VIII. Uma Luz que Nunca se Apaga

VIII. Uma Luz que Nunca se Apaga

Antes: Porra é essa de Farnanga?

Na estrada curvilínea que acompanhava o litoral, Martin e Fabiana estranhamente conversaram de tudo um pouco, menos do que estavam prestes a fazer. Ou de tentar fazer, para ser mais exato. No toca-fitas, agora eles ouviam There’s a light that never goes out, do Smiths, e quando passaram por um túnel ele jurou para si mesmo que dessa vez não teria medo e nem perderia a chance:

– Quer ficar comigo?

– Já não estamos ficando?

– Você entendeu.

Fabi corou com aquele sorriso lindo com covinhas, mas desviou o olhar em direção à janela. Quando retornou, sua expressão já estava bem mais parecida com a de uma menina de dezesseis anos tentando segurar a emoção de talvez encontrar o pai que ela não via desde os dez.

– Acho que tá indo rápido demais. Tô com um pouco de medo. Anteontem eu nem conhecia você, e hoje tô contigo num carro tentando achar meu pai…

Martin entendeu na hora. Talvez tivesse se precipitado, mas agora não tinha importância. Teria se arrependido mais se não dissesse. Fabiana continuou se abrindo:

– E eu nem disse nada pra minha mãe…

Se ele fosse o Pedro, tera dado meia volta na hora. Mas não era:

– Você quer mesmo ver seu pai?

Fabi respirou por um segundo.

– Quero.

– Então você vai ver.

O resto da viagem, que durou pouco mais de uma hora, foi em silêncio, ouvindo quase todo o álbum Rattlesnakes, do Lloyd Cole, numa edição que tomava todo lado B de uma fita cassete que Martin tinha tomado emprestado por tempo indeterminado de um amigo de seu pai, surfista das antigas. Ele nunca tinha visto Eva Marie Saint, mas talvez Fabi se parecesse com ela. Quando chegaram ao pequeno balneário, a primeira coisa que fizeram foi tomar um café da manhã na padaria em frente à pracinha da cidade, que parecia o maior comércio do local.

Quando foi pagar a conta, Martin mostrou a foto 3 x 4 do pai de Fabiana e perguntou ao senhor que atendia no balcão se ele conhecia aquela pessoa. O velho tirou os óculos do bolso da camisa, ajeitou nos olhos e deu uma boa olhada na foto.

– Qual é o nome dele?

– Marcos. – Adiantou-se Fabiana: – Ele é meu pai.

– Essa cara não me é estranha…

Martin se animou. Era muita sorte ter alguma pista logo de cara. E mais animado ainda ficou quando viu os olhos da menina ao seu lado, que brilhavam esperança. O velho então acenou para uma mulher de meia-idade que vendia pipocas em frente à praça.

– Mimi! Dá uma olhada nisso aqui…

Ela encostou o carrinho no meio-fio, entrou na padaria e se aproximou do balcão. O velho lhe estendeu a foto.

– Marcos. Conhece?

A mulher também olhou fixamente para a foto por uns segundos, olhou pro velho, para Martin e para Fabiana, e disse:

– Conheço. Mas acho que mora lá pros lados do barro seco…

– E onde fica o barro seco? – Questionou Martin.

– É longe, alertou o velho… – Tem que voltar pra estrada e pegar a próxima saída. Pela estrada da praia esse carro seu aí não vai passar.

– Com certeza. – Reforçou a mulher.

Martin não perdeu mais tempo. Pagou a conta e voltaram correndo pro carro. Teriam a manhã toda pra procurar o pai de Fabi no tal barro seco. Trocou a fita. Agora seria uma coletânea do The Church, começando por Almost with you. Fabi estava radiante, e ele também, murmurando com um sorriso disfarçado aquele verso da música:

“Who you trying to get in touch with?”

O tal barro seco era mesmo seco. Uma estrada de terra poeirenta, estreitíssima, parecia cruzar uma área lagunar de salinas, a perder de vista. Havia algo de espetacular naquele cenário improvável, e ele começou a imaginar o pai de Fabiana como um hippie inimigo da sociedade, vivendo isolado da sociedade numa cabana às margens de uma lagoa, ou então um caipira rude criando galinhas e cheio de filhos.

Quando passaram pela primeira residência à vista no local, uma casa simples às margens da trilha por onde seguiam, cercada por arame farpado, Martin parou o carro. Com seu avô materno, um mestiço migrante da Zona da Mata, filho de índia Puri, tinha aprendido a forma correta de tocar a campanhia em locais do tipo:

– Ô de casa! – Gritou Martin batendo palmas, o que deixou Fabi um pouco envergonhada.

