VIII. Pausa para Retrato

VIII. Pausa para Retrato

[Antes: VII. O Coração do Oceano]

Depois de aguardar um bom tempo escondido na sala de segurança, Danton se dirige aos controles de gravação de vídeo, para saber do que falavam os ladrões. Ele então vê as imagens em que está saindo correndo do corredor, com a sacola da joia na mão. Absolutamente comprometedora. Os caras tinham apagado tudo que aparecia antes e depois. Danton fica nervoso, mas quando tenta deletar aquele trecho da imagem, a imensa mão negra do chefe de segurança assume os controles. Com a carteira aberta de Danton em uma das mãos, o negão decreta:

– FIM DA AVENTURA, MOLEQUE.

Não havia como explicar aquilo para o chefe. Mas, quando Danton já estava resignado, decidido a se entregar, o chefe toma uma pancada certeira na cabeça. Ao invés de cair, no entanto, ele grita de dor. Por trás, um dos encapuzados se espanta com a resistência do homem, e continua surrando-o com um taco de baseball. Danton se joga ao chão, pega sua carteira, que tinha caído das mãos do chefe, e aproveita para fugir dali engatinhando por baixo das mesas. Os outros dois ladrões chegam na sala e ajudam no espancamento, esquecendo-se de Danton por um momento. Rastejando, ele sai por uma porta de serviço, mas é visto pelos encapuzados.

Danton chega até um corredor interno, se levanta esbaforido e atravessa correndo a primeira porta que encontra, com os três ladrões um pouco atrás, na sua cola. Ele percebe que entrou na sala de projeção de um dos cinemas do shopping, que está com os aparelhos ligados. Pelo buraco do projecionista, Danton vê Nil e Pepe assistindo a um filme, absolutamente sozinhos, gargalhando efusivamente e comendo pipoca com estardalhaço.

– Ei, caras! Me ajudem! – Grita ele, desesperado.

Os faxineiros olham para trás e veem Danton acenando da sala de projeção. Ele desce pela escada lateral que dá acesso às poltronas, mas não encontra mais Nil e Pepe, restando apenas um saco de pipoca derramado:

– Filhos da puta!

Danton vê os ladrões chegando à sala de projeção, e percebe que eles já o avistaram. Apavorado, ele sai do cinema pela porta principal, e os encapuzados o seguem, descendo pela escada lateral.

Assim que ele sai do cinema, no entanto, uma mão feminina agarra Danton por trás, pela boca, e o arrasta até a cabine de uma máquina de fotografia automática, apertadíssima. É Gabrielle. Ela fecha a cortina, se apertando ao corpo de Danton, pedindo silêncio com o dedo na frente dos lábios. Danton se espanta com a iniciativa, mas decide fazer o que ela manda.

– Não precisa me explicar nada. Eu sou louca. – Sussurra Gabrielle, encaixando-se em Danton.

O lugar é realmente apertado. Eles se espremem entre os botões de controle da máquina, tentando se manter em silêncio. Os ladrões saem do cinema e começam a procurá-lo. Gabrielle tem um olhar safado, enquanto se esfrega em Danton, montada em cima dele. Os encapuzados procuram em volta e passam bem perto da máquina. Com movimentos sutis e ritmados, o olhar de Gabrielle e Danton revela que os dois estão quase em êxtase. Os ladrões começam a se afastar do local, mas um deles escuta um gemido de mulher. Danton arregala os olhos, e tapa a boca de Gabrielle com a mão.

O encapuzado volta até a cabine de fotografia e abre a cortina, mas eles já não estão mais lá. A máquina está ligada, e começa a imprimir fotos de Danton e Gabrielle fazendo sexo. O ladrão pega uma das fotos e fica muito puto. Ele escuta os passos do casal, que já está fugindo por um corredor, e parte atrás deles. Gabrielle vê a luz de um elevador se acendendo, e grita para que Danton a acompanhe:

– Ali!

A porta do elevador se abre, e Gabrielle entra. Mas alguém chamou o elevador em outro andar, e a porta começa a fechar. Ainda resta uma brecha para Danton, que se arrisca num pulo. Mas ele não consegue impulso suficiente, e apenas seu braço entra na cabine do elevador. O sensor da porta não funciona, e Danton percebe que vai acabar tendo o braço decepado. Gabrielle tenta puxá-lo para dentro, mas ele grita para que ela desista:

– Me larga! Me larga, porra!

O elevador sobe com Gabrielle. Danton está machucado, caído na frente do elevador, gemendo de dor. O ladrão chega devagar, com o taco em punho, e o ameaça:

– Me dá a porra da joia, cara!

