X. A Catumoila do Maluco

X. A Catumoila do Maluco

Antes: IX. Suco, Coca, Fanta e Siprite

Roserite acendeu mais um charuto enorme de maconha polvilhada com lascas de haxixe, deu dois tragos profundos e passou ao velho moleque, que continuava uma explanação supostamente profunda sobre uma tal civilização siméria, ou sumária, algo do tipo. Segundo o idoso de 31 anos, o povo de lá foi criado por engenharia genética, coisa de 50 mil anos, ou 50 milhões, ele não tinha muita certeza. Desde que Zoila tinha sido expulso da casa pela Medéia, ele e o boca mole se instalaram na suíte dela, onde ficava a gaveta das drogas.

Só naquela tarde, ela já tinha entrado e saído do próprio quarto umas cinco vezes, sempre estressada, mas se acalmava quando recebia alguma dose. Roserite nem estranhava mais o fato de que ela parecia não se importar que ele continuasse por ali. Talvez nem lembrasse que ele era um dos amigos de Zoila. A casa recebia cada vez mais convidados, a sujeira começava a se espalhar por todos os cômodos, alguns móveis estavam danificados, e o vidro do carro quebrado. Mas ele enfim se sentia tranquilo. Seguro até. Talvez fosse o cogumelo mágico que tinham comido horas atrás. Talvez. Fato é que mal tinham acabado de levar uma surrra, e Zoila já queria arrastá-lo pra outra confusão. Tá maluco.

No início da tarde, Pedro e as meninas voltaram para casa, anunciando a agenda do fim de semana: à noite haveria um ensaio de bateria do bloco de carnaval do Montanha Russa, que também tocaria na festa de Revéillon, na terça. Sábado, Luau na Praia Grande, a mais badalada da região, com DJ e shows ao vivo. E domingo era o dia da tradicional matinê do clube, a última do ano, abrindo o verão.

– Como vocês ficaram sabendo de tudo isso? – Bolou Filho.

– O filho do bicheiro que convidou. – Informou Pedro.

– Hã?

– O cara é dono do bloco de Carnaval. – Explicou Babi, tomando a liderança da conversa: – Vai liberar o VIP pra mim e pra Cris. No bloco, no Luau e na matinê. Ele chamou a Mari também, mas ela não quis. – Disse as últimas palavras em tom sarcástico, sorrindo para Filho.

– Sem falar nos carinhas da banda… – Espetou Pedro.

– Que band…

– Shhh… – Interrompeu Babi, antes de finalizar, retirando-se para o quarto: – Eles não têm nome ainda. Na verdade, são só três amigos que tocam juntos. Vocês não conhecem. Primeira vez deles aqui no Montanha Russa. Se quiser detalhes, fala com a Cris. Ela conversou bastante com eles.

Cris corou. Das três amigas, era a mais tímida. Mas também era linda, e os carinhas da banda logo perceberam que a irmã de Zoila tinha uma inteligência e maturidade acima da média.

– Babi tá exagerando… – Sorriu Cris, acrescentando: – É uma galera diferente. Estão fazendo faculdade no Rio. Só tem jovens no grupo que alugou a casa. E eu conheci três deles hoje no clube. Muito simpáticos.

– E? – Insistiu Filho.

– E na segunda vão fazer um som na casa deles. Festa privê, entenderam? Eles só convidaram eu e a Babi.

– E a Mari! – Gritou Babi do quarto.

– E a Mari. – Confirmou Cris.

– Não tem a menor condição de vocês aparecerem na casa dos caras. – Decretou Mari, que até então apenas assistia à conversa, ainda bem irritada com o namorado: – Eu não vou pra área VIP, nem festinha privê, mas vocês malucos também não vão.

A irmã de Martin era firme e decidida, desde criança. Mas também era meio impulsiva, e emotiva. Chorava em finais tristes e finais felizes. Não era barraqueira como Babi, mas sabia se defender.

– E Guilherme… Avisa pro Rafa e pro Alexandre que vocês podem usar o banheiro de serviço aqui da casa pra tomar banho. Mas depois vocês têm que ir embora.

Filho deu-se por satisfeito. Acatava de Mari ordens que não receberia de mais ninguém. Pedro a idolatrava. Estava sempre perto das meninas, e toda aquela conversa confirmava a ele que elas jogavam no modo easy de socialização. Além do que, imaginava com autêntica admiração, elas deveriam estar vivendo ali naquele mesmo tempo suas próprias histórias, onde ele, Martin, Filho et caeterva seriam apenas figurantes, quiçá coadjuvantes.

Já Zoila estava quieto, era um bicho ferido e acuado. Ele e Filho também remoíam sem parar os últimos revezes, jurando vingança contra nem sabem quem. Já era quase noite quando Kitz apareceu, com sua habilidade invejável de alterar o clima de qualquer ambiente (para o bem e para o mal):

– Estourei a boa, moleeeeeque!

Enquanto torravam um, dois, três baseados, os amigos passaram um bom tempo rindo das peripécias do aprendiz de con artist, e da surra que Roserite e Zoila tinham levado. Além da briga posterior que os tinha tornado desabrigados.

– Cadê minha prancha? – Perguntou Kitz, enquanto revirava a mochila para pegar uma muda de roupas.

– Tá lá na Medéia, com o Roserite. – Respondeu Zoila.

– Porra, então vou lá buscar. E o Martin?

– Ainda não voltou. Negócio deve tá bom pra ele.

Kitz se aproximou sorrateiramente da casa de Medéia e se assustou com o rápido descontrole da situação. O som estava alto, tocando a porra de um samba-enredo, e a maioria das pessoas ali estava completamente chapada, espalhada pelos cômodos. Na cozinha, uma panela tinha sido esquecida no fogo, e já começava a fumegar, com risco real de incêndio. Ele rapidamente desligou o bocal do fogão. Pensou melhor. Resolveu desligar o registro de gás da casa, ou aquilo certamente iria explodir em algum momento.

Procurou Roserite no quarto onde dormiram na primeira noite, mas só encontrou outro punhado de zumbis que fumava crack numa latinha. Nada nos demais quartos de cima. Restava a suíte da Medéia. Quando Kitz entrou, a mesma estava nua no centro da cama Super King Size, dormindo ou desmaiada. Ao seu lado, também pelados e apagados, Roserite e o cara da árvore. Colado numa parede, com durex, ele encontrou um papel que parecia conter uma mensagem:

FALA!!! FILHO, a catumoila que eu falei não tinha mais, então eu peguei com o ‘Babysauro’ essa catumoila que é o mesmo do maluco. Se você quiser 50 ou 100 eu pego com o maluco que só tem 50 e 100. Caso haja alguma coisa de errado fale comigo aqui no colégio valeu. Um abraço. Obs: após a leitura deste documento ele se autodistruirá

Aquela letra era do Roserite. Kitz decifrou o básico para saber que devia procurar a tal catumoila. Era uma prensa de 25 gramas de maconha, devidamente acondicionada no bolso da bermuda largada no chão. Não havia mais o que fazer ali. De posse da catumoila, ele saiu da casa e ainda teve que empurrar o barrigudo calvo, que àquela altura fazia sua prancha de travesseiro, para sair dali com tudo o que precisava.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

Deixe uma resposta