seria se ficasse em casa. Aquela merda lá na Sem Nome vai feder. – Rebateu Roserite, antes de completar: – Mas e aí? Bora dar uma chegada naquele clube da praia, pra ver as mutchatchas?

Martin sabia que aquele tipo de convite geralmente resultava em confusão, mas se animou. Minutos depois, os três já se juntavam a Filho, Pedro e as meninas, que àquela hora se divertiam no salão de jogos, dividindo-se entre as mesas de sinuca e totó.

– Ih… Olha quem tá aqui! – Comemorou Filho, quando viu Kitz e Roserite acompanhando Martin.

– É nós na fita, Filhão! – Exclamou Roserite, escancarando os dentes.

– O negócio aqui tá florido hoje… – Observou Kitz, reparando na quantidade de meninas que circulavam aqui e ali, entre a piscina, a pista de dança e o salão de jogos.

E estava mesmo. Martin logo percebeu que aquele fim de semana de réveillon tinha atraído uma fauna nova para o Montanha Russa. Entre rostos conhecidos (e alguns bem desagradáveis, por conta de desavenças em carnavais passados) e a turma que tinha vindo com ele, seu olhar fixou-se em uma menina que ele nunca tinha visto por lá.

Ao contrário da maioria das outras garotas, aquela pequena sereia de cabelos claros queimados pelo sol não estava usando roupas da moda ou biquínis provocantes, mas trajava uma calça de moletom com chinelos, e uma camiseta larga da Redley. Não demorou muito para que os olhos se cruzassem, inicialmente tímidos, até uma troca de sorrisos.

Um sujeito bêbado passeava pelo clube com uma garrafa de Martini na mão, dando goladas enquanto provocava os outros:

– Mata o que te mata! – Gritava o jovem, com a camiseta suada, oferecendo a bebida aos passantes.

Kitz resolveu entrar na brincadeira. Tomou o Martini pela metade das mãos do cara e, como costumava fazer eventualmente, bebeu todo o resto numa única golada. Aquela noite tinha mesmo um clima especial. As horas passaram, o salão do clube mais vazio, Martin se viu quase sozinho com a menina da Redley, e arriscou uma conversa. Seu nome era Fabiana, e ela era mesmo linda.

O clima especial não durou muito. No píer do clube, uma passarela estreita de madeira que avançava da área da piscina mar adentro, Filho arremessou um dos integrantes da galera local na água, com um esbarrão “sem querer”. Foi a deixa para que uma confusão se instalasse, que só não terminou em briga porque os seguranças chegaram rapidamente. Resultado: Filho, e todos que estavam com ele, foram gentilmente convidados a se retirar do clube. Normal.

Continua: V. O Trem da Madrugada

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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