Ainda caído, Danton retira o saco do bolso e estica a mão para entregar a joia ao ladrão. Sem que este perceba, Danton vê o chefe de segurança, muito ferido, chegando por trás para atingir o encapuzado com um extintor de incêndio. Mas o chefe não tem forças e cai em cima do ladrão, que se assusta. A porta do elevador se abre novamente, e Danton entra. O encapuzado não consegue segui-lo:

– Merda! – Grita o ladrão, batendo na porta do elevador, antes de chutar o corpo do chefe de segurança caído no chão.

Danton assiste à cena pelo vidro do elevador panorâmico. Ele se encosta na parede e respira ofegante. O elevador para no andar de cima e Danton sai dali gritando por Gabrielle, sem encontrá-la. Para seu desgosto, quem está no local é Jorginho, de arma em punho, gritando em sua direção:

– Parado aí! Coloca as mãos na cabeça!

Danton levanta as mãos para o alto e tenta alertar o guarda:

– Tão roubando o shopping, cara! Você precisa acreditar em mim!

– Cala a boca, porra! – Ordena Jorginho, mirando Danton.

A luz do elevador se acende novamente. Quando a porta se abre, o ladrão se vê diante do segurança apontando a arma, mas não vê para quem. O encapuzado não hesita e dá uma porrada certeira na cabeça de Jorginho, que cai desmaiado. Danton foge correndo. O ladrão larga o taco, pega a arma e segue atrás dele.

Quando escuta o som do primeiro tiro, Danton percebe que não tem muitas opções. Para se proteger, ele entra no mesmo banheiro onde ficou preso no início daquele pesadelo e tenta fechar a porta, mas o encapuzado mete o pé na fresta para impedi-lo. Eles ficam se empurrando e Danton vê o arame que usou para destravar a fechadura, caído no chão. Ele pega o pedaço de ferro e atravessa o pé do ladrão, que urra de dor. Em desespero, o encapuzado dá mais alguns tiros, mas Danton esmaga sua perna batendo repetidamente a porta contra ela, até que o sujeito desmaia, com a perna fraturada e o pé jorrando sangue.

Danton sai do banheiro e vê o ladrão caído ao lado da porta. Ele pega a arma no chão e retira o capuz que cobre o rosto do sujeito. Para sua surpresa, trata-se de Junior, um dos jovens bombados que o espancou naquele mesmo banheiro. Cheio de confiança, Danton coloca a arma na cintura e parte em direção ao corredor, sem perceber que o pente da pistola se soltou na queda, e repousava ao lado do sujeito desmaiado. Após alguns minutos, Danton vê outro encapuzado correndo em sua direção, perto da lixeira. Sem pestanejar, ele saca a arma e faz a mira. O ladrão dá um passo para trás, com medo.  

– Não, não, não, não… – Repete Danton, cheio de autoridade, gesticulando para que o homem se aproxime.

O encapuzado larga o taco e se aproximar devagar, com medo. Danton ordena:

– Mão na cabeça! Mãozinha na cabeça! Isso, vem pra cá. Joelhinho no chão!

O ladrão se ajoelha em frente a Danton, com as mãos atrás da cabeça.

– E agora, babaca? Cadê aquela valentia toda? Hein? Não sabe não? Tá aqui, ó! – Danton dá uma joelhada na cara do sujeito, com raiva.

O homem cai no chão. Danton aproveita e lhe aplica mais um chute, e outro. O encapuzado se contorce de dor.

– Tá doendo? Levanta, filho da puta. Levanta de novo! – Grita Danton.

Com alguma dificuldade, o ladrão se coloca de joelhos novamente.

– E agora, o que eu faço contigo? – Danton arranca o capuz de Duda e encosta o cano da pistola em seu rosto: – Podia muito bem te dar um tiro na cara! Só que eu não vou fazer isso não…

Danton hesita por um momento, levantando a arma. Olhando por baixo do cabo, Duda percebe que falta o pente na pistola. Lentamente, ele começa a se levantar. Danton se espanta com a ousadia do ladrão:

– Ei! O que é isso? Tá ficando maluco? De joelho, porra! Tá achando que eu não vou atirar?

Duda faz que não com a cabeça.

– Ah, não?! Meu irmão, se não ajoelhar agora tu vai virar história!

Calmamente, Duda faz um gesto como se estivesse segurando uma arma, e indica o local do pente. Danton não entende, e aponta a pistola com mais fúria. Duda enfatiza o gesto. Danton finalmente entende o recado quando aperta o gatilho e nada acontece.

Fodeu! Não havia nenhuma bala na agulha, e ele estava sem munição.

[Continua: IX. Depois do Shopping]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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