Distribuição de Guerrilha (Dia de Preto)

Distribuição de Guerrilha (Dia de Preto)

Dia de Preto não teve dinheiro público em sua produção. Como mencionei em um texto anterior, o filme foi financiado exclusivamente por recursos privados dos produtores. Na etapa de distribuição, não poderia ser diferente. Quando a obra foi finalizada, a primeira parte da estratégia de lançamento consistia, na verdade, no objetivo principal do projeto: a exibição em festivais. Já naquele momento, como servidores da ANCINE, não tínhamos expectativa em contar com a parceria de alguma empresa distribuidora, regulada pela Agência. As chances de exibição comercial em salas de cinema eram remotas.

Em outubro de 2011, a estreia do filme para o público não poderia ter tido uma tela melhor: Dia de Preto entrou na programação oficial do Festival do Rio, na Mostra “Novos Rumos”. Contando com exibições na Cinemateca do MAM (onde aconteceu a Premiére), no Estação Vivo Gávea, no Cinema Nosso da Lapa e no Ponto Cine de Guadalupe, a obra contou com um bom público durante as sessões.

Logo em seguida, o filme foi selecionado para diversos festivais, no Brasil e no mundo. Entre eles, o Festival Internacional do Uruguai, o Chicago Latino Film Festival, o Cine Las Americas, no Texas, o Pineapple Festival em Hong Kong e o PUFF de Portugal. No Festival de Petrópolis de 2011, vencemos os prêmios de Melhor Trilha Musical (João Viana, Nado Zicker e Denis Porto) e Melhor Ator (Marcelo Batista). No Festival de Maringá, em 2012, ganhamos o prêmio de Melhor Direção. No mesmo ano, Melhor Fotografia (Marcos Felipe e Gustavo Nasr) no Festival Guarnicê de São Luís, Maranhão; Melhor Trilha Musical no Sunset Film Festival de Los Angeles e Melhores Efeitos Especiais no Maverick Movie Awards de Hollywood, entre outros.

Entre críticas positivas e negativas, mas nunca indiferentes à obra, o filme cumpriu com sucesso sua carreira no circuito de Mostras e Festivais. Com um detalhe: a versão exibida àquela altura era uma espécie de “Director’s Cut”, quase sem diálogos, contando apenas com cartelas que davam “nomes” aos personagens, todos eles inspirados em clichês e estereótipos clássicos do cinema. Para o lançamento comercial em salas de exibição, decidimos que o filme deveria ganhar uma narração em “off” do personagem principal, de forma a torná-lo um pouco mais acessível para um público diferente.

E foi assim que voltamos à etapa de desenvolvimento, criando o texto que seria gravado em um estúdio improvisado na casa do Marcos Felipe, e novamente à ilha de edição, posteriormente, quando as cartelas de personagem foram substituídas pelas “cinco verdades da liberdade”:

  1. Rapadura é doce, mas não é mole não.
  2. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.
  3. Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas.
  4. Quem tem cu, tem medo.
  5. Fodido, fodido e meio.

Numa mistura de ironia e profecia, as cinco sentenças explicavam e antecipavam a dificuldade que teríamos em conseguir espaço no circuito de salas comerciais. Sem contar com a parceria de nenhuma distribuidora, a solução foi negociar diretamente com os programadores de pequenos cinemas espalhados pelo Brasil. A versão comercial do filme estreou em novembro de 2012, na semana da Consciência Negra, em apenas sete salas: Cine Sesc Rioshopping (onde tínhamos filmado), Cine Joia, Ponto Cine e Cine Itaipava, no Rio de Janeiro; Centro Cultural SESI, em Maceió; Cine XIV, em Salvador, e no Instituto NT de Cinema e Cultura, em Porto Alegre. Além delas, também conseguimos sessões especiais no Museu de Imagem e Som de São Paulo e no Cinema Usiminas Belas Artes, em Belo Horizonte.

No ano anterior, logo após a exibição em festivais, tínhamos licenciado a obra para exibição em TV Paga pelo Canal Brasil, e direcionamos toda a verba para a comercialização do filme. Mas, com apenas esse apoio pontual de mídia e poucos recursos para divulgação (além dos custos com as matrizes digitais e transporte, produzimos alguns cartazes e um banner que jocosamente apelidamos de “P&A”), o filme ficou poucas semanas em cartaz. Para nós, entretanto, o lançamento comercial, por si só, já tinha sido uma vitória.

A duras penas, completamos todo o ciclo de vida de uma produção audiovisual, do desenvolvimento à distribuição. Foram verdadeiras aulas, muitas com gosto amargo, mas que deixaram uma marca indelével em cada um de nós. Hoje, o filme se encontra disponível gratuitamente no Youtube, onde já foi assistido por cerca de 48 mil usuários da plataforma. Uma carreira digna do projeto idealizado inicialmente por três cineastas estreantes, amantes do cinema por vocação, e servidores da máquina pública por ofício.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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