VII. Porra é essa de Farnanga?
Durante o trajeto de volta ao Montanha Russa, o novo amigo de Zoila finalmente soltou a língua, falando sem parar sobre os mais diversos motivos, dos científicos aos mais esotéricos, para o swell não ter entrado. Agora era Filho quem dirigia o carro da Medéia, porque Zoila e Roserite tinham decidido ficar na praia. Dava pra voltar a pé em uma caminhada de meia hora, no máximo.
Àquela altura, ninguém mais levava a sério o velho moleque, e a troça com sua forma peculiar de fala já estava consolidada. Filho ria sem parar, imitando cada gíria e vogal eterna nas enunciações do cara. Já a zoeira de Kitz, sentado no banco de trás do carro com um sorriso de escárnio no rosto, era bem mais irônica, agressiva até:
– Mas me diz aí, meu irmão. Até agora eu ainda não sei se tu é novo, velho ou de meia-idade.
– Coé, brother… Tenho 31 só. Esse cabelo branco é por…
– Caralho, leque. Tá fudido, hein? – Interrompeu Kitz, esperando pelo menos uns cinquenta.
No outro canto da praia paradisíaca, Zoila e Roserite avistaram um grupo de pessoas que parecia se divertir. Caminharam até lá pela areia e decidiram sentar em um tronco de árvore caído a uma dezena de metros dos banhistas. Parecia o lugar perfeito para torrar um beck. Menos. Qualquer lugar era perfeito para torrar um beck. Dali, podiam ver que também era uma galera jovem, talvez já na casa dos vinte. E tinha umas gatas. Porra, até que aquela praia não era tão biquilha.
Na metade do baseado, passaram a se divertir rindo de alguns caras que tentavam usar pranchas de bodyboard para deslizar na areia molhada à beira-mar, o que eles conheciam como “marisquí”. No posto 9 do Recreio, Rio de Janeiro, costumavam fazer o mesmo quando mar estava storm, impossível de varar a arrebentação. Mas nesta condição havia ondas quebrando na beira, algumas bem violentas, o que conferia alguma emoção à brincadeira. Roserite voava alto com a prancha em aéreos suicidas que facilmente poderiam terminar numa cadeira de rodas.
O que eles viam à sua frente era bem diferente. Sem muito jeito, alguns dos caras acabavam ralando o peito na areia quando a prancha encalhava, proporcionando algumas acrobacias involuntárias vergonhosas. Conforme o beck ia queimando, as risadas foram ficando mais altas. A brasa estralando, barrigas queimando, e zoeira ganhando vocalização:
– Caralho, muito farnanga…
– Puta que o pariu! Aquele ali se fudeu!
Obviamente Zoila e Roserite não perceberam, mas por trás deles apareceram três caras, que certamente conheciam o resto da turma na praia, nem um pouco satisfeitos com aquilo.
– Porra é essa de farnanga, meu irmão! Tá rindo de quê? – Intimou um dos sujeitos, que trazia dois pés-de pato numa mão.
– Coé brother, nada a ver, tamo rindo de vocês não… – Tentou amenizar Roserite.
– Tão rindo de quem então?
– Da tua mãe. – Mandou Zoila, na lata, antes de receber um golpe forte de pé-de-pato na cara, desferido pelo seu interlocutor.
Enquanto isso, já de volta ao Montanha Russa, Filho deixou o carro e o cara da árvore na casa da Medéia, e seguiu com Kitz para o clube, pra ver “como estavam as coisas”. Lá, encontraram Mari e as meninas em uma das mesas à beira da piscina, e ficaram sabendo da circular que tinha sido encaminhada para todas as casas, alertando para a presença de delinquentes indesejáveis no condomínio.
Babi avisou que o síndico parecia puto quando saiu bufando da reunião no clube, mas Kitz já estava mais atento a uma coroa deliciosa que ele manjou estar sozinha em uma das mesas do outro lado da piscina. Enquanto conversavam sobre a repercussão do picolé de fogo, Filho vez ou outra bebericava um copo de Coca-Cola na mesa ao lado, que obviamente não fazia parte do grupo das meninas. Quando o dono do refrigerante percebeu o acinte, ficou muito puto, com toda a razão:
– Que porra é essa, mermão! – O cara, que era forte, muito alto e bem mais velho, levantou da cadeira indignado, se aproximando do adolescente abusado.
– Coé, brother. Deixa de ser mesquinho. Só dei um golinho .– Respondeu Filho, também se aproximando do cara, mas já com as mãos semi levantadas, seguindo a cartilha Cobra Kai.
Dessa vez, porém, os seguranças do clube já estavam ligados, e intecederam rapidamente antes de qualquer altercação. Mais uma vez, Filho foi convidado a se retirar. Da próxima, avisaram os seguranças, o banimento seria eterno. Já sentado na mesa da coroa, Kitz observou a confusão de longe, enquanto elogiava a saída-de-praia de alguma marca esnobe que a mulher ostentava. Tinha aprendido muito sobre isso quando trabalhou de vendedor na loja Yes Brasil do Barrashopping.
– São seus amigos? – Perguntou a coroa, se referindo ao tumulto no outro lado da piscina
– Não. Sou convidado da diretora de um grupo escolar que tem uma casa aqui, entre outras.
Já na praia que não parecia mais tão paradisíaca, a briga que se seguiu foi bem desigual. Além da desvantagem numérica, os rivais estavam armados com pés-de-pato. Por sorte não tinham muita experiência em porrada. Roserite também não, era um pacifista. Compulsoriamente pacifista, como gostava de zoar Martin. Zoila não. Com pavio curtíssimo, era um dos principais discípulos de Fernando Pai, mestre porradeiro de todos eles desde crianças.
Filho nutria uma admiração reverencial pelo pai, que era maçom, tinha sido campeão sulamericano de greco-romana, lutou no boxe amador e em eventos clandestinos de vale-tudo. Além de colecionar amantes, só no sapatinho. Em quase todo fim de semana, Fernando pai levava os moleques para um sítio no Valqueire, onde havia um tatame, ringue e academia em que os pesos eram soldados aos ferros. Ou você suportava a carga, ou nem tentava. Ali, o pau comia, a criança chorava e a mãe não via.
Já completamente marcados e surrados pelas nadadeiras, Zoila e Roserite viram, com certo desespero, que o resto do grupo, os barriga-vermelha, já estavam correndo na direção da briga. Eram pelo menos mais quatro cabeças. Sem pestanejar, Roserite deu a rota, se embrenhando pelo mato que subia por uma encosta pedregosa na direção da estrada principal. Zoila tomou o mesmo rumo, sangrando pelo nariz. Um dos caras ainda ameaçou segui-los, mas logo se deu por satisfeito ao perceber que aquela subida íngreme já era um castigo suficiente. Quase uma hora depois, completamente puídos, Zoila e Roserite alcançaram a estrada. Caminharam por mais cerca meia hora até o Montanha Russa, sem trocar uma palavra. A praia paradisíaca tinha mijado na cara deles.

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