IX. Suco, Coca, Fanta e Siprite
Antes: VIII. Uma Luz que Nunca se Apaga
Quando Filho foi convidado a se retirar do clube pela segunda vez em dois dias, ainda pela manhã, Mari deu-lhe um ultimato:
– Dessa vez eu vou ficar. Quem foi expulso foi você, que só sabe arrumar confusão.
– Coé, gata… O cara exagerou.
– Exagerou? E se fosse um desconhecido bebendo o seu refrigerante?
Filho fez algum esforço para tentar simular mentalmente a situação, mas parece não ter conseguido:
– Eu não daria mole com minha Coca-Cola.
Mari suspirou impaciente, respondendo:
– Você tem de andar com aqueles seus amigos malucos.
Ela então deu-lhe as costas e voltou pro clube. Olhando tudo de uma mureta na área da piscina, Pedro ria na direção de Filho e apontou para a própria boca, articulando bem as palavras sem emiti-las:
“SE FODEU! SE FODEU!”
Dentro do clube, Pedro e as meninas voltaram à mesa, onde passariam o resto da manhã. Ele então perguntou ao garçom quais bebidas havia no cardápio, sendo prontamente atendido:
– Tem suco de laranja, coca, fanta e siprite.
– O quê? – Malentendeu Pedro, erguendo uma das bochechas.
– Suco de laranja, coca, fanta e siprite.
– Quê? – Insistiu Pedro, cada vez mais confuso.
– Que o quê? – Devolveu o garçom.
– Essa última bebida aí… Siprite. Quê isso?
– Siprite, de limão.
Pedro finalmente entendeu e começou a gargalhar. Foi a vez do Garçom entender porra nenhuma. Mari olhou sério para o ex-namorado, censurando-o. Lembrou-se que Pedro podia ser tão ou mais irritante que seu irmão Martin quando se tratava de humilhar pessoas incultas, incluindo os próprios amigos. Ele se recompôs:
– Desculpa, irmão. Traz pra mim um Siprite.
Quando Zoila e Roserite retornaram à casa da Medeia com várias marcas triangulares de pé-de-pato formando hematomas pelo corpo, os demais convidados nem peceberam. Ou, se perceberam, não se importaram. Talvez porque tivessem coisa mais importante para dar atenção no momento: exatamente quando chegaram, um deles estava agarrando a dona de casa pelos cabelos, enquanto desferia socos em seu corpo com a outra mão.
– Piranha! – Gritava pela sala o homenzinho barrigudo e meio calvo, que já devia ter passado dos quarenta, enquanto arrastava e agredia a namorada de Zoila, para o olhar atônito dos demais.
Zoila não estava atônito. Partiu com fúria assassina na direção do sujeito, que logo percebeu a ameaça e largou Medeia, fugindo para fora da casa, onde se trancou no carro. Zoila foi atrás dele e começou a bater violentamente no vidro:
– Sai daí, filho da puta. Sai daí que eu vou te encher de porrada.
Com expressão de terror, o careca se encolhia no banco do carona, temendo pelo pior. E o pior veio. Zoila pegou uma das pedras que enfeitava o jardim e estilhaçou o vidro do carro. Levantou o trinco, abriu a porta e passou a agredir o sujeito, que aquela altura já se encostava na porta do motorista tentando dar coices para se defender. Zoila então agarrou o cara pela barra da calça e o arrancou para fora, iniciando uma sessão de espancamento que felizmente (para o cara) logo foi interrompida:
– Filho da puta! Você quebrou o vidro do meu carro! – Gritou Medéia whathatfuckamente, aparentemente recuperada da surra que tinha acabado de levar.
– Eu pago essa merda – Respondeu Zoila ao seu estilo, falando sempre baixo e calmamente enquanto agia como um troglodita.
– Vai pagar o caralho! Tu é moleque! Seu merda!
– Eu avisei que essa molecada ia dar confusão… – Meteu-se o cara que há minutos socava a dona da casa.
Frente ao absurdo da situação, Zoila não deu mais corda à discussão:
– Bora, Roserite…
Roserite já não estava mais por ali há muito tempo. Medéia continuava histérica:
– Isso! Mete o pé daqui! Vaza! – Gritava ela enquanto entrava na casa. Minutos depois, voltou com as mochilas de Zoila, Kitz e Roserite e arremessou pela janela. Numa segunda viagem, jogou também as pranchas e pés-de-pato.
Como não tinha como carregar tudo aquilo, Zoila pegou as mochilas, sua prancha e pé-de-pato, e saiu a pé em direção à casa que o pai de Martin tinha alugado. Lá, encontrou Filho, que já estava puto, mas ficou ainda mais revoltado quando percebeu o prejuízo que o amigo tinha tomado.
– Caralho, leque! Tá só o pó da rabiola, hein? O que houve?!
– Muita coisa. Os caras pegaram a gente lá naquela praia, e depois eu peguei de porrada um cara lá na Medéia.
– Então bora voltar lá pra pegar eles!
– Esquece. Era um bonde grande, e já devem ter metido o pé de lá. Tô mais preocupado que a filha da puta me expulsou da casa dela. Cadê o Martin? Vou deixar essas coisas aqui por enquanto. – Lamentou Zoila, encostando as mochilas e prancha na garagem da casa.
– E o Rosera?
– Deve tá lá ainda. Ficou bem fodido também…
– Kitz?
– Tá no clube. Quando me botaram pra fora, ele tava conversando com uma coroa gata.
– Filho da puta.
Àquela altura, Kitz já não estava mais no clube. Tomava um daiquiri na piscina de borda infinita de uma mansão espetacular de frente para a praia, onde a coroa estava hospedada. Ela era divorciada, advogada de uma construtora, e a casa era de seu patrão. Kitz parecia já completamente enturmado com o velho e seus amigos da alta roda, e também tinha certeza que o coroa estava empurrando na funcionária, como ele gostava de dizer quando não estava fingindo, o que não era o caso:
– Prefiro um Gold Label, com certeza. Jack Daniels até serve de aperitivo, mas um tennessee sempre me deixa com a garganta seca.
Continua…

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