Ele não precisou repetir muitas vezes. Em menos de um minuto, uma velhinha que parecia quase centenária atendeu à porta.

– Oi! Poderia falar um minuto com a senhora?

– Só um cadin, meu fi… – Respondeu a idosa, enquanto se dirigia andando com certa dificuldade até a porteira.

– Conhece esse moço aqui? É Marcos o nome dele.

– Hmm, meu fi… – A velha afastou a foto do olhar, pareceu se esforçar, mas logo desistiu: – Tem que ver com Josete.

– Quem é Josete? – Animou-se Martin.

– Minha fi… Ela mora ali mais na frente, é só seguir.

Na casa de Josete, que atendeu aos jovens cercada de crianças, o papo foi ainda mais promissor:

– Acho que conheço sim… É Marco o nome dele? Esse russo aí mora no caminho da praia. Mas vocês vão ter de deixar o carro na ponte e seguir andando…

– E onde fica a ponte?

– No fim da estrada. É chão, viu?

– Muito obrigado, Josete!

O Kadett já pedia arrego naquela trilha off-road, quando chegaram à tal ponte, que não passava de umas escoras de madeira sobre um pequeno córrego. Adiante, o caminho da praia, que já se anunciava no horizonte. Também já conseguiam ver a casa do pai de Fabi, a única naqueles lados, segundo Josete. Estava sol, fazia calor, já passava do meio-dia, mas nem sentiam. O coração já acelerava. Quando chegaram ao casebre feito de madeira, numa área com chiqueiro e galinheiro, Martin se gabou intimamente da própria intuição.

– Ô de casa! Clap! Clap! Clap!

Não demorou muito, saiu da casa um sujeito corcunda, magrelo, com ralos fiapos louros na cabeça.

– Marco? – Estranhou Martin.

O homem desconfiou, mas ainda assim se aproximou dos jovens, talvez por curiosidade. Mais perto, puderam ver que ele tinha poucos dentes na boca e era bem mais velho que o pai de Fabi.

– Cês querem o quê? – Disse o homem, secamente.

– Desculpe, amigo. Foi um engano.

Retornaram à cidadezinha no início da tarde. A primeira pista era falsa, mas eles ainda tinham o resto do dia. À noite teriam de retornar ao Montanha Russa. Além da praça, não havia qualquer iluminação urbana por ali. Lancharam qualquer coisa na padaria, onde avisaram o senhor e a pipoqueira que o Marcos não era o do barro seco.

A tarde foi gasta perambulando pela cidade. Mostraram a foto para pequenos comerciantes, no posto de saúde e passantes. Até turistas. Vai que alguém tinha visto aquele rosto, mas ninguém tinha. Martin logo percebeu que aquela abordagem talvez não fosse apropriada. Aquele era um povo desconfiado. Mas não havia alternativa melhor. E ele tinha prometido a Fabi. Sim, era uma promessa. Não quis meter bronca? Agora corra atrás.

Quando o sol se pôs, voltaram à padaria. O semblante de Fabi agora era triste, o brilho tinha sumido. Estavam cansados. Enquanto tomavam café, ela suspirou:

– Ele não deve mais morar aqui.

– Amanhã a gente tenta de novo. – Martin tentou animá-la, mas só conseguiu parecer obcecado.

Foi quando a pipoqueira entrou na padaria, se aproximou da mesa dos dois, e disse com firmeza:

– Você é mesmo filha dele, menina?

Fabi apenas acenou positivamente. Martin insistiu:

– Não dá pra ver que ela é a cara dele?!

A mulher então sorriu pela primeira vez, e admitiu:

– Você parece mesmo com ele. O Marcos mora num condomínio de casas logo ali na ladeira. Ele tá casado com uma professora. É uma casa branca no lado esquerdo da rua, não tem como errar.

Martin nem agradeceu direito. Voaram para o carro. A rua da ladeira ficava a menos de cem metros da padaria. Ele estacionou em frente à cerca de madeira que separava as ruas do condomínio. Estava encostada. Entraram. A casa branca tinha uma grande varanda à frente, que estava em obras.

– Ô de casa!

Um homem louro apareceu na janela, e pareceu não acreditar no que viu. Mas soube exatamente o que viu:

– Filha?!

Fabi correu pela varanda em direção à casa, saltando por tapumes e tapetes de grama empilhados que ainda seriam aplicados. O homem correu à porta e eles se abraçaram longamente.

Martin levará aquela cena na memória para toda a vida. De seus olhos, um suor másculo teimava em correr pelo rosto. Durante um tempo, um efêmero mas precioso momento, a vida parecia enfim fazer todo o sentido.

Continua…

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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