Produção de Guerrilha (Dia de Preto)

Produção de Guerrilha (Dia de Preto)

Como já relatei anteriormente, do ano de 2000, quando foi publicada a aprovação do projeto “Depois do Shopping”, até meados de 2003, eu, Daniel Mattos e Marcos Delfino empreendemos esforços de captação através do Art. 1º da Lei do Audiovisual que se revelaram infrutíferos. Na época, eu já trabalhava como produtor na TV Globo, Daniel seguia carreira como professor de Comunicação Social e Marcos atuava como diretor de filmes publicitários. A frustração com os mecanismos de incentivo disponíveis, no entanto, não reduziu a nossa vontade de realizar um filme de longa-metragem.

Os anos de 2004 e 2005 foram dedicados a uma reformulação total do projeto. Afinal, a falta de acesso aos recursos públicos impedia a realização do desenho de produção anteriormente idealizado. Mais do que isso, caía por terra a intenção de produzir um filme de comédia adolescente, seguindo uma lógica comercial, completamente voltada para o mercado. Decididos a financiar com recursos próprios a produção, também definimos que o público-alvo teria de ser alterado, já vislumbrando as dificuldades na etapa de distribuição da obra. O novo projeto seria orientado para o segmento de mostras e festivais.

Do projeto antigo, foi mantida a intenção de se rodar o longa em poucas locações. Através do contato com a ACIJA – Associação Comercial e Industrial de Jacarepaguá, tínhamos conseguido uma parceria com o Rioshopping, estabelecimento comercial situado no bairro. Pesquisando sobre a área onde o shopping estava localizado, chegamos à história do primeiro negro escravizado alforriado no Brasil. Uma lenda misteriosa, que envolvia um senhor de engenho e uma vaca perdida. Para se livrar de uma punição por ter perdido o animal, o homem teria pedido ajuda à Nossa Senhora. Com ajuda da Santa, ele achou a vaca e ganhou sua carta de alforria. Tínhamos achado nosso protagonista.

Assim nasceu o projeto “Dia de Preto”. Adaptando a lenda para os dias de hoje, o roteiro se transformou numa aventura fantástica que misturava presente e passado, malícia e fé, prisão e liberdade.  Nosso homem, agora, seria o motorista de um patriarca moderno, envolvido com a filha do patrão e o roubo de uma peça sagrada. Noventa por cento da obra seria realizada em locações no próprio shopping, mas teríamos um grande desafio em recriar cenas do século XVII para o resto do filme.

Também foi mantida a estrutura, inspirada no filme “Depois de Horas”, de Martin Scorsese, de que toda a trama se passaria em uma única madrugada alucinante. Decisão providencial, uma vez que teríamos liberdade para captar as imagens após o fechamento do estabelecimento comercial. Além disso, como nós três realizadores tínhamos empregos regulares na época, restavam as noites e madrugadas para projetos pessoais paralelos. Com o novo roteiro finalizado, o início do ano de 2006 foi reservado para a produção de uma decupagem detalhada da obra, parte em storyboard, parte em vídeo, na forma de um “monstro” que serviu de base para todo o trabalho posterior.

O elenco foi bastante reduzido. Além do protagonista, vivido por Marcelo Batista (vencedor do prêmio de Melhor Ator do Festival de Petrópolis), contávamos apenas com mais nove profissionais que apareciam na tela: Guilherme Almeida (o vilão do filme), Paulo Abreu (o senhor de engenho), Vanessa Galvão (a filha do patrão), Ricardo Bonaverti (o chefe de segurança, indicado ao prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Maverick Movie Awards), Raul Ferreira (um “parasita” que morava nos subterrâneos do shopping) e os capangas vividos por Andrea Cassali, Naiara Hawaii, Heráclito Junior e Deivid Araújo.

A equipe foi composta pelos amigos que toparam participar da empreitada, pelo crédito e pela experiência, mais um time enxuto de técnicos de maquinária e elétrica contratados para o projeto. A maior parte do equipamento de câmera e set foi fornecido por um coprodutor, Mario Nakamura, da produtora Cinerama Brasilis, parceiro desde a época do curta-metragem “O Bolo e o Queijo”. Outra parte foi conseguida junto à Mattedi, graças ao importante apoio do Sr. Aylton, fundador da empresa. Para a alimentação, tivemos a parceria da RICA Alimentos e de um dos restaurantes do shopping (Tacacá).

Assim, com base em outros apoios e permutas para Arte e Figurino, o orçamento do projeto foi reduzido para um valor que poderíamos custear com recursos do próprio bolso. Em setembro de 2006, entramos na etapa de produção, passando as noites e madrugadas de finais de semana e feriados no Rioshopping, o que se estenderia até o início de 2007. No fim deste mesmo ano, tivemos uma segunda fase de filmagens, custeada pela produtora associada Ursula Wetzel, numa fazenda da região de Ipiabas, Conservatória (RJ), para a captação das cenas recriando o Século XVII.

Foi uma experiência ao mesmo tempo emocionante e extenuante. Mas, se a fase de produção deixou marcas que carregamos até hoje, as etapas de pós-produção e distribuição se revelariam ainda mais árduas e desafiantes, culminando com o lançamento do filme em salas de cinema em novembro de 2012, cerca de seis anos após o primeiro take. Literalmente, uma produção de guerrilha.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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